Memória sequestrada: professor aborda crise da Cinemateca Brasileira em artigo para o Jornal da USP

Escrito por Eduardo Morettin, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão, texto comenta o descaso governamental com a cultura e a resistência de trabalhadores, intelectuais e artistas

 

Responsável pela preservação, documentação e difusão de um acervo com mais de 30 mil títulos, que compreende filmes amadores e profissionais dos mais diversos gêneros e a coleção de telenovelas e reportagens da TV Tupi, a Cinemateca Brasileira é a principal instituição dedicada a  memória audiovisual do país. Sem esse acervo, que conta ainda com milhares de documentos (roteiros, cartazes, fotografias de cena, etc.), pesquisas e filmes realizados com material de arquivo no Brasil e no exterior não seriam possíveis. 

Apesar de sua inestimável importância, todo esse patrimônio encontra-se ameaçado. Desde 2013, a Cinemateca enfrenta uma crise financeira, que tomou proporções mais sérias nos últimos anos devido ao descaso do governo Jair Bolsonaro em relação à cultura. Os mais recentes episódios desse drama foram a entrega das chaves da instituição a um representante da Secretaria do Audiovisual escoltado por agentes da Polícia Federal armados e o anúncio, na semana passada, da demissão de todos os funcionários. Sem receber há quatro meses, muitos dos capacitados técnicos e técnicas vinham trabalhando de maneira voluntária para manter o acervo em condições adequadas. 

“Pela primeira vez em sua história, a ameaça de uso da violência pairou no espaço que é patrimônio de nossa memória audiovisual”, escreve em artigo para o Jornal da USP o professor Eduardo Morettin, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR). “A crise sofrida pela Cinemateca Brasileira neste ano é exemplar, infelizmente, do modus operandi do atual governo em relação à cultura, pautado pela destruição, esgotamento e asfixia de todas as instituições que se encontram sob a sua alçada.” 

 

Manifestação de apoio a CinematecaCineastas, produtores e cinéfilos pedem socorro à Cinemateca em manifestação realizada no dia 4 de julho de 2020. Foto: Tiago Queiroz /Estadão

 

No texto, o docente traça um breve histórico da instituição e da crise atual – que é a pior já enfrentada em seus 70 anos de existência –, com destaque para as ações de resistência e solidariedade que vêm sendo organizadas pelos mais diversos segmentos, como cineastas, atores, a associação de moradores da Vila Mariana (bairro-sede da Cinemateca), cinéfilos e membros da sociedade civil.

Apesar da confiança na sobrevivência da instituição, Morettin lamenta e denuncia o confisco de uma parte importante da história e da cultura do Brasil. “Neste momento desolador, sem os seus trabalhadores e trabalhadoras, de portas fechadas, nossa memória audiovisual se encontra sequestrada e trancafiada. Ela precisa ser devolvida à sociedade, e o Estado deve assumir de forma plena, respeitando as salvaguardas estabelecidas em 1984 [quando a Cinemateca passou à administração pública], o trabalho de preservação, documentação e difusão de nossa cultura cinematográfica.”

Leia o artigo na íntegra.