Doutores pela ECA recebem Prêmio CAPES de Tese 2018

No dia 1 de outubro, os recém-formados doutores José Augusto Mendes Lobato e Stela Regina Fischer receberam o Prêmio CAPES de Tese 2018, de menção honrosa e premiados de tese, respectivamente. O prêmio avalia as melhores teses de doutorado do ano de 2017. A entrega dos prêmios será dia 13 de dezembro em Brasília, na Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados, às 17h.

Das 49 áreas do conhecimento para a premiação, Stela Regina Fischer concorreu para as Artes Cênicas com a tese Mulheres, performance e ativismo: a ressignificação dos discursos feministas na cena latino-americana,  defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas e orientada pela professora Elisabeth Silva Lopes, do Departamento de Artes Cênicas (CAC). A vencedora desenvolveu a tese motivada pelo feminismo e na revisão de teses eurocêntricas, valorizando as teorias latino-americanas. Ela utilizou somente bibliografia feminina como forma de voz política na academia.  

A pesquisadora conta que durante o andamento da pesquisa participou de eventos internacionais em teatro e performance nos quais estabeleceu contato com mulheres artistas da América Latina, impulsionando sua reflexão crítica sobre o fazer artístico em diálogo com as teorias críticas feministas. “Eu não esperava ganhar, pois a tese impulsiona abordagens de outras epistemologias e estabelece uma reação crítica diante da ainda predominância dos saberes hegemônicos e/ou androcêntricos institucionais. Fiquei muito surpresa”, afirma Stela. Ela acredita também que tanto nas apresentações de teatro como em pesquisas como a dela, o feminismo deve ser defendido e gerar rupturas contra o silenciamento histórico das mulheres na universidade. “Ações pedagógicas e curriculares nas universidades brasileiras relacionadas ao feminismo ainda são tidas como exceções”, diz Stela.

Na tese premiada, foram analisadas performances e espetáculos teatrais de mulheres artistas latino-americanas que despertam reflexões sobre o corpo e a subjetividade da mulher. Houve também um estudo de campo para acompanhar processos criativos em artes cênicas referentes às mesmas temáticas, e depois, um alinhamento de teoria à prática sobre criação autoral performática.

Em 2010, a então doutoranda publicou o livro Processo Colaborativo e experiências de companhias teatrais brasileira, pela Editora Hucitec. Além disso, é fundadora de um coletivo que discute um tema semelhante: atrizes que estudam o teatro com ênfase em gênero, de nome Rubro Obsceno.


Stela Fischer na ação performática Eu Abortei. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

O paraense José Augusto Mendes Lobato recebeu menção honrosa com a tese A alteridade na ficção seriada e na grande reportagem. Um estudo sobre as estratégias de representação do outro na narrativa televisual brasileira, na área de Comunicação e Informação, orientada por Mayra Rodrigues Gomes, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE). A tese foi defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), onde ganhou o prêmio de melhor tese.

Ele estudou 16 episódios do Globo Repórter e quatro telenovelas da Globo com o objetivo de “entender como as narrativas da televisão nos levam a conhecer o outro, o diferente”, conta o pesquisador. O interesse pelo tema se dá por observar em programas de reportagem, documentários e séries, o tratamento de personagens da região amazônica como exóticos. “Essa categoria do “exótico” sempre me incomodou.” Por isso, procurou saber o limite entre a construção do estereótipo e uma construção que dá conta da complexidade do outro.

A partir da análise dos programas, José Augusto identificou oito características do que ele chama de narrativas de alteridade na televisão. Uma delas é a narrativa do trajeto: “é a ideia de que o público gosta de ver o personagem ou o repórter indo até o lugar”. A Glória Maria nos programas do Globo Repórter, por exemplo, viaja de carro, usa transporte público e anda pelas ruas. “E, na novela, o personagem viaja para outro país e mostra-o chegando ao aeroporto. Isso faz parte da experiência do outro”.

O pesquisador afirma que ficou surpreso quando recebeu o reconhecimento da CAPES. “Não sou do tipo que fica achando minha pesquisa maravilhosa, mas acredito que a pesquisa tem que transmitir, com sinceridade, incômodos da nossa vida. E, como eu falei, esse tema sempre me incomodou”.


As professoras Mayra Rodrigues Gomes e Maria Cristina Castilho Costa, com José Augusto Mendes Lobato, quando recebeu o prêmio de Melhor Tese Defendida em 2017 pelo PPGCOM. Foto: Vanessa Souza

A premiação é decidida a partir do critério de relevância para o desenvolvimento cultural, tecnológico, sociológico e científico. Também é avaliado como o sistema educacional o candidato deu importância para a tese. A partir de agora, os premiados estão concorrendo para o Grande Prêmio de Tese 2018 na área de humanas.

 

Texto: Mirella Coelho e Letícia Passarinho