Agência Universitária de Notícias completa 50 anos de comunicação social, ciência e aprendizado

Com 50 anos de história, a Agência Universitária de Notícias é uma obra de gerações - um trabalho que, em meio século, envolveu centenas de alunos e diversos professores e funcionários do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), unidos pela vontade de estabelecer, entre sociedade e ciência, uma relação mais forte e familiar. De 1967 para cá, essa coletividade gerou frutos: a AUN, como é chamada, apresenta-se hoje como uma das mídias mais importantes da Universidade de São Paulo, sendo uma das responsáveis em levar a produção da academia para fora dos muros da Universidade, bem como um laboratório essencial na formação dos estudantes de jornalismo e na produção do conhecimento.

Os primeiros anos

Na segunda metade dos anos 60, quando a ECA foi fundada, duas ideias marcavam a cena jornalística: a primeira, “um clima interessante de propor que os fluxos de informação hegemônicos, regidos pelo Norte, fossem quebrados pela voz dos países do Sul”, e assim deslocar o monopólio da informação das mãos do norte com a criação de agências de notícias próprias nos países latino-americanos, conforme pontua Cremilda Medina, uma das primeiras professoras da AUN; e a segunda, de proporcionar uma formação em nível superior aos profissionais da comunicação. A respeito da última ideia, contudo, José Luiz Proença, docente da Agência há 40 anos, comenta que havia um problema, já que o Departamento não tinha sequer uma redação.

Em 1967, o então professor e deputado José de Freitas Nobre participou de um curso no Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina (Ciespal), onde entrou em contato com um noticiário em espanhol com informações sobre pesquisas universitárias, produzido pela organização no sentido de realizar uma maior divulgação da ciência. A partir de então, Freitas Nobre levantou a hipótese de criar uma agência de notícias dentro do próprio Departamento; afinal, ela seria um passo na direção de resolver as duas questões do período, por criar uma redação e fomentar o aprendizado dos alunos, ao passo em que o fazia por meio de um veículo de comunicação que cobria os eventos locais.

No mesmo ano, o Departamento deu início à AUN, integrando-a à disciplina Jornalismo Informativo. Em seus primeiros momentos, os alunos eram responsáveis por traduzir para o português o material produzido pelo noticiário do Ciespal e organizar boletins, que eram distribuídos para os veículos de comunicação. Em determinado momento, porém, Cremilda Medina e Paulo Roberto Leandro foram convidados para assumirem a Agência; a partir desse período, o boletim deixou de apresentar traduções e passou a contar com textos que investigavam a produção científica da Universidade e eram escritos pelos alunos do terceiro ano do curso.

Àquela época, os alunos eram organizados em duas turmas, uma responsável pela produção das reportagens e outra pela edição, situação que se invertia na metade do semestre. Nesse processo, de acordo com Proença, a Agência conseguiu introduzir os suportes essenciais para a criação de um veículo jornalístico: periodicidade, que era semanal; universo de cobertura, focado na Universidade, e público, a saber, os jornalistas das grandes redações de São Paulo, sucursais do Rio de Janeiro e jornais interior do estado, a quem os boletins eram distribuídos gratuitamente.

Nesse processo, ao passo em que a Agência se firmava como um veículo que levava a ciência da Universidade para a sociedade, e vice-versa, ela também propiciava um aprendizado aos alunos, que “passavam por uma experiência de campo, fundamental, para colher a reportagem incentivava a capacidade efetiva de transformar a informação bruta em sentidos articulados”.

“Não há nada como uma agência de notícias para fazer o estudante de jornalismo tomar raízes num serviço de informação à sociedade,” comenta Cremilda. Assim, segundo a professora, são três os pés que amparam esses 50 anos: “Primeiro, a questão de uma política de comunicação social do sul; segundo, um projeto pedagógico, que é a melhor maneira de formar um aluno para prestar um serviço de informação para a sociedade; e terceiro, o fato de essa agência não ser puramente um serviço de divulgação da ciência, mas sim de comunicação social”. 

Instabilidades e recuperações

Ainda que a produção da Agência fosse de muita qualidade, os tempos turbulentos em que se encontrava o país, em decorrência da Ditadura Militar deflagrada em 1964, afetou o veículo e levou-o à um período instável.

A primeira ocasião deu-se no início dos anos 70, quando a redação da AUN, no Departamento, foi saqueada e teve algumas de suas máquinas destruídas. Além disso, em mais de uma situação, a Agência sofreu uma censura explícita do governo, como quando foi veiculada uma reportagem realizada a partir da primeira tese defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) acerca do Banco Nacional de Habitação; a matéria atingiu notoriedade e, dias depois, Cremilda foi chamada à direção da Escola, onde um telegrama do então presidente Ernesto Geisel informava que a Agência Universitária de Notícias era “atentatória à segurança nacional”.

