Educação midiática como política pública se consolida no ensino regular

Nas primeiras décadas do século 21, a educação midiática como política pública ganhou muita importância nas capitais de São Paulo e do Rio de Janeiro, maiores redes de ensino público do país. Dessa forma, Elisangela Rodrigues da Costa desenvolveu em seu doutorado uma análise de como essa política está sendo aplicada nesses municípios. Denominada Educomunicação e políticas públicas: estudo comparativo de educação midiática nas redes municipais de ensino do Rio de Janeiro e de São Paulo, a pesquisa foi apresentada para a ECA e faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM).


Elisangela visita a rádio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Leonor Mendes de Barros, em São Paulo. Foto: arquivo pessoal

São Paulo é a cidade da América Latina que mais investe na educação midiática como política pública e a capital fluminense também tem uma grande participação nesta área; essas constatações foram decisivas para Elisangela escolher o tema de sua tese. “Seria interessante a existência de uma pesquisa que passasse pela política pública e que fizesse alguma comparação entre elas na educação midiática”, conta a pesquisadora.

Elisangela entrevistou 35 pessoas de cada cidade, como gestores escolares, professores e alunos, e foi constatado que há quase duas décadas existe uma continuidade de práticas nas redes municipais de ensino do Rio de Janeiro e de São Paulo, permitindo a existência de uma política de Estado e não apenas de governos.

Foram estabelecidas as cinco categorias de análise: legislação; política curricular; gestão midiática no âmbito escolar; formação continuada de docentes e discentes; formação inicial de professores. Dessa forma, foi notado que os sujeitos dessas categorias nem sempre possuem a dimensão da possibilidade de diálogos e interações diretas entre elas, apesar de reconhecerem que são eixos importantes na institucionalização da educação midiática como política pública.

A pesquisadora pontua que as instituições de educação e comunicação juntas possuem um papel muito importante dentro desse universo para colaborar na constituição da educação midiática no ensino. “Estamos falando de um conjunto de instituições, em parceria com os atores sociais, que precisam se unir para que realmente possa se constituir uma política pública”, ressalta Elisangela.

Mídia-educação e Educomunicação

Neste campo, há dois termos que podem ser confundidos: mídia-educação e educomunicação. Mas, como a pesquisadora explica, a grande diferença entre os dois é a questão histórica que por consequência leva a duas perspectivas. A mídia-educação tem origem europeia e tratava muito da prática da mídia. Ao longo do tempo, focou-se mais no dialogismo que Paulo Freire pregava, o que fez ela se distanciar do produto midiático, mesmo ainda mantendo um pouco de sua raiz.

Já a educomunicação tem uma vertente latino-americana que abrange mais os processos comunicativos com grande preocupação de proporcionar o protagonismo e o direito à comunicação do estudante. Essas diferenças podem ser observadas nas duas redes de ensino analisadas: enquanto no Rio de Janeiro a mídia-educação tem mais influência, em São Paulo a educomunicação possui maior destaque.

Instituições de educação midiática no Rio de Janeiro e em São Paulo


A principal missão do Cineduc é promover a reflexão sobre as linguagens audiovisuais com o público infanto-juvenil e educadores. Imagem: Manual de Identidade Visual

A educação midiática no Rio de Janeiro se iniciou com o surgimento do Cineduc – Cinema e Educação, a partir da década de 1970. Em 1993, a MultiRio – Empresa Municipal de Multimeios nasceu para marcar e ajudar a consolidar a educação midiática como política pública na rede municipal carioca.

O objetivo desta instituição é de pesquisar linguagens e formatos, experimentar possibilidades tecnológicas em conteúdos curriculares, produzir recursos de aprendizagem, ampliar as formas de distribuição de produtos educativo-culturais e capacitar os profissionais da educação para a utilização das mídias em sala de aula.

Em São Paulo, em 1996, surge o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP), reunindo um grupo de professores de várias universidades brasileiras interessados na inter-relação entre Comunicação e Educação e que já tiveram vínculo com a ECA, seja através da pós-graduação ou da licenciatura em Educomunicação. Já no novo milênio, por conta da indisciplina em sala de aula, o município entrou em contato com o grupo para dialogar e pensar em alternativas que pudessem trabalhar com o tema da violência.

Com o objetivo de atrair jovens, foi pensado na comunicação como meio para esse projeto. A primeira opção foi trabalhar com a rádio por ser um meio de comunicação mais viável em questão financeira e estrutura, e dessa forma surge o curso Educomunicação pelas ondas do rádio ou, como ficou conhecido, Educom.rádio.


Alunos da escola municipal Roberto Mange, uma das atingidas pelo projeto Educom.radio, colocam sua estação para funcionar. Foto: Jornal da USP, agosto de 2002

Fake News

Diante da ascensão das fake news no mundo, que há dois anos está interferindo na decisão popular, como foram os casos das últimas eleições dos Estados Unidos, do Brexit, e, mais recente, das eleições presidenciais do Brasil, Elisangela acredita ser ainda mais essencial e de suma necessidade a implementação da educação midiática como política pública que, na verdade, vai muito além do entendimento do que é fake news. “Para um aluno que teve uma educação midiática, a tendência é que a chance dele produzir e disseminar essas notícias seja mínima”. E completa: “A educação midiática é para a vida”.

 

Texto originalmente publicado pela Agência Universitária de Notícias (AUN), de autoria do repórter Jonas Santana, estudante do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).