“Comunicação e educação: paradigmas para a integração”

Na terça-feira, 6 de setembro, inicou-se a primeira mesa do  Ciclo de Estudos da Comunicação (CECOM) com a temática "Comunicação e Educação: paradigmas para integração". Participaram da mesa o professor  Ismar Soares (Departamento de COmunicações e Artes -CCA), um dos realizadores do programa Educom; a professora Rosália Duarte (PUC/RJ); o professor de educação, comunicação e novas tecnologias José Ignácio, da Universidade Huelva da Espanha e, como mediadora, a professora Maria Aparecida Baccega. A discussão iniciou com a professora Baccega ressaltando a importância do tema que trabalha há anos: a educação. Ela afirma que “a educação precisa ser abraçada. A história precisa ser mudada, pois não podemos viver como estamos”, e compartilha suas lembranças como estudante no período ditatorial e as barreiras que impediram os demais avanços.

No mesmo clima, o professor Ismar inicia sua fala discursando sobre o atual governo e seus interesses em eliminar a participação da sociedade civil na educação. Ele continua com a apresentação da revista Comunicação&Educação, que nasceu com a necessidade de educar cidadãos críticos que possam mudar a história, afinal “não se pode repetir o que aconteceu em 64”, afirma.

Para repensar a realidade, o professor apresenta diversos livros e autores que falam sobre como os educadores se relacionavam com a comunicação. Neste tema da educação midiática ele fala sobre o livro The disappearance of childhood que apresenta como a sociedade e a mídia abandonaram o conceito de infância e criaram uma mídia voltada para o adulto. Em contrapartida, o livro Growing up digital exalta uma nova era de crianças que se tornaram mais inteligentes com a linguagem digital. Portanto, o mundo educacional, segundo o professor Ismar, vive neste embate de exaltação versos condenação no mundo da comunicação.

Na perspectiva de como as crianças estão sendo vendidas para o mercado, Ismar fala da importância de abordar diferentes ângulos entre a educação e a comunicação. Para tanto, ele ressalta a seriedade que os projetos de comunicação têm em ouvir crianças e jovens para entender a maneira como eles se veem representados na mídia, e assim passar a investir em mídias educadoras. Além disso, Ismar faz reflexões da relação da comunicação e educação numa vertente política, ressaltando a América Latina, que entre os anos 70 e 80 a leitura crítica da mídia não conseguiu ingressar na discussão de políticas públicas.

Ismar fala sobre autonomia, necessidade de avanço e a importância de democratizar a comunicação por meio das mídias. Deste modo, projetos como educom.radio chegou até as periferias para discutir a comunicação, com atendimento de 455 escolas. Em São Paulo foram beneficiadas com projetos como a Lei de 2004, que visa a obrigatoriedade de trabalhar educomunicação. Além disso, os resultados destes projetos podem ser vistos nas ações entre escolas públicas e particulares que trabalharam em conjunto para esse avanço. Essas ações também incluíram as pessoas com deficiência.  O professor falou sobre os alunos cegos que foram em uma feira oftalmológica para entender a deficiência e descobrir formas para inclui-los em projetos de educomunicação para o governo. Entre tantos programas, os alunos já obtêm os próprios meios de comunicação para propagarem informações importantes, através de blogs, rádio e outros. 

Além disso, há os congressos que já envolveram mais de 40 países focados em dizer o que é uma mídia de qualidade, de acordo com os alunos. Para o professor “ a qualidade da comunicação é a participação de cada um desses jovens”.

Por fim, o Educom é uma aliança de políticas públicas para dialogar com o sistema educacional público e privado. Professor Ismar ressalta que para haver um avanço “é preciso de pessoas que façam essa ponte entre a comunicação, educação e políticas públicas”.

“Educar é mais que instruir, educar é construir cidadãos”, afirma o professor José Ignácio.  Entre os diversos comentários marcantes sobre o poder que a educação tem ele comenta sobre as dificuldades de ensinar, pois, para isso é preciso mais do que saber, é preciso ser, é preciso inovar, inspirar e cuidar. José Ignácio também fala sobre o desafio de todo educomunicador, que tem a responsabilidade de desenvolver  uma sociedade que não se importe somente com investimentos econômicos, mas também com os investimentos na cultura, pois, ainda que a democracia na educação continue sendo uma utopia, precisa-se que os alunos sejam protagonistas do seu próprio desenvolvimento, e a cultura é fundamental neste aspecto.

Além dos desafios, o professor ressalta o trabalho realizado pelos brasileiros que são referências na educomunicação. Para José Ignácio, o Brasil é um país que pode fazer a diferença, não pelo tamanho, mas pela diversidade. O país deveria desenvolver um papel de liderança e alcançar outros polos da América Latina, afinal a tecnologia mudou o conceito de tempo-espaço. Existe também a necessidade de investigadores de comunicação e educação para fomentar a qualidade e a disseminação da tecnologia de forma democrática. E, para crescer, é preciso sair do Brasil, cercar outros povos cooperativamente para romper fronteiras e levar toda pesquisa realizada para as demais sociedades e, assim, todo esforço e trabalho fazem sentido.

O objetivo do professor  Ignácio é desenvolver habilidades dos jovens, a interatividade e a participação na educação. Ademais, o professor ressalta que os professores comunicadores podem educar pelos meios midiáticos e com isso usar as novas tecnologias para construir uma educação universal com competências lúdicas e críticas. E ele finaliza que precisamos da educação para que possamos empoderar os desfavorecidos.

A professora Rosália Duarte discursa sobre uma análise filosófica e psicológica sobre a cognição humana. Fala sobre o processo de humanização e afirma "não nascemos humanos, nos tornamos humanos na nossa ação sobre a realidade no pleno desenvolvimento de nossas capacidades como espécie". Lembra que a cognição humana é social, por isso o ser humano precisa da prática comunicativa para se inserir nos processos culturais. A partir do momento em que o bebê relaciona o seio da mãe e sua própria boca, criam-se significantes. A comunicação, portanto, é uma apropriação de ordem simbólica, dos sistemas de signos. Existe uma relação direta entre comunicação e cultura, pois os objetos físicos e simbólicos têm significados preexistentes na cultura. Afim de ressaltar a importância da comunicação, a professora afirma que a comunicação é estruturante do desenvolvimento humano, porque  ela  torna possível as interações sociais.

Após a fala dos professores, abriu-se uma discussão com o público, em que ficou muito marcado a importância do educomunicador como uma figura de resistência. Segundo o professosr Ismar, o educomunicador é fruto de resistência por, desde o início, lutar pelos seus direitos como profissional essencial. Porém, somente através de uma aliança com os jovens será possível levar a educomunicação para frente, como um ator político.

Texto:  Ana Clara Giovani e Brida Rodrigues – Faculdade Cásper Líbero