Cinema brasileiro e argentino se assemelham na ascensão do temor em seus filmes

Quando se fala em Brasil e Argentina, um clima de rivalidade pode surgir, principalmente quando o assunto é futebol, paixão comum entre essas nações. Mas transcendendo os campos, Fernanda Sales Rocha Santos notou algo semelhante entre essas duas culturas: a tendência de filmes guiados pelo amedrontamento. E foi assim que ela escolheu o tema de sua dissertação de mestrado, intitulada Atmosferas do medo: filmes brasileiros e argentinos do início do século XXI. A pesquisa, orientada pela professora Cecília Mello, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), foi apresentada para a ECA e faz parte do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA).

Com o objetivo de conhecer a produção cinematográfica desses dois países, entre os anos de 2000 e 2016, a pesquisadora analisou narrativas permeadas pelo medo, que podem estar tanto no enredo, quanto na forma dos próprios filmes, explorando, assim, a questão da atmosfera. “Sequestraram do gênero horror alguns elementos para transmitir uma sensação de insegurança que dialogam com a temática de tais filmes”, conta a pesquisadora.

Tendo em comum a questão do medo principalmente nas classes média e alta, Fernanda abordou a cinematografia brasileira e argentina a partir da análise sobre como era trabalhada essa questão de elementos de horror em filmes que possuíam, predominantemente, estéticas realistas. Em sua análise, a pesquisadora percebeu que desde os anos 2000 ocorre uma progressão do adensamento do horror na cinematografia de alguns cineastas de seu recorte. Filmes que antes tinham o terror implícito em suas narrativas, hoje em dia, seus criadores têm investido em enredos que dialogam diretamente com esse fator.

Ao longo do estudo, foram analisados vários filmes, mas Fernanda Sales optou por demarcar essa atmosfera de medo em dois longas-metragens: O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2013) e Bem perto de Buenos Aires (Historia del Miedo, Benjamín Naishtat, 2014). De acordo com ela, o fato desses dois filmes serem semelhantes foi crucial para uma análise mais didática: “Tanto a estrutura narrativa, quanto a estética e os elementos formais têm muitas coisas parecidas e o modo que eles trabalham realismo e horror é muito semelhante”.

Os filmes analisados pela pesquisadora se aproximam do drama, mas dialogam com tendências do cinema moderno. Ela conta que os longas, na verdade, são de caráter autoral e independente que brincam com muitos elementos de gênero, porém não de uma forma clássica, por não serem filmes que se encaixam em gêneros fechados, como o próprio drama.

O gótico enquanto estilo nas artes e nas narrativas acrescentou muito na pesquisa: “O gótico não é um gênero fechado, porém é muito atmosférico, trabalha com ambiências, clima, meteorologia e elementos visuais”. Para a pesquisadora, esses fatores corroboram para a noção atmosférica dos filmes. Além disso, uma parte do estudo esteve muito ligada à questão da atmosfera nas obras de arte. Quanto a essa temática, a pesquisadora lembra que ainda há muito que se pesquisar, pois a “atmosfera” no cinema é algo extremamente amplo.

 

Texto originalmente publicado pela Agência Universitária de Notícias (AUN), de autoria do repórter Jonas Santana, estudante do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).