Grandes jornais brasileiros apostam no fotojornalismo no Instagram

O desafio é pensar em estratégias próprias para a rede social, que valoriza o engajamento e é mediada por algoritmos

 

Entre vídeos de animais fofos, tutoriais de maquiagem, fotos de viagens e exposições da vida cotidiana, o Instagram é a quarta rede social mais usada no mundo, segundo o relatório Digital in 2019. Por ser uma rede que valoriza muito as imagens, é um terreno fértil para a fotografia. Fotógrafos usam o espaço como portfólio e jornais de grande circulação se conectam com a audiência por meio de conteúdo produzido tanto pelos fotojornalistas quanto pelos leitores. 

Orientada pelo professor Wagner Souza e Silva, no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), a dissertação "As rupturas das imagens técnicas: demolições e reconstruções do fotojornalismo brasileiro no Instagram", de Carolina Vilaverde, procurou entender onde se encaixam os veículos de comunicação em uma rede social que prioriza o entretenimento.

Durante o mês de janeiro de 2019, a pesquisadora observou a performance dos perfis dos cinco maiores jornais brasileiros em circulação: Folha de S.Paulo (SP), O Globo (RJ), O Estado de S. Paulo (SP), Super Notícia (MG) e Zero Hora (RS).

Uma característica se sobressaiu entre os feeds analisados: a fragmentação entre notícias e entretenimento. Há tanto imagens produzidas por fotojornalistas, com legendas informativas, quanto fotos enviadas por leitores, com legendas afetivas. "Embora prevaleça uma tradição fotojornalística em seus aspectos formais, publicações com temas leves são frequentes e cumprem uma função estratégica ao criar intimidade e diálogo com os leitores, aspectos fundamentais para manter engajamento na rede", explica Vilaverde.

Um exemplo claro está nas publicações do Estadão reproduzidas a seguir. Na primeira, vemos na legenda a hashtag #amanhecerestadao. Esta é uma forma de engajar os leitores, que postam fotos em seus perfis e concorrem à chance de ter a imagem publicada no feed do jornal, com milhares de seguidores. Já a segunda publicação é fruto do trabalho da fotojornalista Gabriela Biló e diz respeito a uma notícia de interesse público, no caso, a posse do presidente Jair Bolsonaro. 

Publicação do Instagram do Estadão, a foto mostra o amanhecer.

Foto do dia da posse de Jair Bolsonaro, no Instagram do jornal Estadão.

Fotos do perfil @estadao, coletadas por Carolina Vilaverde e analisadas na dissertacão.

"Os usuários no Instagram têm melhorado os aspectos técnicos das imagens que compartilham e os veículos jornalísticos têm, por sua vez, adotado menos formalidade na linguagem, expressando-se às vezes como indivíduos dotados de personalidade e de afetos", comenta a pesquisadora.  

 

Fotojornalismo no Instagram: entre métricas, engajamento e informação

Na pesquisa, foram analisados jornais que possuem circulação impressa de grandes proporções. São publicações que se consolidaram entre o público em tempos mais analógicos – o "mais novo" é o Super Notícia (MG), nascido em 2002. 

Sendo assim, o uso do Instagram é, por vezes, um desafio. "Em geral, os jornais permanecem fiéis a atributos que importaram do formato impresso e exploram muito pouco recursos característicos da rede social", comenta Vilaverde. 

Entre os aspectos mais desafiadores, está o fato desta rede social ter como principal foco as imagens, o que impede maior contextualização das notícias – dificilmente o usuário lerá uma grande legenda, e portanto as imagens e poucos caracteres devem cumprir o papel informativo. Há, ainda, a impossibilidade de usar links nas publicações, reduzindo as chances de tráfego para os portais online. 

O Instagram acaba sendo uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que seus algoritmos priorizam a atualidade dos posts, valorizando as hard news, a pressão em manter o engajamento pode submeter fotógrafos e jornalistas à tirania das métricas. Afinal, a dinâmica das redes sociais se baseia no envolvimento dos usuários. Sem ele, boas publicações podem permanecer anônimas enquanto outras, se tocam a audiência no ponto certo, "viralizam". 

Publicação no Instagram da Folha de S. Paulo mostra a capa da edição impressa.A prática de publicar a capa das edições impressas foi observada em todos os perfis analisados, apesar de obter baixos engajamentos. Imagem: perfil @folhadespaulo. 

Nesse contexto, a rede social criada em 2010 tem se revelado uma ótima plataforma para fotógrafos, por ser um portfólio público e uma forma de dar visibilidade à carreira. 

A pesquisadora comenta que "há um um movimento importante de jovens fotógrafos e fotógrafas no Instagram, dispostos a descolonizar a essência do fotojornalismo, ainda fruto de um projeto burguês de olhar-pensar o mundo". Em seus perfis, esses fotógrafos – por vezes amadores – oferecem um novo olhar para a periferia, não pautado pelos valores-notícia de medo, violência e desespero. 

"O fotojornalismo apenas se beneficia com a multiplicação dos pontos de vista, a partir de novos sujeitos por trás das câmeras", diz Vilaverde.

 

O papel do jornalista em tempos de curadoria algorítmica 

É comum o uso do termo gatekeeper (porteiro, guardião) para designar a função de jornalistas e editores: cabe à eles determinar o que passa pelo "portão", ou seja, quais fatos são notícias e devem entrar na discussão pública. Esse conceito já sofreu duras críticas, mas o fato é que, hoje, a ideia de gatekeeper foi subvertida. 

"Determinar a hierarquia e a relevância das informações continua sendo essencial. A diferença é que agora isso se dá por dinâmicas que não estão centralizadas nas mãos dos jornalistas-editores, mas em processamentos de curadoria algorítmica", explica a pesquisadora. 

Se, antigamente, a imprensa sofria com a escassez de tempo e espaço para a publicação das notícias, atualmente o cenário é quase o inverso. As redes sociais permitem que a informação seja abundante e de rápida circulação. Essa possibilidade, inclusive, também facilita o surgimento e reprodução das fake news. Assim, o gatekeeper ainda é necessário, menos como um "seletor" dos fatos e mais como um programador do algoritmo.

Algoritmo este que pode ser um vilão para o jornalismo, já que tende a analisar e priorizar os padrões de navegação e os interesses dos usuários, tornando o conteúdo mostrado nos feeds mais homogêneo e alinhado com seus pontos de vista. 

"Para o jornalismo, isto é particularmente problemático, porque a distribuição personalizada de notícias pode criar uma assimetria no acesso à informação e até manipulações políticas, dificultando discussões de interesse público", conclui Carolina Vilaverde. 

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira

Foto de capa: Pexels