Vencedora em duas categorias do Anima Mundi, aluna do CTR fala sobre o curta "Lé com Cré"

Cassandra Reis, ex-aluna do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), ganhou o Prêmio Carlos Saldanha de Melhor Curta de Estudante Brasileiro e, pelo voto do júri popular na edição de São Paulo, o prêmio de Melhor Curta infantil do Festival Anima Mundi, o maior festival internacional de animação da América Latina, com o curta Lé com Cré, seu seu trabalho de conclusão de curso. 

O documentário em animação possui cerca de cinco minutos e aborda três temas: dinheiro, medo e coisas de menino e de menina. Com esta proposta, sete crianças, representadas como desejaram, definem e abordam as suas opiniões sobre cada uma das temáticas.

O início do projeto e a elaboração

A cineasta conta que a ideia do projeto surgiu no início de 2013 quando, durante uma aula de modelagem no Departamento de Artes Plásticas (CAP), ela assistiu ao documentário biográfico Só dez por cento é mentira 2, que aborda a vida do poeta Manoel de Barros. Esse filme abriu espaço para que Cassandra conhecesse a obra de Manoel e reflitisse sobre o “encanto pelo olhar infantil, vestido de uma segurança de quem fala sobre algo relevante e comum a todos (afinal, todos já foram ou são crianças)”.

Algum tempo depois, ela se deparou com o livro Casa das Estrelas, de Javier Naranjo, docente colombiano que coletou depoimentos de seus alunos sobre temas diversos e os reuniu em uma publicação. Novamente, ela viu-se encantada pela abordagem infantil e decidiu que queria fazer algo parecido: "ouvir das crianças, o que elas teriam a dizer sobre as coisas e me forçar a olhar por esse mesmo ponto de vista. Fazer um documentário sobre isso, então, não me parecia má ideia”.

No processo de elaboração, Cassandra relata que a possibilidade de utilizar a imagem dos entrevistados era um dos fatores que a incomodavam, citando a necessidade burocrática de ter a autorização dos pais de todas as crianças que estariam presentes no curta. A cineasta conta que gostaria que as crianças se divertissem mais do que ter somente o direito das suas imagens, então optou por ouvir das próprias crianças como elas gostariam de ser retratadas no documentário para, então, fazer versões delas na forma de uma animação.

Processo de criação

A diretora divide o processo de trabalho em duas etapas: a fase documental e a fase de animação. A primeira contou com a entrevista de mais de 60 crianças de cinco escolas diferentes, seguida da definição dos sete personagens, roteirização do tema e, a partir disso, o início da montagem. A edição do curta ocorreu aos poucos, de acordo com a produção das cenas.

Após a definição dos personagens, ela criou as artes conceituais sobre o que cada criança gostaria de ser e também do cenário para, somente depois disso, começar a confecção deles. Nesta etapa, ela explica que teve o apoio de Gabriel Barreto, funcionário do CTR que ajuda os alunos a modelar com resina e que também possui experiência com stopmotion. “Pude aprender com ele praticamente todas as técnicas que utilizei, desde a modelagem, passando pelos moldes, peças em látex, pintura, feitura dos esqueletos, tudo”. A produção dos bonecos e cenários duraram mais de um ano. Cassandra contou ainda com o apoio de colegas que também estudaram audiovisual, por exemplo, Mari Lopes, produtora e co-roteirista do curta.

Depois de muitas etapas prontas, foram cerca de 10 meses no estúdio C do Departamento, até outubro do ano passado, entre as montagens dos sets, começar a animação e os obstáculos que apareceram durante a produção. Em seguida, iniciou-se a etapa de finalização, pós e edição do som; assim que a trilha e vinheta ficaram prontas, ela mixou e finalizou o filme no próprio CTR. 

Premiação do Anima Mundi

A diretora  explica que antes mesmo de vir para São Paulo e ingressar na ECA já tinha conhecimento sobre o Anima Mundi. “Sempre gostei de animação e tê-la “tão perto” era alguma coisa pela qual, de certa forma, estava ansiosa”. Ela relata que no CTR é muito comum que os alunos produzam filmes dentro do Departamento e que esses materiais sejam inscritos em diversos festivais, geralmente em categorias específicas para filmes produzido por estudantes. Com isso, ela conseguiu realizar sua inscrição no Anima Mundi, dentro da categoria infantil, possibilitando que seu trabalho participasse da Mostra Competitiva de Curtas Infantis.

Cassandra relata que conseguiu o ingresso para a sessão de encerramento e premiação no Rio de Janeiro quase de última hora justamente por pensar que os jurados avisassem os ganhadores das categorias com alguma antecedência. Ao ser anunciada como ganhadora, após o momento de susto e surpresa, ficou muito feliz por ter o seu trabalho reconhecido e outras pessoas verem o Lé com Cré como um potencial a ser desenvolvido. Na edição de São Paulo, o filme ganhou outro prêmio, desta vez na categoria de Melhor Curta Infantil, de acordo com o voto do júri popular. Ela ainda pontua que o filme vem sendo inscrito em outros festivais e espera que ele tenha uma boa trajetória e seja aceito em outras mostras.

Aprendizagem na execução do trabalho

Cassandra conta que os aprendizados durante a execução do projeto foram inúmeros, desde os conceitos mais básicos de animação até a produção de bonecos e cenários para stop-motion. Ela pondera que uma das coisas mais importantes durante esse processo foi “aprender muito sobre o meu modo de trabalhar”. Apesar de realizar muitas etapas da animação sozinha, ela relata que o filme ficou pronto da forma que ela acreditava porque recebeu a ajuda de muitas amigas. “Ver que mais pessoas têm um mesmo propósito que você dá um motivo pra fazer tudo que precisa ser feito”.

Cassandra aponta que apesar das muitas exigências sobre o produto final do trabalho desenvolvido, é importante que os estudantes saibam “aproveitar esse momento para aprender”. Ela diz que mesmo diante de diversas dificuldades ao longo do caminho, não imaginaria nenhuma outra condição para vivenciar tudo o que aconteceu na produção de Lé com Cré.

Texto: Beatriz Gomes Furtunato
Fotos: Acervo pessoal