Em tempos de crise, jornalismo e literatura perdem visibilidade

Como alguém que há mais de 50 anos sabe, e muito bem, contar histórias, o escritor baiano Antônio Torres se sente muitas vezes desorientado no universo atual da literatura, repleto de jovens que leem histórias de vampiro.

Torres começou a escrever  em uma época quando as redações de jornais eram as melhores — e talvez únicas — faculdades de Comunicação e de Letras. Foi muito repreendido, no entanto, por construir narrativas em um estilo próprio, literário. Aquilo não combinava com a missão informativa de fazer reportagem.

O mesmo pode contar o gestor cultural Afonso Borges. Ele começou no jornalismo para então se tornar escritor e hoje organizar eventos culturais pelo Brasil. Acompanhado dele, Paulo Werneck, curador da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), também construiu sua carreira na imprensa.

Jornalismo e literatura, afinal, sempre andaram juntos, por mais que os jornais nem sempre aceitassem que há outras formas de se contar história, além do lide tradicional. É com esse intuito que o jornalista e escritor Felipe Pena resolveu promover a Mesa "Jornalismo e literatura”, no 39º Congresso da INTERCOM.

Além dos nomes já citados, a presença feminina no debate, que aconteceu no auditório Freitas Nobre do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, ficou por conta da crítica literária e professora da faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Beatriz Resende.

A professora ressalta a importância da imprensa na popularização das críticas literárias a partir do momento em que elas passaram a ser publicadas nos jornais. Ela também cita as feiras literárias, a exemplo da Flip, como espaços importantes para promover o diálogo entre autores, críticos e leitores. “Eu, pessoalmente, acho que tanto um interessado, um crítico, um professor como um jornalista podem escrever sobre a obra literária”, diz Beatriz.

São espaços que, inclusive, ajudam a suprir deficiências do meio acadêmico que, além de muito fechado em si, promove uma troca de saberes insuficiente e cultiva uma forte resistência a falar sobre autores contemporâneos. Como coloca Borges, “a universidade parou de ler a ficção brasileira”.

Os tempos de crise (do jornal impresso, do mercado editorial, da política, da economia) colocam literatura e jornalismo mais uma vez em uma situação de baixa visibilidade. Ambas atividades que, aliás, continuam sendo produzidas e consumidas de maneira elitista dentro da sociedade.

No entanto, em meio a tudo isso, vendo seus colegas sendo esquecidos ou perdendo espaço para celebridades do YouTube, “nada será como antes, mas o mundo ainda não acabou”, reflete Antônio Torres, com um pouco de esperança. Ao seu lado, Beatriz coloca: “talvez nem tudo em arte e cultura esteja perdido, talvez seja apenas uma crise”. E, como todas as crises, elas um dia acabam.

 

Texto: Helena Mega (ECA-USP)