Aluna da ECA integra equipe vencedora do desafio USP na Vatican Hack

Em dezembro, ocorreu na Cidade Universitária a competição USP na Vatican Hack. A competição é voltada para alunos que estejam, no mínimo, no sétimo semestre da graduação e possuam inglês intermediário. As inscrições da competição poderiam ocorrer de forma individual ou em grupos de até cinco participantes, sendo estes, obrigatoriamente, dois no papel de Engenheiro de Software (da Poli), 1 no papel de Negócios (do curso de administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade), 1 no papel de Designer (do curso de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) e um de qualquer curso da universidade.

Entre os vencedores da competição está Haline Floriano, estudante de Relações Públicas da ECA que conversou com o Laboratório Agência de Comunicação (LAC) sobre as suas impressões e a experiência de ter participado do evento.


Victor Alves de Souza (FAU), Rafael Rodrigues Mendes Ribeiro (EESC), Haline Aparecida de Oliveira Floriano (ECA), Fernando Vezzani Ferreira de Santana (FEA) e Lais Harumi Fukujima Aguiar (Poli) estão entre os vencedores da competição USP na Vatican Hack

Como funciona a competição USP na Vatican Hack?

A USP na Vatican Hack tinha a missão de premiar o grupo que apresentasse a melhor solução para o problema exposto, além de selecionar cinco estudantes para representar a USP na competição no Vaticano. Obrigatoriamente, o grupo que iria para o Vaticano deveria ter um aluno da FAU, um da FEA, dois da Poli e um estudante que poderia ser de qualquer unidade da USP, que desempenharia a função de Social Solutions Designer. Os outros quatro estudantes também teriam uma função específica, de acordo com o seu curso de origem.

A primeira etapa para a USP na Vatican Hack foi a inscrição on-line. Nós podíamos nos inscrever individualmente ou em grupo. A inscrição on-line não garantia a nossa participação, pois foi feita uma seleção de quem tinha o perfil que eles procuravam para o evento. Após as inscrições, foram escolhidos 30 alunos para participarem dos dois dias da USP na Vatican Hack.

No primeiro dia, tivemos palestras sobre o tema do desafio – os refugiados e o contexto atual brasileiro na esfera política e social. Vimos apresentações sobre assuntos relacionados ao desenvolvimento de projetos de inovação como design thinking, técnicas para desenvolver, testar e vender as ideias, e oficinas de prototipação. Foram palestras que nos trouxeram o aspecto social, de negócios e tecnológico sobre o tema; de como poderíamos trabalhar todos esses detalhes no desenvolvimento do nosso projeto. Durante as apresentações, nós tivemos dinâmicas e atividades práticas para entendermos melhor a complexidade de cada etapa do processo da solução final.

O desafio em si foi lançado após as apresentações, no final da tarde do primeiro dia. Desde que começamos a trabalhar em cima de nossa proposta, tínhamos mentores que nos acompanhavam, ajudando-nos a pensar na viabilidade e servindo de apoio às nossas dúvidas.  

Os mentores permaneceram conosco nos dois dias. E eles estiveram com os jurados na escolha do grupo vencedor.

Foram dois dias, em um único final de semana, no prédio da Escola Politécnica (Poli). Foi uma imersão total no tema. No primeiro dia, podíamos permanecer somente até às 18h na sala; porém, o meu grupo se reuniu na minha casa para continuar desenvolvendo a nossa solução.

No domingo, segundo dia, os grupos tiveram até às 16h para finalizar o projeto; em seguida, cada equipe apresentou o pitch, de 5 minutos.

Abriu-se um espaço para perguntas e depois de todos apresentarem, os jurados se reuniram com a comissão organizadora e os mentores, para escolherem o grupo vencedor.

Como disse no começo, eram duas competições simultâneas, então não necessariamente todos os integrantes do grupo vencedor foram os escolhidos para representar a USP no Vaticano. A escolha dos cinco alunos foi baseada no desenvolvimento ao longo dos dois dias, o trabalho em grupo, aptidão na área para a qual se inscreveu, entre outros. Os nomes dos cinco foram divulgados na segunda-feira posterior ao evento, após consenso entre a comissão organizadora, jurados e mentores.

Como você teve conhecimento sobre a competição?

Eu fiquei sabendo por meio do Facebook! Um amigo meu que estuda na Poli compartilhou a publicação que anunciava a competição.

No que consistia o questionamento proposto para os participantes resolverem? E qual a solução proposta pelo seu grupo?

Na competição no Vaticano, são três os possíveis temas a serem abordados: refugiados, inclusão social e diálogos inter-religiosos. A organização da USP na Vatican Hack selecionou a temática dos refugiados, mais especificamente a seguinte problemática: reforçar o apoio e mobilizar recursos aos migrantes e refugiados, apoiá-los em seus caminhos para se assentar e viver uma vida normal, promover o diálogo e a cooperação entre as sociedades acolhedoras e os migrantes.

A partir disso, precisávamos escolher um ou mais de três aspectos da sociedade: saúde, trabalho ou educação. Ao selecionar, tínhamos que desenvolver uma solução que usasse a tecnologia a favor, como ferramenta para os refugiados.

