Contato com a natureza e fazer artesanal inserem crianças do século XXI no mundo da arte

Artigo do e-book Arte_Design_Tecnologia desafia a ideia de que somente as ferramentas digitais despertam o interesse dos alunos no ensino formal 

 

A natureza ainda pode ser um instrumento válido na educação em arte/design, sobretudo quando pensamos nas crianças nativas digitais? Esta e outras questões são investigadas pelas pesquisadoras e professoras Cíntia Valente e Suzete Venturelli em sua prática pedagógica com alunos do ensino fundamental. Por meio de uma metodologia de “ensino-aprendizagem” baseada em materiais orgânicos, técnicas e instrumentos arcaicos, as educadoras questionam a noção de que apenas as tecnologias digitais são capazes de estimular o interesse no ambiente escolar. O resultado da experiência pode ser conferido em artigo do e-book Arte_Design_Tecnologia. Recém-lançada, a publicação é fruto do seminário homônimo realizado em agosto de 2019 com apoio do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV). 

As pesquisadoras abrem o texto reconhecendo a importância da educação midiática na formação dos indivíduos, sobretudo na atualidade, e o papel das tecnologias de informação e comunicação ao permitir maior diversidade nos estilos de aprendizagem. No entanto, elas recorrem ao filósofo sul-coreano Byung Chul Han para chamar atenção aos males psíquicos que podem ser causados pela enxurrada de informações e estímulos provenientes da conectividade constante. “O autor nos alerta, também, para uma acentuada valorização dessa hiperatividade contemporânea pela sociedade”, completam. 

Para Valente e Venturelli, “o foco central do processo educativo não está voltado para as tecnologias que permeiam as relações, mas sim, nas relações em si.” Com base em conceitos preconizados por Paulo Freire, as autoras defendem que o processo de ensino-aprendizagem deve se orientar pela promoção de experiências que permitam o desenvolvimento da sensibilidade e do senso crítico nos alunos, sempre considerando “o ponto de vista histórico-político-local”. 

 

Despertando o encantamento

O convívio das crianças com a natureza envolveu atividades como modelagem e queima de potes de argila, coleta de galhos e pedaços de madeira para elaboração de esculturas e produção de pequenos pedaços de carvão por meio de fogueira. Segundo as autoras, estas práticas, além de ampliar “a experiência sensorial e estética” dos alunos, contribuem “para a construção de posturas mais integrativas e coerentes com as questões globais que enlaçam o mundo atual, introduzindo como prática de atelier as antigas técnicas e tecnologias criativas de arte/design.”

Crianças recolhem potes de argila queimados em buraco na terraCrianças retiram potes de argila após queima primitiva de buraco. Foto: Cíntia Valente. 

Ao incentivar a observação da natureza e o uso de ferramentas como martelos e goivas, a metodologia aplicada também estimula a autonomia criativa e o desenvolvimento de habilidades cognitivas, físicas e sociais que não são acionadas pelas tecnologias digitais: “o método busca também cultivar na criança o senso de criatividade e iniciativa, imaginação fértil, inteligência emocional, valores morais, pensamento crítico, senso de autonomia e liberdade de pensamento e de ação.” Todo o processo de trabalho é acompanhado de perto pelas educadoras, com espaço garantido para que as crianças experimentem, inventem e até errem. 

O contato com a materialidade por meio da imersão na natureza é complementado com o conhecimento que a prática do atelier proporciona. Ao escolher, coletar, manusear e transformar diversos materiais e objetos, os alunos conseguem compreender de maneira mais palpável a noção de desenvolvimento técnico e sua progressão ao longo do tempo.  “O mundo orgânico é apresentado como fonte de matéria prima para ampliar a percepção sobre os conhecimentos ancestrais e tecnológicos acumulados pelo homem, estabelecendo um diálogo entre passado, presente e futuro”, finalizam as pesquisadoras. 

Para ler este e outros artigos na íntegra, acesse o e-book completo. Os demais textos da publicação abordam temas como curadoria digital, livros independentes e performance intermidiática, entre outros.