Artes plásticas: um lugar de todos?

Pesquisadora doutorada pela ECA fala sobre a questão racial no campo artístico e as recentes evoluções da temática

 

No Brasil colonial, o estudo das artes – ou qualquer outro estudo acadêmico, na realidade – era condicionado a uma única coisa: ser da elite.  A partir da Missão Francesa, em 1816, o campo artístico começou a ser mais estudado na colônia, mas ainda com uma visão eurocentrista. Tanto que temporadas de estudo em Paris eram quase obrigatórias para aqueles que queriam seguir a carreira artística. Um dos exemplos mais conhecidos é o da pintora Tarsila do Amaral. 

Alecsandra Matias de Oliveira, doutora pela ECA e colunista do Jornal da USP, traça um panorama histórico: “Artistas negros na história da arte brasileira existem e se mostram relevantes desde o período colonial. Tivemos alguns casos de mulheres e homens negros que frequentaram a Academia e realizaram pesquisas no exterior, contudo, esses nomes foram apagados pela historiografia oficial, somente agora, novas pesquisas têm resgatado essas produções artísticas.”

A questão racial nas artes plásticas continua complexa. Mas progride positivamente. Produções recentes, como A mão afro-brasileira, de 1988, e Territórios, 2014, com curadoria do professor da ECA, Tadeu Chiarelli, são relevantes para mostrar novos artistas negros no cenário das artes contemporâneas. 

O recente episódio ocorrido no tradicional Prêmio Marcantônio Vilaça, em que três dos cinco vencedores foram negros, já indica mudanças nos paradigmas. Na edição, houve também a premiação de uma professora do Departamento de Artes Plásticas (CAP), Dora Longo Bahia

Para Alecsandra, “a premiação pode ser considerada como um grande avanço. Porém, ela é resultado de um processo que já tem extensa duração e que está longe do término.”

Esse processo ocorre desde meados dos anos 1990, quando artistas afro-descendentes começaram a “tomar posse de suas memórias, expressões e cultura” e consequentemente, passaram a expressar esses elementos em seus trabalhos. Ao mesmo tempo, grandes centros culturais passaram a valorizar mais a arte fora do eixo eurocêntrico. Vale relembrar, por exemplo, a exposição História afro-atlânticas no MASP, eleita uma das melhores exposições de 2018 pelo New York Times. 


Foto: de Flávio Cerqueira, Amnésia (2015), acervo MASP, doação do artista, 2018

As artes, em geral, são um instrumento utilizado para questionamento social. Elas inspiram debates, geram reflexões, mudam visões de mundo. E, nesse contexto, “a maioria dos artistas que lidam com a temática afro-brasileira desejam mudanças na sociedade branca e patriarcal que domina o país desde o período colonial”, conclui a pesquisadora.