ECA relembra histórico de resistência à ditadura militar

Como parte das comemorações dos 80 anos da Universidade de São Paulo, a Escola de Comunicações e Artes promoveu na última segunda-feira, 8 de dezembro, o evento 50 anos depois: a resistência ECA-USP à ditadura militar, que contou com a presença de professores, ex-professores e ex-alunos, e trouxe uma série de memórias e depoimentos da oposição feita dentro da Escola ao regime militar.

José Marques de Melo,  professor emérito da ECA e ex-diretor,  que iniciou a carreira de docente na USP em 1967, e foi o responsável pela implantação do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, esteve no evento e ressaltou a trajetória de defesa dos valores democráticos que sempre permeou sua vida: “Participei da recepção de Celia Guevara (mãe de Che Guevara) no Recife, em 1961; do congresso da UNE em Petrópolis, em 1962”. Melo ainda relembrou o dia em que foi processado por estar com o livro Técnica do Lead, que ele adotou para dar aulas aos estudantes de jornalismo, e que foi considerado uma ameaça pela ditadura. “Fui absolvido por Jarbas Passarinho, que me julgou um subversivo romântico; e não um terrorista”, disse.


Jornalista Sérgio Gomes, professores Luiz Milanesi e José Marques de Melo. Ao fundo, primeiro logotipo do CA Lupe Cotrim feito pelo Laerte (cartunista).

A atuação de Marques de Melo também foi salientada por Sinval Medina – jornalista e ex-professor da ECA: “sob a direção de Marques de Melo, o CJE era um ponto fora da curva na universidade, e ele é o principal responsável pela criação de um núcleo de resistência à ditadura aqui dentro, onde a repressão era enorme”. Medina ainda lamentou o processo de destruição que a ECA sofreu a partir de 1972, quando era uma referência no ensino da comunicação. Professores foram afastados e um deles, Jair Borin, chegou a ser preso dentro do próprio prédio da Escola. “Manter a memória do medo e dos sacrifícios impostos é a melhor maneira de impedir que, um dia, a ditadura venha a se repetir no nosso país”, finalizou.

Adilson Citelli, professor do Departamento de Comunicações e Artes, destacou a relevância do evento promovido pela ECA, especialmente por acontecer há dois dias da publicação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que passou dois anos e meio ouvindo militares, civis e colhendo documentos referentes ao regime militar. Citelli ainda lembrou que sua geração, que ingressou na universidade em 1968, teve uma formação política dentro do contexto da ditadura militar: “só fui votar vinte anos depois de tirar meu título de eleitor”. Para ele, é preocupante o número trazido pelo Datafolha, que revela que 12% da população brasileira considera que em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura: “ter vivido a ditadura é um estímulo para que não se queira um futuro com qualquer vínculo com aquele passado, a não ser um vínculo histórico”.

Sérgio Gomes, ex-aluno da ECA, jornalista e fundador da Oboré, também esteve presente e destacou o papel do Centro Acadêmico Lupe Cotrim (CALC) na resistência contra a ditadura que existia dentro da Escola. Gomes lembrou que, durante alguns anos, o CALC era o responsável por promover encontros que valiam como atividades curriculares, além de ter sido o primeiro centro acadêmico do país a ter uma audiência com Paulo Evaristo Arns – figura notável na luta pela democracia. Para ele, é fundamental que a universidade retome essa história de resistência, “não para preservar o passado; mas sim para iluminar as projeções do futuro”.

Luiz Milanesi, ex-diretor da ECA e atual chefe do Departamento de Biblioteconomia e Documentação (CBD), trouxe as lembranças de quem era morador do Conjunto Residencial da USP (CRUSP) quando, no final de 1968, os prédios foram invadidos por tanques e soldados, e os estudantes que ali estavam foram subitamente presos. Após algumas horas no presídio, alguns foram soltos e outros simplesmente desapareceram. O sumiço de colegas e professores, inclusive, passou a ser mais frequente no ano seguinte, marcado também pela desconfiança de que o colega de sala era, na verdade, um espião dor órgãos repressores da ditadura: “se 68 foi o ano da indignação, da coragem; 69 foi o ano do medo”. Milanesi ainda fez questão de destacar a impossibilidade de se desenvolver o conhecimento em um ambiente como o imposto pela ditadura: “A liberdade na instituição universitária é tão essencial que, sem ela, não há universidade”, finalizou.
 

Texto: Giuliano Galli
Foto : Eduardo Peñuela