Como trabalham os comunicadores em tempos de pandemia?

Sentimento de medo e aumento da carga horária laboral são alguns dos resultados da pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho

 

Um relatório produzido pelo Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho (CPCT), coordenado pela professora Roseli Figaro, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), traz dados preocupantes sobre as condições de trabalho dos profissionais da comunicação durante a pandemia. 

Segundo a docente, a pesquisa Como trabalham os comunicadores em tempos da pandemia da Covid-19? foi motivada pelo fato de já em março de 2020, no início da pandemia da covid-19 no Brasil, haver notícias sobre as difíceis condições de trabalho vivenciadas pelos comunicadores em todo o país. “Com a investigação em andamento, tivemos, no dia 14 de abril, a notícia da morte do jornalista José Augusto do Nascimento Silva, empregado do SBT. Além dele, muitas outras vidas viriam a ser ceifadas pela doença. Fatos lastimáveis como estes exigiam que soubéssemos mais sobre as condições de trabalho daqueles que atuam na área da comunicação”, afirma.

Mesmo antes da pandemia, os profissionais da comunicação já vinham enfrentando mudanças profundas em suas estruturas de trabalho, que envolvem um aumento no ritmo das atividades e também o número de horas trabalhadas, resultando em uma precarização do setor. 

Com um cenário de crise na saúde, a informação tornou-se ainda mais essencial para o bem-estar das pessoas, e os modos de trabalho dos comunicadores foram diretamente afetados.  Isso porque são esses profissionais que têm atuado em larga escala para produzir informações para a população e, dessa forma, contribuir para que todos possam tomar atitudes pela preservação de suas vidas. 

 

Resultados da pesquisa trazem vários alertas importantes

A pesquisa foi realizada de 5 a 30 de abril por meio de um questionário online disponível na página do CPCT e também nos sites de diversos sindicatos de jornalistas espalhados pelo país. As prefeituras de São Paulo e Guarulhos também disponibilizaram o acesso ao questionário, que contou com 557 participações voluntárias de 25 estados, Distrito Federal e também uma participação de Portugal. Portanto, trata-se de uma pesquisa qualitativa e não quantitativa. 

O resultado mostra que a maioria dos profissionais da comunicação trabalha em home office em condições desconfortáveis para a família e utilizando toda a infraestrutura própria em termos de equipamentos, energia elétrica, conexão com internet e aplicativos necessários para as atividades. 

Para a maioria dos voluntários, o trabalho se intensificou e a organização da rotina laboral ocupou todo o espaço e o tempo em casa. No geral, trabalha-se mais horas, em ritmo mais intenso e com mais incertezas sobre as condições de salário e emprego. Houve ainda uma parcela de profissionais que continuou realizando seu trabalho de forma presencial. 

Uma questão que chama a atenção é a capacidade desses trabalhadores se reorganizarem em função da situação objetiva de afastamento social e a organização híbrida do trabalho. Essa reorganização vai além da alteração no número de horas ou da mudança de ambiente.  Ela impacta no resultado técnico da notícia, já que muitos profissionais não contam com o espaço e ferramentas adequadas como  softwares, equipamentos e ilhas de edição para produzir informação com a mesma qualidade daquela produzida no local de trabalho. 

Essa capacidade de reorganização dos trabalhadores da comunicação, somada ao esforço mental e físico de produzir em um contexto repleto de adversidades, aponta questões que deverão ser aprofundadas para se pensar as relações de trabalho no futuro, no dito “novo normal.”

 

O relatório levanta diversos problemas na profissão, não apenas no Brasil, mas também em outros países. Na foto, jornalistas de Kiev, capital da Ucrânia, aguardam paramentados próximo a um alojamento com pessoas contaminadas pela covid-19. Foto: Gleb Garanich / Reuters.

 

Uma destas questões é a intensificação da rotina laboral, com o aumento de demandas a serem entregues em prazo mais curto. Há também a extensão do ritmo de trabalho, que ocasiona esgotamento. Alguns empregadores entendem que, por permanecerem mais tempo em casa, esses profissionais estão disponíveis o tempo todo. 

O aplicativo Whatsapp tem sido a principal ferramenta para gestão do trabalho das equipes e para o contato com fontes de informação e assessorias de imprensa, que passaram a ser mais requisitadas com a pandemia. “Há uma vinculação maior que antes com essas fontes porque, mesmo com a produção da entrevista, do depoimento ou a busca da informação, há o apoio desses outros trabalhadores e dessas organizações. Isso aumenta o número de horas que essa pessoa está conectada a esses aplicativos e na internet para poder viabilizar seu trabalho”, aponta Figaro. 

Outro dado da pesquisa tem a ver com a saúde mental desses profissionais, que assumem conviver com o sentimento de medo. Esse sentimento está atrelado a diferentes aspectos, já que os resultados revelam que há o medo de contaminação de si e de familiares pela covid-19, medo do desemprego e medo de perder a renda, sobretudo entre os profissionais que são microempreendedores ou freelancers.

“Trabalhar com essas situações tão adversas e trazer tudo isso para o seio de sua casa, e ainda fazendo a gestão dos filhos, já que 46% dos respondentes disseram que têm filhos, nos levou a produzir uma consideração final no relatório sobre a questão de gênero e o papel da mulher nesse trabalho durante o afastamento”,  observa a professora. 

O relatório também revela um olhar importante sobre diversos problemas já existentes antes da pandemia e que foram acentuados. Tais problemas não são exclusividade do Brasil, atingindo profissionais da comunicação – especialmente jornalistas – em escala mundial. Os ataques à imprensa nos últimos anos, a desestruturação das grandes companhias do setor e a desregulamentação da profissão são alguns dos problemas apontados no relatório por meio de depoimentos. 

Confira aqui, na íntegra, o relatório executivo do Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho. Roseli Figaro também comentou os resultados da pesquisa em recente entrevista para a Rádio USP.

 

Texto: Samantha Nascimento

Foto do destaque: Alla Greeg / Shutterstock