Desenvolvido na graduação em Jornalismo, “Mulheres da Terra” discute questões de gênero e agricultura nos entornos de São Paulo

“Quando se fala em agricultura atualmente, pensa-se na questão da plantation, daquele canavial gigante onde só aparece a figura masculina,” revela Leandro Bernardo, aluno do curso de Jornalismo. De fato, para aqueles que vivem na movimentação caótica das áreas centrais de São Paulo, pode parecer que não existem espaços rurais na região, onde a agricultura é a atividade principal e, mais ainda, que, nos espaços agrícolas afastados da capital, quase não existem mulheres.   

Foi partindo da ideia de contar as histórias das mulheres que “moram e trabalham nas brechas verdes da Região Metropolitana de São Paulo” que surgiu o site Mulheres da Terra. O projeto, um portal multimídia criado por cinco alunos do curso de Jornalismo, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), entre eles Leandro Bernardo, foi fruto do trabalho final conjunto das disciplinas Projetos em TV e Projetos em Jornalismo Digital, ministradas para as turmas do 3º e 4º anos, que se constitui no desenvolvimento de uma pauta tanto em meio digital quanto em vídeo. Mulheres da Terra foi desenvolvido durante o segundo semestre de 2016.

"A gente já nasceu fazendo essas coisas e a gente continua." - Cida, Mulher da Terra

Com um enfoque “nas vidas delas e no modo como elas chegaram até lá,” conforme pontua Leandro, o grupo fez entrevistas, disponibilizadas em vídeo, com quatro mulheres de localidades e realidades diferentes, para tentar “traçar, com base nestas figuras, a questão da agricultura na Região Metropolitana de São Paulo”. Assim, contaram as histórias de Ana do Mel, apicultora e agricultora de Embu Guaçu; Valéria, moradora de Parelheiros e presidente da cooperativa Cooperapas, criada e gerida basicamente por mulheres; Maria, produtora agrícola e uma das líderes de um acampamento do MST em Perus, três personagens que defendem e utilizam a agricultura orgânica, e Cida, agricultora em Biritiba Mirim, que já empreende técnicas mais tradicionais, como o uso de agrotóxicos.

“Eu acho que o mais significativo foram as histórias que a gente obteve,” conta Leandro. “A Valéria, por exemplo, começou a adotar cachorros abandonados e, quando viu, tinha mais de 30 e precisava se mudar. Ou a Cida, que nasceu na terra, vive da terra, não tem outra vida. E a Maria, que quando falava do movimento, ficava com os olhos marejados. É mostrar outras realidades, mostrar famílias diferentes.”

 

"Eu percebi que não era só eu fazendo esse trabalho, que tinha muita mulher sustentando a família, sustentando a casa, invisível." - Ana do Mel, Mulher da Terra

À partir das histórias recolhidas, o grupo tratou ainda de outros assuntos afins à temática da agricultura, através da reportagem em texto incorporada ao site. Entre os tópicos abordados, estão, por exemplo, dados sobre a presença feminina nas áreas agrícolas, as informações encontradas no Censo Agropecuário, o Cinturão Verde paulistano e a presença do eixo rural no Plano Diretor da cidade.

Apesar dos entraves em aspectos como a busca das fontes e as distâncias percorridas para a realização das entrevistas, Leandro conta que o grupo ficou muito feliz com o resultado final. “O site ficou muito a cara do tema, leve, mais calmo. E tudo o que tem lá, nós mesmos fizemos, os infográficos, as músicas, as ilustrações,” revela. “Pessoalmente, esse foi o melhor trabalho que eu já fiz na graduação”.

"Esse dia é importante, esse dia eu estou viva e esse dia eu vou plantar." - Maria, Mulher da Terra

Tratar este assunto foi uma oportunidade de mostrar mulheres que trabalham duro, cuidam de suas famílias e praticam uma agricultura sustentável,” conta Mônica Rodrigues Nunes, professora de Projetos em TV. Para ela, a importância do projeto reside no fato de este dar “um protagonismo para as mulheres em um meio onde o sexo masculino esteve, historicamente, em maior destaque” e também “por mostrar uma outra face de São Paulo, mais calma, mais verde e mais sustentável”.

Ecofalante

Após a finalização do projeto, incentivados pela professora Mônica, o grupo se inscreveu para o Concurso Curta Ecofalante, da 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, que visa divulgar a produção audiovisual de estudantes universitários e de escolas técnicas com temáticas afins à ecologia e revitalizações urbanas da cidade.

Segundo Mônica, esta é a segunda edição da mostra em que um trabalho da disciplina foi selecionado, o que “representa o engajamento dos alunos e sua sensibilidade a temas de ecologia sustentável”. Para esta edição, seis vídeos foram selecionados para participar do concurso: o grupo do projeto Mulheres da Terra inscreveu o vídeo produzido a partir da entrevista com Valéria, já que, segundo Leandro, “o vídeo dela sozinho não representa o trabalho, mas ele tem um peso muito forte, principalmente pelo que ela fala, que é muito bonito”.

 

"A terra é a mãe e a mulher também é mãe, então é uma coisa que te liga muito." - Valéria, Mulher da Terra

“Todos ficamos muito felizes e muito gratos,” conta Leandro. “É aquela sensação de estar fazendo algo na faculdade que dá resultado, que não se fecha só aqui, de ver que você tem condições de experimentar algo novo na própria graduação. Acho que isso é o mais gratificante”.

A mostra chega ao fim em 14 de junho e os indicados concorrem a prêmios de júri e voto popular. A última exibição de Valéria, Mulher da Terra, bem como dos demais vídeos indicados será no dia 14, às 19h, no Cine Caixa Belas Artes (Rua da Consolação, 2.423).

Texto: Victória Martins

Fotos e vídeos: site Mulheres da Terra