Crítica de cinema era estratégia de resistência à ditadura

Pesquisa de doutorado mostra como os críticos criavam artifícios para driblar a censura e falar do contexto político brasileiro através da análise de filmes 

Publicar qualquer matéria com tom político na época da ditadura militar era um desafio. Embora se saiba muito sobre como matérias jornalísticas foram censuradas e transformadas em receitas de bolo, pouco se tem estudado sobre as críticas de cinema da época. Em sua tese de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, Margarida Adamatti buscou suprir essa lacuna e estudar como era feita a crítica de cinema em um período tão antidemocrático. A pesquisa teve a orientação do professor Eduardo Morettin, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR).

A pesquisadora escolheu o jornal Opinião, semanário da imprensa alternativa de extrema relevância, que circulou entre os anos de 1972 e 1977. “Pensar o Opinião era uma brecha que havia na bibliografia sobre a crítica de cinema nos anos 70 e se trata de um espaço onde a crítica traz uma visão extremamente progressista e pioneira”, comenta Margarida. 

Em sua pesquisa, Margarida fez entrevistas com críticos de cinema que escreveram para o Opinião. Embora o semanário não tivesse um projeto editorial claro na seção de Cultura, esta era uma estratégia de combate à censura.  A linha editorial se desenhava mesmo que implicitamente. “Haveria uma preferência por filmes com uma visão política contrária ao regime militar. Como uma forma metafórica de comentar o sistema político brasileiro a partir do cinema.”

Assim, a crítica não era feita apenas analisando a parte estética, mas também havia a análise de conteúdo, levando em consideração a cultura política engajada. Estes dois aspectos juntos inauguraram a chamada Nova Crítica de Cinema. 

Em uma dinâmica de trabalho dificultada por causa da censura, o Opinião teve apenas seis mil páginas publicadas, das dez mil feitas. Como um meio de resistência à ditadura, as páginas do jornal congregavam intelectuais, políticos de esquerda, escritores e artistas que viam nas palavras uma maneira de fazer o enfrentamento ao regime.

Nesse ponto, a pesquisadora destaca a importância da seção de cartas do jornal, que funcionava como uma verdadeira tribuna de imprensa, em que leitores, jornalistas e colaboradores do semanário podiam ter uma atuação política. 

Por esse mesmo motivo – a ação política contra o regime – os jornalistas trabalhavam com baixíssimos salários no veículo, o que criava uma certa independência, já que não estavam trabalhando necessariamente por causa do dinheiro recebido. Alguns, inclusive, trabalhavam tanto no Opinião como em outros jornais da mídia tradicional. 

“Essa independência que eles tiveram foi muito importante para a forma da crítica de cinema como um diferencial”, explica a pesquisadora. 

Os críticos de cinema enfrentavam dificuldades, sendo a primeira delas conseguir ter acesso aos filmes. Sabe-se que o cinema não é neutro e portanto, falar de audiovisual era também manifestar um tom político – deixando o conteúdo sujeito à censura. “Parte do trabalho aborda de uma perspectiva histórica a perseguição aos críticos e qual foi o papel deles dentro da resistência”, diz Margarida. 

Neste ano, a tese de doutorado de Margarida, Crítica de Cinema e Repressão: Estética e Política no Jornal Alternativo Opinião, se tornou um livro, publicado pela Alameda Editorial.