Docentes da ECA participam de projetos de impacto científico e social em comunidades vizinhas à USP

Iniciativas integram o nPeriferias, novo grupo de pesquisa do Instituto de Estudos Avançados (IEA), que reúne pesquisadores e ativistas de dentro e de fora da Universidade

 

Um dos oito projetos vencedores do Programa Ciência Cidadã, da Pró-reitoria de Pesquisa (PRP), o App Censo Periferias USP pretende disponibilizar dados levantados sobre comunidades vizinhas a Universidade nos bairros do Butantã e de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, onde fica a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). A ideia é identificar as áreas mais vulneráveis e o tipo de problema que as atingem (água, energia elétrica, esgoto, etc.) e tornar essas informações facilmente acessíveis tanto para os moradores destas favelas quanto para a comunidade USP, de modo a facilitar o desenvolvimento de soluções para tais problemas. 

A proposta tem origem em uma experiência realizada na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, e foi trazida para a USP durante a passagem da educadora e ativista Eliana Sousa Silva pela Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência do Instituto de Estudos Avançados (IEA). O projeto de recenseamento é uma das iniciativas do grupo nPeriferias, idealizado por Eliana e vinculado ao IEA. O grupo conta com coordenação tripla: a própria Eliana, a professora da EACH Gislene Aparecida dos Santos e o professor do Departamento de Informação e Cultura (CBD) Martin Grossmann, que também é o coordenador acadêmico da Cátedra Olavo Setubal. O nPeriferias tem ainda o professor Dennis de Oliveira, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), entre seus integrantes. 

Atualmente o projeto conta com 24 estudantes, a maioria bolsistas do Programa Unificado de Bolsas (PUB), que trabalham em diversas frentes de levantamento de dados. Segundo Grossmann, o censo populacional já foi concluído, mas ainda falta mapear a presença de pequenos empreendimentos e organizações não-governamentais (ONGs). Estas informações serão coletadas a partir da retomada da pesquisa de campo, que precisou ser suspensa em razão da pandemia. Os dados preliminares serão disponibilizados em uma plataforma até o final de 2020. 

 

Rua do Jardim São RemoRua do Jardim São Remo, comunidade vizinha à Cidade Universitária, no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo. Foto: Ana Maria Haddad. 

 

Estimativa de parâmetros epidemiológicos, modelagem matemática e documentação da vivência da pandemia na Favela São Remo

Com a chegada da covid-19 ao Brasil, muitos estudiosos e ativistas alertaram para o fato de que as recomendações de distanciamento social adotadas em países da Europa seriam incompatíveis com as condições precárias de infra-estrutura existentes nas favelas, onde com frequência famílias inteiras dividem moradias pequenas e com poucos cômodos. Além disso, muitas comunidades, mesmo em cidades mais ricas, como São Paulo, ainda têm pouco acesso a água tratada e rede de esgoto. 

Considerando esse cenário, os integrantes do nPeriferias deram início a uma pesquisa multidisciplinar, dividida em três eixos. O primeiro vai estimar parâmetros epidemiológicos da covid-19 para caracterizar a força da infecção, a cobertura da imunidade populacional e identificar fatores de risco. O segundo eixo fará uma modelagem matemática da dinâmica de transmissão e espalhamento da doença, enquanto o terceiro eixo vai caracterizar a vivência da pandemia a partir de registros fotográficos e audiovisuais feitos pelo próprios moradores. 

Os três eixos de pesquisa constituem três estudos interdependentes. Os parâmetros epidemiológicos resultantes do primeiro estudo alimentarão os modelos matemáticos do segundo, enquanto o terceiro estudo fornecerá informações para a construção de uma hipótese causal que orientará a identificação de fatores de risco no primeiro estudo. Com foco na favela São Remo, o projeto conta com pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) e da Faculdade de Medicina Veterinária (FMVZ), além da professora Gislene e de articuladores oriundos da própria comunidade. 

O financiamento do projeto vem de doações do Itaú Cultural, Fundação Tide Setubal e pessoas físicas. A rede formada em torno do projeto de pesquisa tem tido um papel importante durante a pandemia, viabilizando a distribuição de cestas básicas e kits de higiene não apenas na São Remo, mas também nas comunidades de Jardim Keralux e Vila Guaraciaba, vizinhas à EACH. O projeto ainda conta com a parceria das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) existentes nessas áreas. 

Rua do Jardim KeraluxRua do Jardim Keralux, comunidade vizinha à EACH, no bairro de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo. Foto: Vander Ramos. 

 

Os pesquisadores esperam que os resultados dos estudos contribuam para a compreensão das especificidades em saúde nas regiões periféricas, agravadas pela pandemia. E, a partir dessa compreensão, oferecer condições para o aprimoramento de políticas públicas já existentes e orientar o desenvolvimento de novas ações de combate às desigualdades no acesso a saúde e outros direitos fundamentais pelas populações periféricas. 

Martin Grossman ressalta a importância da Universidade ter uma política mais institucionalizada para as comunidades do seu entorno, sem que elas fiquem sujeitas a uma relação “da centralidade para a periferia”. “A ideia da Eliana é institucionalizar essa relação com a periferia. Um programa institucional que possa também organizar esse tipo de ação com os vizinhos, mas antes de mais nada, fazer com que os vizinhos sejam de fato partícipes, sejam parceiros. Eles não são sujeitos que recebem passivamente o que a Universidade a princípio pretende. E como ela não atua como um corpo, ela atua como projetos independentes, fica essa questão que a USP é algo bastante abstrato [para os moradores das comunidades]. A gente tem perguntas muito específicas pra dizer como que os moradores da São Remo veem a USP.”

 

Sobre o nPeriferias

O nPeriferias, novo grupo de pesquisa do IEA, propõe pesquisar temas relacionados a regiões periféricas com o objetivo de produzir trabalhos que tenham impacto social e desenvolvam novas teorias e conhecimentos. O período de atuação previsto para o grupo é de 10 anos, contados a partir de 2020.

Na visão do grupo, as pesquisas que tomam a periferia como objeto de estudos “não costumam ter o cuidado fundamental de envolver, em suas elaborações e desenvolvimento, os sujeitos periféricos”. Por isso, seu diferencial será investigar as periferias por meio das vozes destas pessoas, “constituindo-se como um espaço de formação de intelectuais, lideranças e pesquisadores oriundos da periferia”. 

Saiba mais sobre o nPeriferias nesta matéria e acompanhe suas atividades pelo Facebook.

 

Texto: Amanda Ferreira

Foto de destaque: Agência USP