Evento com ex-alunos e ex-alunas da ECA celebra 50 anos de Orgulho LGBTI

Em 2019 completam-se 50 anos da Rebelião de Stonewall, acontecimento que inspirou a criação do Dia do Orgulho LGBTI. Na última quinta-feira, 27 de junho, véspera da data comemorativa, a ECA recebeu três ex-alunos para falarem de suas trajetórias pessoais e profissionais e de seu envolvimento com a luta pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e pessoas intersexuais. Promovido pelo projeto Diversidade na ECA e pela Comissão de Direitos Humanos da Escola, o evento contou com a presença do ator, produtor e diretor teatral Cássio Scapin, da cantora e compositora Ana Cañas e da jornalista Lívia Franco. Como destacado na abertura pelo mediador do debate e membro do projeto Diversidade na ECA, Gean Gonçalves, o encontro também representou uma oportunidade para “debater questões do mundo contemporâneo, pensando o orgulho LGBTI no campo das comunicações e artes”.


Cássio Scapin, Ana Cañas, Lívia Franco e o mediador Gean Gonçalves

Formada em Artes Cênicas há 12 anos, Ana Cañas falou sobre como se reconectou com sua bissexualidade na época da graduação, após ser reprimida durante a adolescência pelo fato de namorar meninas. Citando o título de seu último disco, Todxs, ela destacou também como o ativismo político e pelos direitos de minorias vem se fundindo ao seu trabalho artístico nos últimos anos. Ana acredita na necessidade cada vez maior de ocupar e fortalecer espaços alternativos e de caráter democrático, e por isso, tem levado sua música para ocupações e locais como o Sarau Cooperifa, além de fazer shows em apoio a diferentes movimentos sociais. Lembrando de amigos e amigas transexuais, ela demonstrou sua preocupação com as políticas de desmonte dos locais de acolhimento para essa população. Segundo Ana, estamos em um contexto no qual “o governo federal chancela a lgbtfobia”.

Egresso da Escola de Arte Dramática (EAD), Cássio Scapin se disse honrado com o convite para participar do evento, embora não se considere um ativista LGBTI e nunca tenha colocado a sexualidade no primeiro plano de sua vida. No entanto, ele acredita que o momento atual torna muito importante falar abertamente sobre o assunto. “A gente tá tendo um retrocesso absoluto e absurdo dentro de questões não só da sexualidade, mas humanitárias. Então acho que neste momento é bom sim a gente conversar, falar, discutir e estar disposto a chegar a alguma conclusão ou pelo menos enxergar pontos diferentes de vista.” Citando versos da música Tieta, de Caetano Veloso (“todo mundo quer saber com quem você deita, nada pode prosperar”), ele criticou o enfoque que é muitas vezes dado à sexualidade das pessoas, como se isso pudesse definir quem é superior ou inferior. Para ele, as questões afetivas, de todas as possibilidades de relacionamento, devem ser repensadas. 


Lívia Franco: jornalista contou sobre o longo e difícil processo para assumir sua identidade de gênero
 
Graduada em 2018, Lívia Franco falou sobre o processo para assumir sua identidade, expressão que ela considera mais adequada do que transição sexual. “Quem és tu?”, a célebre pergunta feita pela lagarta no romance Alice no País das Maravilhas, é, para Lívia, a síntese do que ela sentia durante a infância. Sem acolhimento tanto entre os meninos quanto entre as meninas, Lívia tinha seu porto seguro na família católica, o que a impediu por muito tempo de revelar sua condição, tamanho o medo de ser rejeitada. Foi por meio de uma reportagem da revista Veja que ela teve contato pela primeira vez com uma abordagem menos desrespeitosa em relação à transexualidade. Ainda que tivesse um viés patologizante, a matéria tentava explicar o assunto e fez Lívia entender que era possível buscar procedimentos para obter a imagem que ela tinha do que era uma mulher.

O caminho, no entanto, ainda seria longo e sofrido. Na época de seu trabalho de conclusão de curso, chegou ao auge da depressão e dos pensamentos suicidas e trancou o curso para buscar tratamento. Lívia revelou sua identidade para a mãe, que a acolheu e assumiu a responsabilidade de contar para toda a família. Mais tarde, a jornalista conta que iniciou o processo para obter autorização judicial para mudança de gênero, sendo submetida a audiências e a uma perícia que a fez sentir-se violada em sua dignidade. Antes da decisão final sair, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o direito de pessoas transexuais a alterarem seu registro civil. No dia seguinte, Lívia foi ao cartório e retificou seus documentos. Apesar de todas as dificuldades que enfrentou, ela reconhece que sua história é muito mais bem-sucedida do que a de muitas mulheres e homens trans, que não conseguem chegar ao ensino superior, enfrentam grandes dificuldades para se inserir no mercado de trabalho e ainda sofrem com o abandono da família, muitas vezes desde a infância ou a pré-adolescência. 

Em relação à sua experiência na ECA, Lívia afirma que nunca sofreu opressão. Porém, diz que havia (e ainda há) pouca discussão sobre as questões trans e travesti. Ela – que concluiu seu curso com uma monografia que analisa as narrativas hegemônicas sobre pessoas trans – acha que ainda existem poucos professores inteirados sobre o assunto e que é necessária uma maior abertura para tratar destes temas. Segundo Claudia Lago, professora do CCA e membro da Comissão de Direitos Humanos da ECA, a maioria dos estudos acadêmicos voltados para sexualidade e gênero não são da comunicação, mas que hoje ela observa que há um boom de estudos na área: “A gente tem recebido muitas propostas de alunos e alunas muito interessantes e os professores e as professoras estão se adequando. É uma adequação que eu acho que com o tempo – eu espero – , apesar de todos os retrocessos, seja uma tendência esse campo se ampliar dentro da comunicação.”


À frente, Claudia Lago, professora do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) e presidente da Comissão de Direitos Humanos

O papel da mídia

Os debatedores também discutiram o papel que as mídias desempenham na desconstrução de preconceitos sobre as pessoas LGBT. Para Ana Cañas, a grande mídia reflete os interesses de grupos privilegiados e por isso considera que as narrativas produzidas são deturpadas e fóbicas, dificultando transformações na sociedade. É nos veículos independentes que ela vê um caráter mais progressista. Cássio Scapin entende que a mídia é perniciosa porque tem um viés mercadológico, mas acredita que é possível aproveitar brechas existentes para tomar o protagonismo das narrativas. Usando a trajetória de Lívia como exemplo, Cássio fala da importância da mídia reforçar a positividade dessas “histórias de luta, de pessoas que vêm à tona e se tornam protagonistas das suas histórias”.

Lívia vê uma tentativa de abrir essa discussão na sociedade, mas o discurso que trata a transexualidade como doença ou um fenômeno a ser explicado – sempre por repórteres ou especialistas cisgêneros  ainda tem um peso muito forte. “Até onde as pessoas trans têm a liberdade de criar suas narrativas por elas mesmas?”. Apesar disso, ela enfatiza que a internet e as redes sociais desempenham um papel muito importante, servindo como fonte alternativa de informação e propiciando a construção de pontes entre pessoas trans, que de outra forma se sentiriam muito mais desamparadas. 
 

Os comentários dos convidados e do público reforçaram a importância de ampliar o debate para sensibilizar cada vez mais pessoas e promover uma cultura de respeito, solidariedade e cooperação. Como bem sintetizou Ana Cañas: “não necessariamente você precisa viver a opressão do outro para se colocar na mesma luta e dizer: ‘eu sou a favor desse tipo de conquista’".

 

Texto e fotos: Amanda Ferreira