Dissertação revela como Almir Sater modernizou a música de viola

Pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Música transcreve cinco composições do artista e identifica os recursos composicionais por trás de sua riqueza criativa

 

Em 2018, as violas foram reconhecidas como patrimônio cultural do estado de Minas Gerais. O Registro dos Saberes, Linguagens e Expressões Musicais da Viola foi realizado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), destacando a importância do instrumento musical na cultura do país e sua ligação com as tradições mineiras.

A viola tem origem portuguesa e chegou ao Brasil junto com os colonizadores. À medida que se espalhou pelo território nacional, o instrumento assumiu expressões culturais de cada região e foi incorporando diferentes materiais e formas à sua construção. 

Reconhecido pelo seu trabalho com a viola caipira no Brasil, o compositor, músico e ator Almir Sater teve sua obra instrumental analisada por Max Junior Sales, mestre em musicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Música (PPGMUS). Intitulada A diversidade composicional na obra instrumental de Almir Sater, sua dissertação de mestrado identifica e descreve os recursos composicionais presentes em cinco músicas do artista: CorumbáDomaLuzeiroViola de Buriti e Cristal.

O pesquisador chama atenção para o fato de haver “uma carência significativa de estudos dedicados às obras dos instrumentistas de viola”, assim como de pesquisas científicas que se dediquem às composições de Almir Sater, ainda que elas sejam incorporadas com frequência ao repertório de músicos Brasil afora.

Finalizado em 2019, o estudo foi desenvolvido sob orientação do professor Ivan Vilela, do Departamento de Música (CMU), e apresenta, além da transcrição das composições analisadas, uma série de referências bibliográficas sobre a viola de dez cordas. 

 

Max Junior Sales demonstra características das composições instrumentais de Almir Sater durante a defesa de sua dissertação de mestrado, realizada em agosto de 2019. Foto: Mônica Monteiro.

 

Viola instrumental: diferentes possibilidades de abordagem

As composições de Almir Sater recebem influências de gêneros musicais como o rock e o blues. O disco Instrumental, de 1985, apresenta possibilidades musicais até então inexploradas com a viola. As composições do violeiro apontam para uma modernização da música instrumental de viola, uma vez que a sonoridade de suas obras se assemelha à sonoridade da música instrumental contemporânea e da MPB. Segundo a dissertação, "alguns músicos e pesquisadores se referem à produção musical de Almir Sater como uma obra que apresentou novas possibilidades musicais e instrumentais ao universo da viola de dez cordas."
 
Em Corumbá, "Almir Sater faz uso de um recurso técnico característico da técnica guitarrística na execução do blues", denominado bend. Nessa técnica, se eleva a altura de uma nota sem que haja interrupção do som, "por meio de uma distensão da corda com o dedo que a pressiona".
 

A inserção de elementos do blues, assim como a relação entre modalismo e tonalismo e a elaboração complexa da instrumentação em Luzeiro, entre outros recursos identificados no trabalho, revelam a diversidade presente nos processos criativos do compositor. Para o pesquisador, “foi surpreendente constatar como um recorte tão pequeno da obra [de Almir Sater] pôde gerar um estudo tão extenso. Ainda assim, há um sem-número de possibilidades de estudos para abordar a obra por diferentes perspectivas.”

Através de sua pesquisa, Max tinha como objetivo criar uma base para que mais estudos explorem o universo da música instrumental de viola, além de contribuir para um "entendimento mais sólido da história desse instrumento como um importante elemento da cultura brasileira", que não se limita à uma única região e pode ser utilizado em diversas linguagens musicais, como o rock, o choro e a música clássica, ele explica.

 

Do violão para a viola: um percurso acadêmico e artístico

Max conta que, antes de iniciar o mestrado em 2017, se deparou com a dissertação A Viola Caipira de Tião Carreiro, realizada pelo também violeiro João Paulo Amaral, na Universidade de Campinas (Unicamp). "Achei a pesquisa incrível e comecei a procurar outros trabalhos semelhantes dedicados a outros violeiros. Encontrei pouca coisa. Nesse momento, me ocorreu de eu mesmo desenvolver um estudo dedicado à obra do violeiro sul-mato-grossense [Almir Sater], uma referência musical pessoal desde o período em que eu ainda não tinha contato com a viola."

A música instrumental faz parte da vida de Max desde muito cedo. Ele relata que o interesse pela música teve início em sua adolescência e conta dois eventos marcantes da época. O primeiro diz respeito à lembrança de momentos em que observava seu pai “tocar alguns acordes e assoviar algumas melodias” no violão. O segundo evento remete a uma experiência da época em que Max começou a frequentar um grupo de capoeira, no bairro vizinho ao que morava. Logo no primeiro encontro, o que lhe chamou a atenção não foram os movimentos da prática, mas o som que saía do aparelho usado para reproduzir uma fita cassete. “Aquela sonoridade das vozes, berimbau, atabaque e caxixi foi muito impactante para mim”, ele diz e destaca que, desde o início, o aspecto instrumental - como timbres, dinâmicas e melodias - foi o que mais chamou sua atenção.

Nascido em Lavras, Minas Gerais, Max se mudou para cursar graduação em música pela Universidade Federal de São João del-Rei. Lá ele se formou em violão em 2010. Foi também nessa época que o interesse pela viola “foi se tornando cada vez maior a ponto de começar a substituir o violão como meu instrumento principal de trabalho”. Ele afirma ter encontrado no mestrado a possibilidade de fazer essa transição e se aprofundar no universo da viola caipira. Segundo ele, “a escolha do PPGMUS se deu pela possibilidade de ser orientado pelo professor Ivan Vilela, uma referência do assunto no país.”

 

Texto: Natália Milena
Imagem de capa: Natália Milena