Machismo no mundo HQ faz da internet um espaço alternativo para mulheres quadrinistas

Em 2015, na 27ª edição do Troféu HQ Mix, considerado o Oscar dos quadrinhos brasileiros, havia cerca de 82% de pré-indicações masculinas (121 obras feitas exclusivamente por homens) e 13% de pré-indicações femininas (19 obras feitas exclusivamente por mulheres) – o restante eram obras feitas a partir de parcerias entre homens e mulheres ou coletâneas nas quais não foi possível identificar todos os autores envolvidos. A discrepância no reconhecimento entre os gêneros e outras frustrações relacionadas ao machismo nesse campo influenciaram Carolina Ito Messias, ou simplesmente Carol Ito, na escolha do tema de seu mestrado. Denominada Um panorama da produção feminina de quadrinhos publicados na internet no Brasil, a dissertação foi apresentada para a ECA e faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação.


Tirabomba, de Carol Ito. Quadrinho critica campanha de divulgação do HQ Mix 2015, que lançou mensagens impregnadas de machismo e preconceitos

Carol é produtora de histórias em quadrinhos e autora do blog de webcomics Salsicha em Conserva, espaço on-line no qual ela e outras ilustradoras cooperam entre si. Em sua pesquisa, ela concluiu que, enquanto no mercado editorial o número de publicações femininas é constantemente baixo, a internet veio a se tornar um espaço alternativo para que elas pudessem publicar suas produções. Porém, as artistas dependem de uma validação de seu trabalho que só acontece com reconhecimento conquistado em participações em eventos e no recebimento de prêmios. “Estar na internet não garante que você vai ter um alcance, ainda mais com os algoritmos das redes sociais”, lamenta a pesquisadora.

Para sua análise, ela selecionou produções de duas plataformas que dão espaço para publicações de quadrinhos de autoria feminina: o site Lady’s Comics e o grupo Zine XXX, do Facebook. Ao todo foram listadas oito webcomics. São elas: Bianca Pinheiro (Bear); Brendda Costa Lima (Manual de sobrevivência à vida adulta); Cátia Ana (O diário de Virgínia); Cris Peter (Quimera); Fernanda Ferreira (Como eu realmente…); Gabriela Masson (Garota Siririca); Germana Viana (Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço) e Lita Hayata (Bete vive). O critério de seleção escolhido por Carol foi o de HQs que possuíam enredos contínuos, sendo descartados charges, cartuns e tirinhas.

Após observar o que as publicações tinham em comum, a pesquisadora encontrou nove temas principais tratados nessas narrativas, e para sua surpresa, a abordagem do feminismo e gênero não foi tão presente. Em uma ordem de frequência, o tema amizade é o que mais apareceu nas histórias, seguido de vida adulta (trabalho e estudos), autoestima e ansiedade e amigo imaginário. Só depois aparece a temática que aborda feminismo e gênero, sendo seguida de relacionamento amoroso, sexo e drogas. Para ela, essa constatação pode ser vista de forma positiva por quebrar estereótipos.

A pesquisadora lembra que as mulheres sempre atuaram na produção de quadrinhos, mas eventualmente omitiam seu primeiro nome para não serem reconhecidas como mulheres. Quando não era assim, elas nunca eram direcionadas a uma função de criação, mas, sim, de colorização e arte final, tarefas que não eram ligadas ao roteiro.

Carol Ito é também criadora e coordenadora do projeto Políticas nas redes sociais que tem como objetivo publicar quadrinhos políticos produzidos por mulheres. Já desiludida com a grande mídia por não dar espaço para mulheres nesta área, o projeto visa ser uma plataforma que abriga ilustrações, colaborando, até, com o surgimento de novas artistas.


Eleições, de Carol Ito. Quadrinho publicado um dia antes do primeiro turno do pleito de 2018 traz Jair Bolsonaro como referência 

 

Texto originalmente publicado pela Agência Universitária de Notícias (AUN), de autoria do repórter Jonas Santana, estudante do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).