Coronavírus e fake news: duas pandemias a serem evitadas

Além de influenciar a opinião pública, fake news podem colocar em risco a saúde das pessoas

Os últimos dias têm sido marcados pela mudança no cotidiano mundial perante a ameaça invisível da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus: fechamento de empresas e escolas públicas e privadas, suspensão de serviços, cancelamento de eventos e queda nas bolsas de valores. Bruscamente, pessoas de todo o mundo adotam novas formas de existência e de relações, sejam elas de trabalho ou pessoais, uma vez que diversos países já declararam quarentena. Com grande parte da população reclusa em suas casas, o uso das mídias sociais aumentou consideravelmente nos últimos dias. 

Com isso, aumenta-se não apenas a circulação de notícias, mas também das fake news, compartilhadas massivamente desde o surto inicial, na China. Não é de hoje que esse problema afeta vários países do mundo, visto o disparo em massa de notícias falsas durante as eleições de 2018 no Brasil, como também durante a eleição do presidente dos EUA, Donald Trump. O portal Buzzfeed News apurou que, nos últimos três meses antes da eleição norte-americana, em 2016, vinte links com informações falsas tiveram mais compartilhamentos, reações e comentários que as reportagens de alguns dos principais jornais do país, como The New York Times e Washington Post.

Em sua dissertação de mestrado Propagação e influência de pós-verdade e fake news na opinião pública, defendida na ECA em 2019, Ivelise de Almeida Cardoso investiga o papel das mídias sociais na disseminação de notícias falsas. "Como o Facebook permite que os usuários escolham as informações com as quais são apresentados, o feed de notícias do usuário geralmente será o reflexo de suas crenças (até certo ponto)”. O resultado é que, com frequência, evidências científicas e conhecimento acabam sendo substituídos por achismos e teorias não verificadas, que se espalham em larga escala graças a uma rede baseada não apenas em ligações pessoais, mas também em afinidades políticas e ideológicas. 

A contribuição das fake news para a desinformação em massa está profundamente ligada à lógica de imediatismo que rege a relação entre usuários e mídias sociais. A necessidade de ser o primeiro a divulgar certas informações faz com que muitos usuários a publiquem sem checar sua veracidade. Esse é um dos aspectos que mais tem chamado a atenção de pesquisadores da área de comunicação, que vem se dedicando cada vez mais a estudos com tal enfoque. Entender as razões e as consequências desse tipo de comportamento pode nos ajudar a tirar melhor proveito da velocidade de compartilhamento de informações que as redes possibilitam. 

O perigo das fake news no contexto da Covid-19

Diante de uma epidemia mundial como a do Coronavírus, a propagação de notícias falsas pode ter consequências especialmente desastrosas, já que a desinformação coloca em risco a saúde de muitas pessoas. Nos últimos dias o Ministério da Saúde já compilou uma série de mensagens que circulam pelas redes sociais e em aplicativos como o Whatsapp. Com o surgimento dos primeiros casos no Brasil, muitas das notícias afirmavam a chegada da doença em estados que ainda não registravam contaminação pelo vírus. Outras anunciam que o coronavírus pode ser combatido por meio da ingestão de água, chá quente, mel e até uísque. Entre receitas caseiras e recomendações incorretas ("álcool gel não é eficaz contra o vírus mas vinagre sim"), sobra espaço para mensagens alarmantes, como a que diz que "o ar do plástico bolha vindo da China pode conter coronavirus". 

Infográfico sobre uma notícia falsa afirmando que a covid-19 pode ser curada com uma tigela de água de alho recém-fervida. Reprodução: site do Ministério da Saúde.

São tantas notícias falsas que o Ministério da Saúde criou um portal específico para reunir as mais compartilhadas nos últimos dias, com o objetivo de rebater as afirmações sem fundamento e esclarecer a população sobre a doença.

 

Como saber se uma notícia é falsa?

O site do Ministério da Saúde também divulgou um passo-a-passo para que todos possam identificar uma notícia falsa:

  • Avalie a fonte, o site, o autor do conteúdo: muitos sites publicadores de fake news têm nomes parecidos com endereços de sites de notícias. Portanto, avalie o endereço e verifique se o site é confiável. Também veja se outros conteúdos do site são duvidosos;
  • Avalie a estrutura do texto: sites que divulgam fake news costumam apresentar erros de português, de formatação, palavras em maiúsculas e uso exagerado de pontuação;
  • Preste atenção na data da publicação: veja se a notícia ainda é relevante e está atualizada;
  • Leia mais que só o título e o subtítulo. Leia a notícia até o fim. Muitas vezes, o título e o subtítulo não condizem com o texto;
  • Pesquise em outros sites de conteúdo: desconfie se você receber uma notícia bombástica que não esteja em outros sites de notícia;
  • Veja se não se trata de site de humor: alguns desses sites usam da ironia, fazendo piadas em forma de notícias inventadas; 
  • Só compartilhe após checar se a informação é correta. Não compartilhe conteúdo por impulso. Você é responsável pelo que você compartilha.

Além de confundir as pessoas, as fake news podem ser um vetor de pânico generalizado. Elas também contribuem para a geração de ambientes e atitudes de intolerância, já que muitas vezes disseminam estereótipos sobre comportamentos, pessoas e países vistos como diferentes. O impacto negativo das notícias falsas tem uma dimensão que não pode ser ignorada, especialmente diante da crise gerada pelo coronavírus. Se atitudes individuais como lavar as mãos são fundamentais para evitar a propagação da doença e garantir a saúde coletiva, novos hábitos de compartilhamento de informações também dependem de cada um e cumprem papel importante tanto para a mitigação da pandemia quanto para uma sociedade mais saudável, em todos os aspectos. 

 

Texto: Samantha Nascimento da Silva

Foto do destaque: site Olhar Digital