Contradição cultural na ficção televisiva é constante em países latino-americanos

Tradição da televisão brasileira, as telenovelas são frequentemente entendidas sob o ponto de vista do entretenimento. A fim de enxergar essas produções não apenas enquanto passatempos midiáticos, mas, também, como possíveis objetos de estudo acadêmico, o professor José Marques de Melo (1943-2018) criou, em 1992, o primeiro centro de referência no Brasil destinado à pesquisa e documentação de telenovela e ficção seriada. Na época Núcleo de Telenovelas, o Centro de Estudos de Telenovela (CETVN), sediado na ECA, era muito subestimado no ambiente acadêmico. Hoje, ele é responsável por representar a USP e o Brasil nas versões nacional e principal do Observatório Ibero-Americano de Ficção Televisiva (Obitel), respectivamente. Nesta última, os países da América Latina e península ibérica fazem um monitoramento anual da ficção televisiva baseado em um protocolo metodológico comum.

Em sua 13ª edição, o Seminário Internacional do Obitel aconteceu no último semestre, na ECA. O objetivo era abordar a utilização de plataformas de Video on Demand na ficção televisiva ibero-americana. O encontro reuniu, além de brasileiros, pesquisadores da Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos (hispânico), México, Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela. Transcendendo ainda mais suas fronteiras, a mesa Obitel Expansões contou com a participação de estudiosos do Reino Unido, EUA, Itália e Hong Kong para apresentar as adaptações de O Fantasma da Ópera para TV, cinema, musicais e criações de fãs em seus respectivos países.

A indústria do Brasil é a principal entre os países representantes do grupo. Em 2017, dos 10 títulos mais vistos entre eles, nove são brasileiros, sendo todos da Rede Globo. A produção chilena Perdona Nuestros Pecados, produzida e exibida pelo canal Mega, é a única que consegue se destacar no meio do monopólio exercido pela rede de Roberto Marinho.

Top 10 das ficções televisivas mais vistas entre os países do Obitel em 2017:

1. A Força do Querer;
2. O Outro Lado do Paraíso;
3. A Lei do Amor;
4. Perdona Nuestros Pecados;
5. Pega Pega;
6. Malasartes;
7. Rock Story;
8. Sob Pressão;
9. Sol Nascente;
10. Novo Mundo.

Entre os pontos levantados pelo seminário, destaca-se as tendências latino-americanas nas ficções televisivas, como o surgimento do termo supersérie e a invasão turca na América Latina, dialogando com a ascensão de narrativas mais conservadoras e destacando as constantes contradições culturais.

De telenovela para supersérie

A nomenclatura supersérie tem sido adotada em algumas produções televisivas, mas, segundo Lucas Martins Néia, pesquisador do CETVN e do Obitel, trata-se de um termo internacional mercadológico que reflete nas produções feitas nos Estados Unidos hispânico, no México e na Colômbia. O pesquisador lembra que a Rede Globo adotou o conceito no ano passado nas ficções exibidas na faixa das onze. “Na verdade, superséries são telenovelas mais curtas”, explica.

Em comparação com as telenovelas tradicionais, as superséries têm como alvo o público masculino e jovem, além de apresentar temas mais fortes, como violência e sexo. Mas, no Brasil, como conta Lucas Néia, já houve momentos em que a teledramaturgia produziu telenovelas com essas mesmas características e, nem por isso, a mudança terminológica foi cogitada, o que enfatiza ainda mais a questão mercadológica como seu principal motivador. Contudo, há controvérsias. A também pesquisadora Ligia Maria Prezia Lemos explica que o termo telenovela não existia para as premiações internacionais, ao contrário do que se observa hoje. “É uma conquista que atualmente, por exemplo, exista um Emmy para telenovela”, comenta Lígia.

O conceito telenovela traz o estigma de uma produção mais melodramática e romântica voltada para um público feminino, o que, para Néia, justifica a adoção da nova nomenclatura. A narrativa melodramática, presente nas telenovelas, é uma característica cultural da América Latina, mas também um paradigma transnacional, presente em sociedades que vêm de um período muito tradicional e que migraram muito rápido para modernidade, como a Índia e a Turquia. “Existe esse rompimento porque vai ser essa narrativa de massa que vai atrair as pessoas antes mesmo da população ser completamente alfabetizada”, explica Lucas Néia.

