Espetáculo 'Resposta ao Capataz' tem trilha sonora e texto fora do padrão

Nesta quinta-feira (26), estreia o espetáculo Resposta ao Capataz da turma 67 da Escola de Arte Dramática (EAD). A peça pretende ser uma resposta ao pensamento do colonizador de que a América é um lugar exótico e extremamente sexualizado. Este imaginário difundiu-se pela Europa por meio da carta apócrifa, cuja autoria é atribuída a Américo Vespúcio, Mundus Novus.

“A gente partiu dessa carta de Américo Vespúcio e, nessa nossa pesquisa, a gente viu que a palavra “américo” tem vários sentidos na etimologia. Um significado é “dono da casa” e o outro é “dono do trabalho”, que manda fazer trabalho, é o capataz”, explica a diretora convidada Kenia Dias. Ela afirma que a turma achou este um fato irônico e resolveu desenvolver uma resposta.

“A resposta não é ao Américo como pessoa; pode ser, mas não é. É a esse pensamento de colonização que não acabou ainda, que continua. Inclusive, a gente também se coloniza e coloniza o outro”, explica. “Nos propusemos a ensaiar uma resposta a esse capataz que nos batizou com seu nome e nos “coisificou” sem dó”, afirma o aluno e integrante do elenco Welington Landim Filho. A partir disso, a turma pensou no corpo como território de colonizar e de ser colonizado, como fronteira, como resistência.


Resposta ao Capataz estreia nesta quinta (26), no Teatro Laboratório da ECA. Foto: Caio Oviedo

Estrutura do espetáculo

Apesar de a peça não ser baseada em improviso e ter uma estrutura, a diretora diz que Resposta ao capataz não conta uma história linear; por exemplo, não há personagens: “a gente trabalha com a ideia de uma experiência corporal, sonora, imagética e de resposta”. A dramaturgia é baseada na resposta da turma. “É quase um manifesto das necessidades urgentes, da urgência em se responder a esse pensamento”, esclarece a diretora.

Nesse sentido, aparecem questões relacionadas à sexualidade da mulher, ao feminismo, à negritude, aos desejos burgueses. “Então, a peça navega por esses assuntos que vieram dos próprios alunos como resposta”, de acordo com Kenia.

A trilha sonora foi desenvolvida por Ricardo Garcia, co-diretor do espetáculo. Para a trilha, ele construiu objetos sonoros específicos, capturou os sons e compôs em cima disso. “A gente trabalha muito essa relação do som e do movimento. Então, entendemos o som como mais um corpo”, explica a diretora, “é uma trilha baseada em padrões que não são os tradicionais da música, porque criam polirritmias, criam outra qualidade sonora. São sons que só existem pra essa peça”.

Outro aspecto original de Resposta ao Capataz é o texto utilizado. “Tenho desenvolvido, de uns anos pra cá, uma pesquisa que chama boca-ação. É uma maneira de a gente construir textos através de assuntos variados e uma quebra na lógica da gramática”, conta Kenia Dias. Por isso, a estrutura sujeito, verbo e predicado deixa de existir: “substantivo vira verbo, sujeito vira verbo, substantivo vira predicado”.

Essa técnica também é chamada de texto acúmulo: “a gente vai acumulando palavras e vai subvertendo a lógica delas. É um texto completamente fora do padrão, assim como a trilha.”

A última montagem da turma 67 da EAD fica em cartaz até o dia 12 de agosto, no Teatro Laboratório ECA.

Serviço:
Resposta ao Capataz
Data: de terça a domingo, de 26 de julho a 12 de agosto
Horário: de terça a sábado, às 21h, e domingo, às 19h
Local: Sala Alfredo Mesquita - Teatro Laboratório (Prédio 8)

Os ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência.

Texto: Mirella Coelho