Ano 25 do Notícias do Jardim São Remo: jornal laboratório beneficia alunos de jornalismo e moradores da comunidade

O jornal Notícias do Jardim São Remo (NJSR), produzido pelos alunos do primeiro ano do curso de jornalismo, é uma disciplina laboratório, isto é, prática, em que os estudantes têm o primeiro contato com o jornalismo. Todo o conteúdo vêm da comunidade São Remo, que fica ao lado do campus da USP, localizado no bairro do Butantã. E, em 2018, o jornal está no ano 25.

Trajetória

O professor Dennis de Oliveira, responsável pela disciplina, conta que o jornal começou a ser distribuído em setembro de 1994. Foi idealizado pelo professor Manuel Carlos Chaparro, que ministrava as aulas de Laboratório de Texto. “O objetivo dessa disciplina era iniciar os estudantes de jornalismo no texto jornalístico. E o Chaparro tem a percepção que uma das características do texto jornalístico é escrever para um público definido.”

Foi com a finalidade de estabelecer um público que o professor criou o Notícias do Jardim São Remo. No início, era uma espécie de jornal mural, impresso pela gráfica da ECA e fixado em lugares de maior circulação de moradores.

“Naquela época, era um jornal vinculado a Associação de Moradores da São Remo. E o presidente da associação era funcionário da USP”, explica Dennis. Essa proximidade dos moradores da comunidade com a Universidade foi um dos fatores que fizeram a São Remo ser escolhida como público do jornal. Com o tempo, o jornal deixou de ser vinculado a Associação de Moradores, passou a ser jornal impresso e distribuído gratuitamente aos moradores.


De jornal mural a berliner: Notícias do Jardim São Remo chega ao ano 25 com tiragem de 1500 exemplares, distribuídos gratuitamente aos moradores da comunidade. Formato atual ganhou capa e contracapa coloridas. 

Atualmente, o NJSR possui formato mais próximo ao berliner (28 x 42 cm) e é composto pelos cadernos Debate e entrevista, em que um tema é escolhido, debatido com os moradores e, a partir disso, é feita uma entrevista com um especialista; Comunidade e Papo reto, que aborda os assuntos das lutas comunitárias; São remano, caderno de cultura; Esportes; Mulheres, e o São Reminho, a seção infantil do jornal.

Algumas dessas editorias foram reivindicadas pelos moradores da comunidade, como a seção Mulheres “Na comunidade, uma parte das lideranças comunitárias são mulheres; isso acontece em todos os bairros periféricos”, afirma Dennis. Diante desse protagonismo, elas reivindicaram um espaço no jornal. Nele, as mulheres não são retratadas na mesma perspectiva mercadológica que a mídia hegemônica usa, mas sim de uma visão popular, alternativa, de acordo com o professor.

Desafio

Produzir um jornal para uma comunidade que, muitas vezes, possui o perfil socioeconômico diferente dos alunos é um desafio. Dennis defende que este é um dos diferenciais do curso de jornalismo da ECA. “Jornalismo é justamente isso: você tem sempre que pensar no seu público, não em você mesmo”. Na opinião do docente, a experiência com o jornal comunitário também dá a oportunidade aos alunos de analisar diversos campos científicos na prática, como sociologia, ciência política, economia e filosofia.

Outro ponto que faz a experiência de um jornal comunitário ser especial no primeiro ano é que, hoje, os repórteres dos grandes jornais costumam buscar fontes de informação nos espaços de poder político e econômico, de acordo com o professor, e se esquecem da periferia. O jornal laboratório pretende criar uma visão mais completa nos futuros repórteres. “Quando ele [o aluno] vai, por exemplo, fazer uma matéria de economia, de política nacional, seja em qualquer veículo, ele sabe que as medidas políticas e econômicas afetam também essa população”, exemplifica.

Parceria

Ao longo dos 24 anos, algumas histórias contadas pelo Notícias do Jardim São Remo contribuíram para que a confiança entre os moradores e os responsáveis pelo jornal crescesse. Além de ajudar na autoestima da São Remo, já que é o único jornal que retrata os assuntos da comunidade.

O professor contou o caso de uma menina da comunidade que foi assassinada por um policial em 2006. Durante uma brincadeira de guerra de ovos na São Remo no carnaval, um ovo atingiu a viatura da polícia e um dos agentes saiu do carro e atirou para cima, atingindo uma garota que estava em uma laje.

Mesmo sendo época de férias, o professor reuniu alguns alunos da turma anterior que produziram uma edição especial do jornal para cobrir o caso. “Cobrimos a passeata pela paz. Nenhum jornal cobriu. Depois disso começamos a acompanhar o desdobramento judicial e o julgamento”, lembra Dennis. O policial foi inocentado porque o exame balístico desapareceu enquanto ele estava afastado das atividades e, no julgamento, não foi possível provar a culpa.

“Esse episódio foi interessante porque mostrou como a gente trata a comunidade de forma distinta. Todos os jornais cobriram naquela lógica de que é uma comunidade violenta. A gente mostrou o outro lado: a comunidade foi vítima de uma violência externa”, explica o professor.


A edição 11, ano 13, cobriu a passeata em protesto ao silenciamento do caso "Cicinha"

Texto e fotos: Mirella Coelho