Ascensão de telenovelas bíblicas

País pioneiro em liberdades individuais na América Latina, o Uruguai não tem uma indústria forte de ficção televisiva. Das 10 ficções mais vistas no país, nenhuma é uruguaia. O que se destaca neste ranking, no entanto, é a ascensão das telenovelas bíblicas da Rede Record. Em uma cultura vista por muitos como extremamente liberal, Moisés y los Diez Mandamientos (título original: Os Dez Mandamentos) e Josué y la Tierra Prometida (título original: A Terra Prometida) ocupam a segunda e sexta colocação, respectivamente. Para Lucas Néia, esse fato é uma das muitas contradições culturais da América Latina em termos históricos, políticos e econômicos.

 

 

O ranking das produções ibero-americanas mostra a ascensão das telenovelas bíblicas, que reflete o atual conservadorismo latino-americano. Mas o pesquisador enfatiza que essas telenovelas apresentam narrativas universais e estão sendo aperfeiçoadas ao longo do tempo, o que faz com que elas sejam elogiadas mundo afora.

No ranking uruguaio, há outras duas produções brasileiras – Verdades Secretas e A Regra do Jogo –, mas mesmo assim, os pesquisadores explicam que a exportação de produções brasileiras na América Latina é dificultada. Essa constatação se dá justamente pelo fato do país ser o único lusófono do continente, enquanto sua maioria tem o espanhol como idioma oficial.

Invasão turca

 

 

Em muitos países da América Latina, ocorre também o que ficou conhecido como invasão turca nas ficções televisivas. No Brasil, esse fenômeno não foi sentido, justamente pelo monopólio da Globo e da ascensão da Record em suas respectivas produções. Nos últimos anos, a Rede Bandeirantes tem colocado em sua grade de programação as telenovelas turcas, mas sem o êxito observado em outros países.

Os rankings nacionais do Obitel não contêm as produções turcas pelo fato da Turquia não ser integrante do grupo, mas o sucesso dessas ficções é perceptível. O pesquisador comenta que houve um ano em que, na Argentina, as produções turcas e nacionais empataram em número de audiência. Para ele, esse sucesso é mais uma outra constatação da contradição cultural latino-americana, pois essas ficções vêm de um país ainda mais conservador que tem como principal religião o Islamismo.

Futuro das ficções televisivas

A respeito da perda de audiência que as televisões estão tendo com a ascensão da internet e dos serviços de streaming, Lígia enfatiza que cada realidade abrange um cenário diferente. E, por essa razão, não se pode cair nas generalizações, pois a relação entre telenovela e série para um brasileiro não é a mesma que a de um argentino, tanto em questão de produção, quanto de recepção. “Atualmente, vivemos em um momento de hibridização muito grande. Séries carregam muito das telenovelas, assim como a telenovela carrega o arco narrativo das séries”.

Lucas Néia lembra que, hoje, as telenovelas das nove da Globo recebem uma audiência diária de 30 milhões de brasileiros. Em 2017, enquanto A Força do Querer recebeu em média 24,4 milhões de audiência e no seu último episódio alcançou 33,4 milhões, The Big Bang Theory, ficção mais vista nos EUA na TV aberta, teve uma média geral de 18,6 milhões e, no seu último episódio, contou com uma audiência de 17 milhões.

Os pesquisadores ressaltam que as narrativas ficcionais televisivas estão sobrevivendo de diversas maneiras e formatos, e Lígia ainda lembra que a ficção televisiva não se resume a telenovelas: “Tudo que assistimos no Netflix é ficção televisiva!”. Sobre o futuro das telenovelas em si, Lucas Néia vê um cenário positivo: “Como conhecemos, elas ainda vão continuar na centralidade do cenário audiovisual brasileiro”.

Tenha acesso ao anuário de 2018 do Observatório Ibero-americano da Ficção Televisiva (Obitel).

 

Texto originalmente publicado pela Agência Universitária de Notícias (AUN), de autoria do repórter Jonas Santana, estudante do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).