Pela primeira vez, ECA e outras unidades da USP participam do Carnaval

Desfile da Rosas de Ouro conta com contribuições de pesquisadores da USP dentro e fora da avenida. ECA é representada pelo LabArteMídia, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão 

Com o enredo “Tempos Modernos”, a escola de samba Rosas de Ouro traz para a avenida uma narrativa sobre a Quarta Revolução Tecnológica e seus impactos na sociedade. Por meio da história de um robô obsoleto que encontra um livro sobre tecnologia, temas como Automação Industrial, Inteligência Artificial e Internet das Coisas serão representados pelos 2500 componentes da agremiação, distribuídos em diversas alas e carros alegóricos. 

Em uma iniciativa pioneira, a escola mobilizou instituições de ensino superior públicas e privadas,  que desenvolveram uma série de inovações para o desfile. O resultado poderá ser conferido a partir das 5h10 de domingo, dia 23, quando a Rosas de Ouro fecha o Carnaval do Grupo Especial de São Paulo.

A participação da ECA é encabeçada pelo LabArteMídia, grupo de pesquisa coordenado pelo professor Almir Almas, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR).  Junto com o docente, cerca de vinte pesquisadores do Laboratório estão envolvidos em duas frentes de trabalho. A primeira é proporcionar ao público uma experiência de realidade aumentada (AR, do inglês augmented reality). Essa tecnologia consiste no uso de filtros ou aplicativos que permitem a projeção de imagens digitais sobre a realidade captada por uma câmera. Um exemplo de realidade aumentada cada vez mais popular são os filtros disponíveis no Snapchat e no Instagram. 

No caso do desfile da Rosas, o público poderá direcionar as câmeras de seus celulares para um dos carros alegóricos e ver uma passista virtual na tela.  A sambista foi gravada no estúdio do CTR e ganhou efeitos em seu figurino durante a pós-produção de imagem. Para esse trabalho, o LabArteMídia contou com suporte da Jandig.Arte, uma comunidade de software livre para realidade aumentada, e atuou conjuntamente como desenvolvedor da solução de AR. A realidade aumentada da ECA, Passista 4.0, também conta com suporte técnico da Superintendência de Tecnologia de Informação da USP.  

O aplicativo que permite a experiência desta e de outras inovações digitais do Carnaval da Rosas de Ouro foi desenvolvido pelos pesquisadores de todas as universidades envolvidas no projeto, em parceria com a Umantech, mesma empresa responsável pela elaboração do robô ROXP4, o protagonista do enredo. Chamado Carnaval 4.0, o app já está disponível para download em sistemas Android  e IOS.  

Testes da realidade aumentada. Quem estiver assistindo o desfile pela televisão também poderá ter a experiência, focalizando a tela da tv com a câmera do celular sempre que for mostrado o marcador no carro alegórico. Foto: LabArteMídia

A segunda frente de trabalho do laboratório é a realização de um documentário em 360 graus sobre o desfile.  Feito para ser visto com óculos 3D, o filme tem o objetivo de trazer o espectador para dentro da avenida. “A pessoa vai sentir que nunca esteve tão perto assim da bateria, das baianas... Ao colocar os óculos, a pessoa vai se sentir ali dentro. É essa sensação de imersão na realidade que a gente vai criar”, explica o prof. Almir.  Para gerar esse efeito, além da gravação com câmeras especiais, haverá também uma captação de áudio diferenciada. O professor e membro da coordenação do Programa de Pós-Graduação em Música (PPGMUS), Regis Rossi, responsável pela captação do áudio, explica melhor: “A gente usa o Ambisonic como formato de áudio neste projeto e um software próprio de produção de cena sonora. O Ambisonic é como um super estéreo: enquanto o estéreo tem 2 canais, o Ambisonic tem 4, no mínimo. Ele é uma expansão da estereofonia para um campo tridimensional.”

Regis, que também é pesquisador do NuSom e coordena o Laboratório de Áudio e Tecnologias Musicais (LATM) da EACH, desenvolve o sistema de produção sonora Audience, que será utilizado na mixagem sonora. A edição de som e a mixagem do documentário ficarão a cargo de Eduardo Santos Mendes, professor do CTR. Com duração prevista de 30 minutos, o filme ficará pronto depois do carnaval e será disponibilizado para exibições em mostras e festivais dentro e fora do Brasil. 

Suporte para captação de vídeo e áudio 3D em 360 graus.  O suporte para o microfone e o software para captação de som fazem parte de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas por Regis Rossi. Foto: Lyara Oliveira

Tanto a realidade aumentada quanto o documentário em 360 graus se valem de técnicas que vêm sendo pesquisadas e desenvolvidas pelos membros do LabArteMídia em diversos trabalhos ao longo dos últimos anos. Assim, a parceria com a Rosas de Ouro servirá também para alimentar a produção de novos artigos acadêmicos. 

Com essa participação no Carnaval, a ECA e a USP pisam pela primeira vez em terreno já conhecido pelo professor Almir.  “Em 86 eu e alguns amigos fundamos o Coletivo de Arte e Multimídia. Fiz alegorias, esculturas, trabalhei como artista plástico no barracão. Fui campeão pela Vai-Vai e depois trabalhei na Peruche até 90. E voltar hoje pro Carnaval, como USP, é bem legal pra mim.”