Em grupo, após discutirmos, selecionamos a vertente do trabalho. A  nossa solução foi a plataforma Ref-a-Ref, uma central de e-mails que seria o primeiro emprego do refugiado. Uma empresa que tenha ou deseje ter um serviço de atendimento ao consumidor (SAC) por e-mail contrataria a Ref-a-Ref para utilizar sua plataforma. Caberá ao refugiado, cadastrado na plataforma, responder as dúvidas ou sugestões encaminhadas ao SAC da empresa.

O refugiado seria pago pela empresa para receber os e-mails dos consumidores, ler e responder as mensagens utilizando um serviço de tradutor automático como apoio. Isso resolve três problemas do refugiado: encontrar um emprego inicial no país, aprender o idioma e ter uma fonte de renda inicial. Durante o período em que o refugiado estivesse atendendo ao SAC, ele contaria com um curso de português, para aproximá-lo cada vez mais do idioma – uma grande barreira enfrentada por ele.

Além de executar o trabalho, na assinatura do e-mail haveria o nome do refugiado, com um breve histórico e currículo dele, funcionando também como um canal no qual a pessoa que recebeu a resposta poderia contatá-lo, via Ref-a-Ref, para uma oferta de emprego ou fazer uma doação a esse refugiado para dar apoio financeiro.

A empresa utilizadora da plataforma ganharia em relação ao custo das operações do SAC, que não seria superior ao que ela pagaria no mercado, mas, principalmente, estaria cumprindo com sua responsabilidade social, gerando um impacto positivo para sua imagem perante a sociedade.

O nosso intuito era ser a ponte para o primeiro emprego do refugiado. Para isso, contaríamos com o apoio de ONGs que atuam em prol dos migrantes. Conversamos com algumas e todas com as quais falamos gostaram da ideia. Pensamos em ter um escritório para incluir os refugiados no dia a dia brasileiro, integrando-o a outras pessoas, pois geralmente eles ficam isolados e têm sua cultura moldada de acordo com os padrões do novo país para onde vão. Aliás, nossa ideia despontou por termos conversado com um refugiado que enfatizou a solidão do migrante e a dificuldade de encontrar um emprego no Brasil.


Haline Floriano (primeira, à esq.), aluna do curso de Relações Públicas, desenvolveu, junto com estudantes de outras unidades da USP, a proposta de uma plataforma chamada Ref-a-Ref, uma central de atendimento por e-mail que seria o primeiro emprego de um refugiado

Quais fatores te levaram a decisão de participar do USP na Vatican Hack?

Eu sempre gostei muito de questões sociais, políticas públicas e cidadania, no geral. Ao longo dos semestres na faculdade, passei a procurar experiências que me concedessem mais contato com a temática. Quando vi a USP na Vatican Hack, fiquei animada com a possibilidade de estar em um ambiente com pessoas de inúmeros cursos diferentes, mas todas com uma filosofia de vida parecida com a minha, além do possível engajamento com projetos sociais.

A USP acaba sendo uma bolha na qual as unidades não têm muita interação; e isso é um erro, pois poderíamos produzir muito mais “material”, principalmente no âmbito de extensão universitária, se aproveitássemos o que cada curso tem para oferecer no aspecto global e não somente no específico da sua área. Estamos em um contexto que não basta apenas, por exemplo, um cientista social ficar atento aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU; todos nós temos que conhecê-los e visar alcançá-los.

Dessa forma, a competição foi a oportunidade de ver pensamentos sob óticas distintas em prol de uma mesma causa social. Eu também nunca tinha participado de um hackaton, e vi que durante o evento teríamos palestras sobre tópicos que nunca estudei profundamente, mas que me ajudariam para além da competição, como design thinking.

Com foi o processo de escolha do grupo, unindo diferenças para o desenvolvimento do trabalho?

Para a competição, podíamos nos inscrever em grupo ou individualmente. Eu me inscrevi sozinha, então fui alocada em um grupo com mais cinco pessoas que também estavam sem grupo. A disposição foi feita pela comissão organizadora da USP na Vatican Hack. Eles formaram equipes que tinham alunos de todas as áreas da competição, no caso: estudantes da Poli, FAU, FEA e de outra unidade da USP.

O trabalho que tivemos foi o de parar para pensarmos sob a ótica do outro. Um completava o pensamento do outro. Às vezes, era um pouco difícil, mas a USP na Vatican Hack foi excelente para conseguirmos nos organizar em tão pouco tempo, tentando aproveitar o máximo que cada um tinha para colaborar. O tempo era reduzido, então precisávamos nos articular como grupo.

Você acredita que ter pessoas de diferentes cursos no Vatican Hack colaborou para o desenvolvimento da resolução do problema proposto?

Sem dúvidas! Acabamos saindo da nossa caixinha individual, e fomos obrigados a entender o pensamento do outro. As ideias eram complementares, pois cada um pontuava detalhes por meio de uma percepção que nem todos viam da mesma forma. A interação ajudava muito! Só conseguimos chegar na solução porque contamos com a experiência de todos. O particular proporcionou o todo, que foi a nossa plataforma. Ela passou por conversas com ONGs, estruturação de plataforma e diversos outros detalhes, que contou com a ajuda de todo o elenco.

Texto: Beatriz Gomes Furtunato 
Fotos: Divulgação/USP na Vatican Hack