Filmes brasileiros mostram que a maternidade pode ser vivida de diferentes formas

Três longas foram analisados em pesquisa de mestrado do PPGMPA sobre a representação das mães no cinema do Brasil

 

A percepção sobre a maternidade mudou muito ao longo dos anos, no Brasil e no mundo. O próprio desejo de ser mãe também não é algo intrínseco a todas as mulheres. Já em 2010, o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrava que 14% das brasileiras não desejavam ter filhos. 

No cinema, as imagens sobre mães também mudaram. A maternidade intensiva, em que a mãe se doa completamente para atender as necessidades dos filhos, é uma ideologia presente em muitas produções brasileiras. Mas os contradiscursos também são fortes e mostram: há diferentes jeitos de vivenciar a maternidade. 

Foi essa a conclusão da dissertação de mestrado “Representações da maternidade no cinema brasileiro contemporâneo”, de Juliana Malacarne de Pinho, feita através do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) e orientada pela professora Mayra Rodrigues Gomes.

A pesquisadora fez um levantamento de todos os longa-metragens brasileiros produzidos desde 2015. O primeiro recorte foi o de público, ou seja, ela buscou por filmes que tiveram relativo sucesso nas bilheterias. “Como eu queria analisar as principais questões sobre maternidade, pensei que esse seria um bom recorte, por haver várias pessoas assistindo e possivelmente, se identificando”, explica. 

Em seguida, Juliana filtrou os filmes que tinham mães como protagonistas. Porém, sucessos de comédia como Minha Mãe é uma Peça ficaram de fora, pela dificuldade em analisar a vigência do discurso da maternidade intensiva no gênero humorístico. Os filmes baseados em fatos reais e documentários também não passaram pela seleção. Ela optou por escolher dramas mais naturalistas. 

No final, foram definidos três filmes: Que Horas Ela Volta? (2015), Aquarius (2016) e Como nossos pais (2017). Para a pesquisadora, definir esse corpus foi um dos principais desafios da pesquisa. Apesar de tentar abranger os mais diferentes tipos de maternidade, o recorte feito levou a um enfoque maior em mulheres de classe média e brancas. 

As três produções trazem um traço em comum: elas reafirmam, de diferentes formas, a ideologia da maternidade intensiva. “Hoje em dia, a sociedade coloca uma pressão na mãe: ela deve supervisionar todas as atividades dos filhos e ser a principal responsável pela saúde e bem-estar deles.”

 

Aquarius (2016). Imagem: Reprodução

 

É possível perceber esse tipo de expectativa principalmente no modo como os filhos se relacionam com suas mães nos longas. Em Aquarius, a filha da personagem de Sônia Braga se frustra pelo fato da mãe não ter sido uma mãe “intensa”. Já em Que Horas Ela Volta?, Val é cobrada por não ter sido presente na criação da filha, o que é revelado até mesmo pelo título do filme.  

É interessante notar que, nas obras, a maternidade intensiva não traz satisfação e sentimento de completude para as mães. “Na teoria, deveria trazer, mas não é o que se vê nas narrativas brasileiras”, comenta Juliana. 

Na análise, a pesquisadora concluiu que o filme que mais reafirma a ideologia da “mãe que se doa ao filho” é o de 2015, uma vez que a personagem de Regina Casé se sente feliz em cuidar do neto e por fim, cumprir o papel de mãe presente. 

Além de fazer a pesquisa qualitativa dos longas, Juliana também pesquisou como a maternidade foi tratada no Brasil ao longo das décadas. As percepções mudaram drasticamente, como ela aponta: “No Brasil Colônia, não existia essa ideia de mãe que devia se envolver no cuidado com as crianças. As mulheres que tinham dinheiro deixavam o filho com amas de leite e cuidadoras. A amamentação, por exemplo, era mal vista.”

 

Como Nossos Pais (2017). Imagem: Reprodução

 

Atualmente, o tema da maternidade está em voga, sendo amplamente discutido por movimentos feministas.  Para Juliana, a discussão é importante para todos os setores da sociedade, que devem compreender que “ser mãe não é algo intrínseco à mulher, algo mandatório por um instinto biológico”. Na verdade, ser mãe é, antes de tudo, uma vontade. 

 

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira

Imagem de capa: Reprodução - Que Horas Ela Volta? (2015)