A oportunidade de levar o conhecimento produzido na Universidade para além de seus muros foi um dos principais motivos para Almir topar o convite da escola. “Eu acho super importante a USP estar participando de um evento dessa natureza, que é o maior espetáculo popular do Brasil e talvez do mundo. É um momento importantíssimo pra que a Universidade esteja junto com a comunidade, casando o conhecimento científico com a cultura popular, em especial nesse momento em que a ciência e as artes são atacadas fortemente.”

 

Acadêmicos no barracão

“No Carnaval a gente tá acostumado a falar de temas folclóricos, religiosos, fazer homenagem pra alguém, mas tecnologia é muito distante. É muito abstrato, tem coisas na tecnologia que você não consegue passar visualmente. Então isso preocupou muita gente na escola. ‘O que vai sair daí?’ “

É assim que André Machado, carnavalesco da Rosas de Ouro, descreve o sentimento inicial em relação ao enredo escolhido. Ele só deixou o temor de lado quando viu a boa reação da comunidade após as primeiras demonstrações do Carnaval digital na quadra da escola. Também ajudou a grande repercussão em jornais, revistas e programas de TV dentro e fora do Brasil. “É um tema atual”.

Junto com a Comissão de Carnaval da escola, André foi o responsável por criar uma história capaz de tornar o tema mais acessível para a comunidade e para o público. Após ser superado por outras tecnologias e abandonado pela criança que costumava acompanhar, o robô ROXP4 começa a ler um livro que o conduz a uma verdadeira viagem pela história das inovações tecnológicas, partindo da invenção do trem a vapor, passando pelos dias atuais e imaginando as novidades que ainda estão por vir. 

Foto: LabArteMídia

Tanto a ideia inicial do enredo quanto a proposta de envolver pesquisadores de tecnologia partiu de uma das empresas patrocinadoras da escola, por meio da figura de Élcio Brito. Criador, líder e gestor do projeto Carnaval 4.0, Brito faz pós-doutorado em Engenharia Elétrica na Poli, sob supervisão do professor Eduardo Mário Dias. Primeiro a ser convidado, Eduardo ganhou em seguida a companhia de Marcos Barretto, também docente da Poli, além de outros pesquisadores da Fundação Educacional Inaciana (FEI) e do Instituto Mauá de Tecnologia. A professora Jane Marques, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), também esteve presente desde o início. 

A intenção de trazer para o desfile uma abordagem da tecnologia em diálogo com as artes e as comunicações levou Barretto a convidar o professor Almir, selando assim a entrada da ECA no projeto. Com o tempo, a iniciativa ainda ganhou contribuições do professor José Afonso Mazzon, da FEA, além de pesquisadores do Insper e da Universidade Federal do ABC (UFABC).

André afirma que o trabalho com os vários professores foi melhor e mais fácil do que o esperado. Ele acredita que as contribuições trazidas pelas instituições de ensino representam um legado a ser aproveitado nos próximos carnavais, tanto pela Rosas de Ouro quanto por outras escolas. Além das atrações que poderão ser conferidas na avenida e no aplicativo, o contato com os pesquisadores permitiu a introdução de novas tecnologias no processo de planejamento e produção de alegorias, figurinos e adereços. Barretto cita, por exemplo, como a troca de tesouras convencionais por tesouras elétricas aliviou o impacto na saúde das mãos de artesãos e trabalhadores da escola. Outro exemplo é a implantação de chips nas fantasias, que ajudarão a monitorar e controlar o tempo de duração do desfile. 

O contato com o barracão também trouxe lições para os docentes. Eles tiveram a oportunidade de conhecer melhor a dimensão e o significado do trabalho artesanal dentro de uma escola de samba. Trabalho que, às vezes, acaba impondo limites para a adoção de certas tecnologias. “Nós tínhamos que preservar e respeitar primeiramente a escola de samba, que aceitou o desafio [do enredo]”, diz a professora Jane. “A gente não pode esquecer o trabalho de criatividade, de criação, de arte mesmo, por parte da escola, por parte do carnavalesco e da comunidade.”

E o aprendizado continuará durante e depois do desfile. Para o professor Barretto, “Toda essa história de realidade aumentada, por exemplo, eu não sei que tipo de adesão as pessoas vão ter na avenida. É um experimento interessante, e provável até que saia algum artigo sobre isso, buscando entender como as pessoas se comportam em relação a alguns tipos de tecnologia. É um espaço de pesquisa.” Jane complementa: “Nós estamos num excelente momento não só pra pesquisa, mas pra cultura e extensão. Porque a cultura e a extensão têm esse propósito, de disseminar conhecimento e envolver a sociedade.” 

Refletindo sobre o atual cenário das políticas públicas para a ciência e as artes, Regis ressalta que a sociedade sempre foi muito carente de informações sobre o desenvolvimento dessas áreas. Por isso, projetos como o da Rosas de Ouro são extremamente importantes, não só para as instituições de ensino, mas também para as pessoas: “a gente leva entretenimento com conhecimento, com ciência, com informação, pra sociedade. Isso eventualmente pode mudar a vida de algumas pessoas. Tem muitas pessoas que se inspiram em momentos emocionantes da sua vida e resolvem seguir uma profissão, resolvem buscar uma outra área e isso é uma das coisas que motiva muito a gente, fazer com que o conhecimento que a gente produz na Universidade chegue à sociedade por muitos canais.”

 

Texto: Amanda Ferreira

Foto do destaque: Equipe Carnaval 4.0 reunida no barracão da Rosas de Ouro. LabArteMídia