Docentes da área de música assinam manifesto contra cortes no orçamento da Secretaria da Cultura

Docentes do Departamento de Música (CMU) e do Programa de Pós-graduação em Música (PPGMUS) da ECA divulgaram esta semana um manifesto contrário ao anúncio do Governo do Estado de São Paulo de cortes no orçamento da Secretaria da Cultura, que afetariam programas culturais e museus do Estado. 

Leia o documento na íntegra:

 

Manifesto contra os cortes na Cultura no Estado de São Paulo

Caras e caros colegas,

O grupo de professores e professoras do Departamento de Música e do Programa de Pós-Graduação em Música da ECA/USP abaixo assinados entende que não pode deixar de se posicionar de forma enfática e veemente contra o atual processo de aniquilamento dos serviços, projetos, programas e equipamentos da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

A situação é realmente muito grave. Com a justificativa de que é necessário priorizar as áreas da saúde, da educação e da segurança, o governador promove um verdadeiro desmantelamento da área cultural. Os cortes e contingenciamentos anunciados pelo governador João Doria fazem prever um desarticulação gradual de equipamentos e programas que atendem milhares de jovens e crianças. Cabe a nós, educadores, pesquisadores e artistas afirmar que a cultura é o avesso da insegurança e que saúde, educação e segurança são todos interligados à cultura. Cultura é, portanto, cidadania. Vale lembrar que há projetos de formação de jovens (fábricas de cultura, escolas, projetos sociais) e projetos de fomento à criação (os Proac) e que ambos são importantes ferramentas públicas para que o país possa criar perspectivas e oportunidades para os jovens e assim afastá-los dos ambientes do crime, do tráfico e da indigência.

Infelizmente, a erradicação de programas e equipamentos de cultura parece um projeto de governo para os governos conservadores. Eles não apenas não consideram a cultura importante como a desprezam. Alguns até a consideram perigosa, antro de oposicionistas ideológicos. No âmbito federal, o Ministério da Cultura deixou de existir e são constantes os ataques à Lei Rouanet – ataques perpetrados por questões ideológicas e por gente que desconhece o seu funcionamento.

Em um país desigual e carente como o Brasil, a ideia de estado mínimo que têm sido aplicadas pelos atuais governantes conduzirá não somente à destruição de importantes movimentos culturais como abrirão espaço para o avanço de ideias autoritárias, militaristas e cada vez mais excludentes. O estado precisa estar presente em projetos que façam com que crianças, jovens e adultos se sintam incluídos, partícipes e respeitados. Ao promoverem o estado mínimo os governantes dizem ao povo que ele não participa de nada, que cada um se vire como puder ou que então busque guarida em quem lhes pode lhes atender que são geralmente os grupos que o próprio estado chama de violentos (as milícias, o tráfico e o crime organizado).

Trata-se evidentemente de uma política que acentua e reforça a exclusão e a desigualdade social. No entanto, mesmo com o recuo do governador com relação ao projeto Guri, parece que a cruzada contra o conhecimento e a cultura não vai parar. Os extermínios promovidos pela política conservadora vão passar pelo fim de programas sociais de cunho cultural até chegar à promessa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de cortar 50% das verbas governamentais do Sistema S – Sesi, Sesc, Senai - que fomentam parcela muito expressiva dos eventos culturais do Brasil.

São Paulo, 5 de Abril de 2019.

Toninho Carrasqueira
Susana Igayara
Silvio Ferraz
Rogério Costa
Robert Suetholz
Ricardo Ballestero
Paulo de Tarso
Mônica Lucas
Mário Videira
Luis Eugênio Afonso
Luciana Sayuri
Ivan Vilela
Flávia Toni
Fernando Iazzetta
Eduardo Monteiro
Alexandre Ficarelli
Adriana Lopes