Clássico dos quadrinhos latino-americanos, O Eternauta é alegoria sobre resistência ao autoritarismo

Tese enfoca obras do roteirista Héctor Germán Oesterheld para investigar como as histórias em quadrinhos podem contribuir para a reflexão de questões sociais e políticas

Para muita gente, as histórias em quadrinhos se resumem a personagens infantis e super-heróis. No entanto, não é de hoje que essa linguagem tem sido explorada para a criação de outros tipos de narrativa. É o caso de O Eternauta, novela gráfica de ficção científica publicada pela primeira vez entre 1957 e 1959 dentro da revista argentina Hora Cero. Escrita por Héctor Germán Oesterheld e desenhada por Francisco Solano Lopez, a obra ganhou uma continuação, O Eternauta II, também lançada de forma seriada, entre 1976 e 1978. 

A história começa com uma nevasca radioativa que dizima Buenos Aires. Os poucos habitantes que restam precisam lutar por sua sobrevivência, enfrentando ameaças complexas e desconhecidas em uma jornada que se estende até um futuro pós-apocalíptico. Tendo como inspiração os romances Robinson Crusoé e A Guerra dos Mundos, Oesterheld constrói um universo que permite analisar as dinâmicas de poder dentro da sociedade, especialmente o fenômeno do controle de um estrato social por outro, ao mesmo tempo que propõe estratégias de resistência para este tipo de dominação. 

“El Eternauta e El Eternauta II são contribuições quadrinísticas que apontam a necessidade e a possibilidade (prática) da construção de uma nova sociedade, fundada em outros valores morais, em um modo de viver envolvido por um novo conjunto de hábitos, por meio de uma compreensão mais ampla dos temas coletivos, buscando novas formas de experiências sociais, próximas do socialismo.” Esta é uma das principais conclusões da tese de Douglas Pigozzi, intitulada Por que ler Héctor Oesterheld? A sociedade latino-americana entre as décadas de 1950 e 1970 vista pelos Quadrinhos

Realizado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), com orientação do professor Waldomiro Vergueiro, o trabalho demonstrou o papel que as histórias em quadrinhos podem desempenhar, enquanto meio de comunicação de massa, para uma melhor compreensão das diversas problemáticas da sociedade moderna. Para isso, foi preciso dividir a investigação em três linhas: as histórias em quadrinhos e sua linguagem; as ditaduras militares e o contexto político latino-americano das décadas de 1950, 1960 e 1970; e a proposta quadrinística inovadora de Oesterheld.

Página de O Eternauta.  

Segundo Pigozzi, o fato dos quadrinhos apresentarem imagem, texto e figuras de linguagem simultaneamente facilita a construção de imaginários sociais por parte do leitor. A crescente instabilidade que Argentina e América Latina atravessam entre as décadas de 50 e 70 – que culmina em golpes militares em diversos países da região – dá o tom da crítica política presente em O Eternauta, que se acentua com o passar do tempo. A primeira parte, feita no contexto da Guerra Fria, denuncia possíveis consequências de uma eventual guerra atômica, com críticas sutis ao capitalismo, colonialismo e imperialismo. Já a segunda parte, em meio à ditadura militar, enfoca a luta entre classes sociais diferentes e o desafio da construção de um mundo fundado em outros valores. O próprio Oesterheld não ficou imune à marcha vertiginosa daquele momento histórico: “Oesterheld evolui, ao longo dessas histórias em quadrinhos, de um roteirista pertencente à classe média argentina a um militante de um agrupamento político-militar [os Montoneros]”, destaca o pesquisador. 

Voltando aos quadrinhos, O Eternauta I e II apresentou diversas características inovadoras. Com enredo e personagens complexos, a obra foge da lógica maniqueísta de luta do bem contra o mal, predominante nos quadrinhos latino-americanos de então, fortemente influenciados pela produção dos EUA. A ambientação em Buenos Aires, uma cidade real, proporciona um maior sentimento de identificação nos leitores, até ali acostumados com histórias que se passavam em locais que nada tinham a ver com seu cotidiano e suas referências culturais. Em outra contraposição às histórias de super-heróis, O Eternauta valoriza o companheirismo, a cooperação e o protagonismo coletivo, apesar da atmosfera densa e por vezes angustiante da obra. 

E qual foi a reação dos leitores argentinos na época? “As vendas da história em quadrinhos O Eternauta foram muito significativas, sendo a revista que continha essas histórias muito bem recebida pelo público leitor”, afirma o pesquisador. Em 1969, Oesterheld lançou uma nova versão, com algumas modificações decorrentes das transformações políticas no país. Desta vez, as ilustrações foram feitas pelo uruguaio Alberto Breccia. Aliás, foi com Breccia e seu filho Enrique, também ilustrador, que Oesterheld experimentou o gosto da censura estatal: Vida del Che, uma biografia em quadrinhos de Ernesto Che Guevara, foi proibida de circular. “Essa biografia seria um dos volumes de uma série que acabou não sendo realizada e que incluiria um brasileiro: Getúlio Vargas”, comenta Pigozzi. 

Héctor G. Oesterheld com a esposa Elisa e suas quatro filhas: Estela, Marina, Diana e Beatriz. Foto: Clarín/ Reprodução

Foi com mais de 50 anos de atraso que os brasileiros puderam ler O Eternauta. A parte I foi publicada somente em 2011, seguida por O Eternauta II, em 2013. A primeira tradução para o inglês, publicada em 2015, recebeu o prêmio Will Eisner, o Oscar dos quadrinhos. Outra prova do interesse que a obra segue despertando no público é a adaptação para uma série, que deve ser lançada pela Netflix até 2022. 

Oesterheld deslocou a ênfase dos quadrinhos em entretenimento para um conteúdo mais adulto e politizado.  A mesma trilha foi seguida posteriormente, nos anos 80, pelo francês Enki Bilal, autor de A Feira dos Imortais, e o inglês Alan Moore, criador de V de Vingança. Sequestrado pelas Forças Armadas argentinas em 1977 e desde então nunca mais visto, Oesterheld  é considerado o principal roteirista de quadrinhos da história argentina e latino-americana, pela qualidade de sua obra e dimensão de seu legado. 

Se, por um lado, a obra do autor argentino retrata as opressões sofridas por certos indivíduos em um terrível quadro social, ela nunca deixa de expressar também “uma força irredutível de indignação, que deixa expostas as lutas políticas nas sociedades latino-americanas”. Para Pigozzi, “Oesterheld atuou – e continua atuando, por meio de suas obras –, na desconstrução dos padrões sociais autoritários, em favor da construção de uma organização social que tem como valores o humanismo e a solidariedade. Seria possível a um roteirista de histórias em quadrinhos ter um objetivo mais nobre? Seria isso possível às próprias histórias em quadrinhos?” 

 

Texto: Amanda Ferreira

Imagem de Destaque: O Eternauta