"Fé em Atos", documentário realizado no TCC em jornalismo, traz à tona a temática das igrejas inclusivas

Em muitas igrejas, sejam elas católicas, protestantes ou de outras tradições religiosas, não há, na fé, um espaço para pessoas de orientações sexuais não-heteronormativas e ideologias de gênero não-cisgêneras. Contudo, ainda que esta percepção resista em alguns lugares e na posição pessoal de alguns fiéis e pastores, nos últimos anos multiplicaram-se pelo mundo igrejas que seguem a teologia inclusiva – uma interpretação da fé que, de maneira geral, não faz distinção e acepção das identidades assumidas pelos frequentadores.   

Fascinada pelas questões antropológicas e sociais da religião, Júlia Pellizon notou como a temática das igrejas inclusivas era relevante, ainda que pouco abordada pela imprensa: desta percepção, nasceu o documentário Fé em Atos, seu trabalho de conclusão de curso, defendido em julho deste ano na graduação em jornalismo e orientado pela professora Mônica Nunes Vieira.

Passagem bíblica inscrita na parede da Comunidade Cristã Nova Esperança, que realiza encontros religiosos para travestis e trangêneros.
 
Assim, buscando abordar como, para além do “próprio questionamento sobre orientação sexual ou identidade de gênero”, as igrejas inclusivas dizem respeito “às coisas que as pessoas fazem e que refletem a fé delas”, Júlia acompanhou quatro igrejas de São Paulo, a Igreja Cristã Contemporânea, a Comunidade Cristã Nova Esperança, a Cidade de Refúgio e a Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo, cada uma com suas particularidades (três delas se autodenominam pentecostais, por exemplo, enquanto uma se autodenomina progressista), bem como as histórias de vida e devoção de alguns de seus fiéis, de modo a mostrar o que via “quando ia ao culto ou à alguma atividade da igreja” - expressando, assim, “esse detalhe abstrato que é a fé no cotidiano das pessoas”.

“Eu acho impressionante como a fé pode mover a vida das pessoas,” comenta Júlia. “É muito sobre a relação delas com Deus. Eu tenho uma personagem, por exemplo, que tem câncer no timo e faz aulas de música na igreja, o que é essencial para ela se conectar com Deus e com a cura dela”.



Débora Benevides frequenta a Cidade de Refúgio e lá faz aulas de violino essa é sua forma de se encontrar com Deus.

Nos nove meses que demorou para finalizar o projeto, Júlia teve algumas dificuldades por ter de fazer todo o processo majoritariamente sozinha, desde a escolha das fontes à edição e por precisar tratar de um tema bastante delicado, no qual precisava contar as histórias sem ser panfletária. Ainda assim, ela acredita que, ao fim, conseguiu atingir seu objetivo de tratar das diferenças de cada uma das igrejas, fazendo com que os espectadores as percebessem e não tratassem esses espaços “como uma coisa só, ou fetichizada ou glamurizada”. “Eu me envolvi muito e estava um pouco segura para apresentar, mas todos que assistiram acharam muito bom. Eu fiquei muito feliz com a recepção das pessoas,” revela.

Nas histórias de fiéis e pastores que conseguiram encontrar lugares onde podiam se conectar com Deus e vivenciar suas identidades, Júlia pôde expressar como “a fé é importante para as pessoas”. “Essa é uma coisa que eu sempre pensei sobre religião e espiritualidade e foi algo que eu vivenciei e transformei em coisa concreta,” pontua. “Isso foi o mais significativo”.

O filme completo pode ser conferido abaixo:


Texto: Victória Martins
Fotos: Documentário Fé em Atos