Filmes e livros de uma mesma narrativa possuem fãs de personalidades distintas

Quando você lê e assiste suas histórias preferidas que te fazem fugir da realidade e te imergem no mundo delas, este fenômeno pode ser chamado de transportation. Mas, como qualquer fã, talvez minutos de imersão não sejam suficientes e você queira viver, mesmo na sua realidade, esse universo. Foi esse o tema abordado na dissertação de mestrado de Ramon Queiroz Marlet. Denominada Transportation em narrativas transmídia: estudo sobre os efeitos cognitivos e sociais da exposição dos fãs a um universo ficcional multiplataforma contemporâneo, a pesquisa foi apresentada para a ECA e faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM).

Transportation é uma teoria da psicologia social e o conceito pode ser adaptado para o português como simplesmente “transporte”. “É quando você lê uma história e é transportado para o mundo ficcional dela, tendo que vivenciar e acompanhar seus personagens. Depois, você volta de algum jeito modificado pela história”, exemplifica Marlet. E quanto mais se é transportado, mais crenças, atitudes e comportamentos são compatíveis com o que aconteceu naquela narrativa. Segundo o pesquisador, “é como se fosse uma teoria de persuasão narrativa”.

Ramon Marlet sempre quis saber por que algumas histórias ganham fãs e por que as pessoas gostam tanto dessas narrativas. Para isso, seu objeto de estudo foi Star Wars, o que fez ele se filiar ao Conselho Jedi São Paulo por dois anos, tendo, assim, o contato mais próximo com o seu objeto. “Eu comecei a perceber mais na prática como é essa relação que eles tinham com a narrativa”, contou. Atualmente, Marlet está analisando Harry Potter.

A ideia da narrativa transmídia apresentada em sua pesquisa é a história que acontece em diversas plataformas. Assim, foram desenvolvidos dois experimentos. No primeiro, ele pegou um trecho compilado no YouTube, que seria relativo aos filmes, com cerca de três minutos. Já no segundo, foi escolhido o mesmo trecho dos filmes nos livros de Star Wars e aplicado as mesmas escalas. Com a mesma parte da história em plataformas diferentes, foi medido o nível de transporte do filme e comparado com o do livro para observar suas diferenças.

Para sua surpresa, existe uma diferença discrepante entre os dois perfis de fãs, apesar das narrativas utilizadas fazerem parte do mesmo universo multiplataforma. O que significa que a mesma narrativa estando em diversas plataformas consegue conquistar admiradores de diferentes características.


Dois cosplayers simulam batalha entre Stormtrooper e Boushh. Imagem: The Community - Pop Culture Geek

Fãs e suas narrativas

Com os avanços tecnológicos, as narrativas se aproximaram ainda mais dos seus fãs e é nesse contexto que surgem as atividades características deles:

Fanfictions ou fanfics – “pode ser entendida como uma história escrita pelos fãs. Os autores dessas narrativas dedicam-se a escrevê-las em virtude de terem desenvolvido laços afetivos tão fortes com o conteúdo original que apenas consumi-lo não é o bastante”;

E-zine e fanzine – “desde a década de 1970, as fanfictions eram disponibilizadas em fanzines, revistas amadoras feitas pelos fãs com tiragem e circulação bastante modestas. Hoje em dia, esse veículo foi substituído pelas e-zines”;

Fanvídeos – “corresponde à produção amadora de filmes pelos fãs a respeito de suas narrativas favoritas, que podem variar em função dos recursos disponíveis”;

Cosplays – “reúnem a ideia de customização e jogo (play), no qual os fãs se caracterizam fisicamente com fantasias de seus personagens favoritos e assumem suas respectivas personalidades”;

Fanhits – “é uma composição musical de autoria própria dos fãs, que geralmente costuma ser exibida para o público dos eventos organizados por eles, ou também disponibilizada de forma online nas comunidades em que os autores participem”;

Fanarts – “representam as variações gráficas feitas no e para o grupo de fãs, como desenhos e pinturas”.

Para o pesquisador, as fanfics, atualmente uma das atividades mais conhecidas, surgem das brechas nas narrativas deixadas pelos roteiros oficiais. Dessa forma, os fãs encontram uma alternativa para suprir as lacunas existentes. Mas há outras interferências que podem acontecer em algumas histórias. Ramon Marlet lembrou da petição criada no ano passado por fãs de Star Wars nos EUA para que se removesse o oitavo filme Os últimos Jedi do cânone da saga.

No entanto, surgem as discussões em relação aos direitos autorais dessas produções. De acordo com o pesquisador, do ponto de vista das empresas, as atividades feitas pelos fãs são péssimas porque essas companhias perdem muito dinheiro. Por outro lado, do ponto de vista dos fãs é positivo já que é possível explorar esse universo de diversas formas.

Mesmo parecendo, nem todos os criadores vêem como negativo a interferência de seus admiradores. “Tem muitos autores que falam que a melhor saída é você acompanhar e direcionar os fãs a fazerem o que eles querem”, ressalta Ramon Marlet. E as novas tecnologias também estão sendo bem exploradas pelas empresas. Recententemente, após 25 anos do lançamento de Jurassic Park, há de se observar um investimento pesado em produtos relacionados à narrativa, como jogos e miniaturas, além do filme já ter sido relançado em 3D.

Para o futuro, o pesquisador acredita que “os universos transmídia vão explodir cada vez mais”, isso porque eles são “uma máquina de dinheiro”. As pessoas estão investindo naquilo que elas gostam a fim de se aproximar ainda mais daquele universo que elas tanto idealizam. E a tendência é que se explore todos os pontos possíveis, pois as empresas sempre vão se adaptar ao contexto que eles estão inseridos, já que o público se renova a cada instante.

Texto originalmente publicado pela Agência Universitária de Notícias (AUN), de autoria do repórter Jonas Santana, estudante do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).