Esses acontecimentos levaram à algumas interrupções pontuais na circulação dos boletins. Porém, foi em 1975 que a Agência sofreu seu maior golpe: Sinval Medina, outro professor responsável pela disciplina, sofreu uma cassação branca ao ser reprovado em sua banca de mestrado, sendo que a aprovação era essencial para que o contrato do professor pudesse ser renovado. Muitos professores simpatizaram-se à causa e um movimento de demissão coletiva foi iniciado; Cremilda Medina e Paulo Roberto Leandro uniram-se aos docentes que saíram do Departamento em apoio. Com isso, a Agência ficou paralisada por cerca de dois anos.

Em 1977, a contratação do professor José Luiz Proença marcou a recuperação do ritmo de produção da Agência. “A ideia era que a gente produzisse matérias de ciência da Universidade e passasse para os órgãos de divulgação,” conta o docente. “E também, que nos centrássemos em estudar a questão da notícia e tivéssemos uma atividade prática que fosse uma extensão desse estudo conceitual”.

Nesse retorno à ativa, a Agência passou por algumas reformulações e, em determinado momento, fechou um convênio com a Agência Estado, que foi criada por volta deste período. De acordo com Proença, o veículo instalou no Departamento dois telex, aparelho que permitia o envio de mensagens escritas em tempo real entre dois terminais telefônicos, um para receber as notícias nacionais e outro para as notícias internacionais. “Tínhamos monitores que eram encarregados de olhar o material, selecionar e ver o que era possível fazer de suíte dentro da Universidade”, conta o professor. Além disso, o Estado de S. Paulo também passou a pagar para que alguns alunos produzissem matérias, em um sistema de freelancer.

A partir desse convênio, percebeu-se a possibilidade de organizar uma cobertura da produção científica da Universidade através de um sistema de setoristas, ou seja, cada aluno ficaria responsável por uma unidade do campus da capital da USP, o que, segundo o professor André Chaves de Melo, atual docente da AUN ao lado de Proença, foi importante para aumentar a diversidade das notícias, “promovendo a variedade e o equilíbrio da cobertura de ciência”. Esse sistema é mantido até os dias de hoje.

Dias atuais

Nos anos 2000, a Agência ganhou a primeira versão de seu website e interrompeu completamente a versão impressa. “Havia já uma mudança no mercado, boa parte das agências de notícia já eram informatizadas, então foi um processo natural,” comenta André. “Como vantagem, acabou se eliminando as etapas de produção do mimeógrafo e ficou muito mais ágil produzir o boletim”.

Em 2013, um novo site foi inaugurado, ganhando novas funções e sistemas de usabilidade e, no mesmo período, o mailing da Agência foi rearticulado por sua equipe. A partir dessa nova fase, que contou ainda com duas outras atualizações do portal, uma em 2015 e outra em 2017, a AUN já atingiu a marca de 1,7 milhões acessos e milhares de assinantes do boletim, ganhou um número no sistema internacional de publicações digitais ISSN, fechou uma parceria com o Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBi) e passou a cobrir a produção do Portal de Revistas da USP, em ação que colaborou para a entrada do mesmo no Ranking Web of Repositories e, ainda, se reconfigurou e passou a operar em uma periodicidade diária. As possibilidades permitidas pelo meio online propiciaram à Agência, ainda, uma exploração mais extensa de imagens e demais formatos, como vídeos e gifs, e uma maior distribuição do seu conteúdo, sendo os Estados Unidos, por exemplo, o país com o segundo maior número de leitores no mundo, de acordo com André.

“Essas mudanças que a gente introduziu permitiram uma maior repercussão e a ampliação do diálogo social criado a partir das informações divulgadas por nossos alunos,” pontua André, situação que tem sido reconhecida, por exemplo, através de premiações: a Agência é, desde 2014, presença constante no Prêmio de Jornalismo José Hamilton Ribeiro, sendo que, na primeira participação, uma matéria ganhou o primeiro prêmio, enquanto que, nos demais anos, quatro matérias ficaram entre os dez melhores.

Apesar de todas as mudanças, ao longo dos anos uma coisa permaneceu a mesma: seus diferenciais perante outras agências de notícia. É o caso, por exemplo, de sua estrutura alternativa, que se baseia no tripé fundamental da universidade pública, “objetivando o ensino, comunicando, em um processo de extensão e produzindo uma relação que permite a realização de pesquisa,” conforme revela André Chaves de Melo. Já de acordo com José Luiz Proença, outros diferenciais são a questão da novidade, já que a agência trabalha “com informações mais inéditas, revelando novas fontes e pesquisas” e da produção de informações de ciência “para o público geral, não para especialistas, usando de uma linguagem inteligível”. 

Após tantos anos de vida, a Agência Universitária de Notícias continua fazendo o que sabe melhor: formar jornalistas e leva à sociedade a ciência universitária. Presente na maior parte destes 50 anos, Cremilda Medina finaliza: “É um projeto que tem uma maturidade identitária, não é simplesmente técnico ou para vaidade, mas é algo que tem essa raiz de inserção na sociedade. Apesar dos solavancos históricos, é uma coisa de serviço social.”

Texto: Victória Martins

Foto de destaque: Rodrigo Siqueira