Esquerdas e direitas no debate público brasileiro

A diversidade e o compromisso com a verdade factual devem ser imprescindíveis para informar a sociedade

 

Há meses, a covid-19 tem sido o principal tema da cobertura da imprensa, cujo papel de interesse público se evidencia por meio da divulgação de informações para prevenir a doença e orientações à população sobre o saque do auxílio emergencial, além da promoção de debates sobre o mundo pós-pandemia. No entanto, o foco jornalístico acaba se estendendo à atuação do presidente Jair Bolsonaro, que desde sua posse tem protagonizado diversos casos de desrespeito e abuso em relação a imprensa. Em um dos mais episódios mais recentes, ele mandou uma repórter do jornal Folha de S.Paulo "calar a boca".  

Antes da pandemia, o cenário político brasileiro já estava bastante turbulento. Reforma trabalhista, reforma da previdência, fake news, o assassinato da vereadora Marielle Franco. Sem contar a polarização do debate público, dividido entre esquerda e direita desde as eleições de 2014. Diante desses temas, o jornalista e editor executivo do jornal O Estado de S. Paulo, João Gabriel de Lima,  defende em sua dissertação de mestrado que “para exercer essa missão a contento, o jornalista precisa evitar a armadilha da polarização, que invariavelmente destrói e distorce o debate.”

Intitulado O Espelho da Diversidade: esquerdas e direitas no debate público brasileiro - como a imprensa pode refletir a conversa inteligente por trás da cortina da estridência​o trabalho de Lima foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM). Uma das conclusões da pesquisa é que o jornalismo deve ter como prioridade o reconhecimento das várias ideias que disputam o debate público no Brasil, por mais que a polarização hoje existente torne essa tarefa cada vez mais difícil. 

Lima relembra que a trajetória política recente do país foi marcada por dois impeachments e o movimento das ruas no ano de 2013, que ajudaram a acirrar os ânimos da opinião pública. Além disso, operações de combate à corrupção como a Lava-Jato abalaram a confiança nas insituições e nos políticos. Esses fatores contribuem para debates polarizados, nos quais questões complexas e repleta de contradições são reduzidas à apenas um “contra” ou “a favor”. 

A imprensa tem um papel muito importante no debate público. Hoje, com a pandemia, ela tem sido essencial no combate à desinformação. Foto: reprodução Portal Lt5.

 

O papel da imprensa como mediadora

O jornalista acompanha e promove o debate de ideias. Faz o embate e a mediação, por exemplo, entre os posicionamentos oficiais do governo e o conhecimento adquirido por meio de suas fontes.  Porém, ainda falta uma melhor compreensão sobre o papel da imprensa, sobretudo quando políticos atacam a credibilidade dessa instituição. É muito frequente que reportagens, análises e mesmo artigos de opinião sejam classificados por seus detratores como uma forma de manipulação. No entanto, o jornalismo tem como alicerce a verdade factual, ou seja, a informação embasada em dados e fatos. 

Um desafio para a dinâmica atual do jornalismo é o fato de que o leitor não é mais apenas um receptor da informação. Por meio da internet, principalmente das redes sociais, consumidores de notícias também produzem as suas próprias. Com isso, Whatsapp, Twitter e Facebook se converteram em verdadeiras arenas de opiniões e fake news, ditando novas formas da sociedade lidar com o noticiário. A crise decorrente da pandemia pode ser um novo ponto de inflexão para o jornalismo, estimulando o surgimento de novos modelos de negócio e de distribuição de notícias.  

Apesar do clima de "guerra" que por vezes parece imperar nas redes sociais, ainda existe espaço para debates ricos, segundo o pesquisador. E isso não acontece somente porque existem diversas opiniões, mas também pelos níveis de convergência e divergência. O caso da reforma da previdência, por exemplo, foi menos polêmico que o da reforma trabalhista, já que em um primeiro momento colunistas liberais e social-democratas convergiram a favor da reforma, que sofreu mais questionamentos de nacionalistas e de socialistas, confirmando a pluralidade que deveria existir sempre no debate da imprensa. 

Hoje, o debate sobre a atual crise política vem ganhando espaço sobre a discussão pública a respeito do enfrentamento da pandemia e de suas consequências em diversas esferas. Nos dois casos, a sociedade só pode se beneficiar do debate público quando houver confiança no jornalismo. E o que garante essa confiança é a verificação dos fatos em diálogo constante com a academia, com pesquisadores e formuladores de dados. É dessa forma que discursos alheios à verdade factual podem ser combatidos e desmascarados.  

 

Texto: Samantha Nascimento da Silva

Ilustração do destaque: José Américo Gobbo - Observatório da Imprensa