Moacir: Filhos da Dor

O espetáculo de dança-teatro na água é o projeto de formatura em Direção Teatral do aluno Lucas Paz, sob orientação dos professores Antonio Araújo e Maria Helena Bastos, do Departamento de Artes Cênicas (CAC).

Moacir: Filhos da Dor é inspirado na obra Iracema, de José de Alencar, e traz para um ambiente não comum a experiência da dança e do teatro: as piscinas do Centro de Práticas Esportivas da USP (CEPEUSP).

Além do desafio de agir em um espaço público, Lucas escolheu trabalhar com pessoas que não fossem da área do teatro e da dança, para reconhecer o que corpos cotidianos podem trazer para uma obra artística. Lucas apresenta o espetáculo junto com seu grupo (Pre)forma-se, que fundou há três anos com alguns alunos de graduação. Pessoas de diferentes cursos já passaram pelo grupo sob a direção de Lucas. “O grupo aborda a questão de trabalhar a perfomance e pensar numa expressividade que estaria anterior a uma questão puramente estética ou teatral, a símbolos que nós reconhecemos e decodificamos, é muito mais uma tentativa de pensar em formas que já estão presentes no nosso cotidiano e têm uma latência artística dentro delas”, comenta Lucas Paz. A performer Thais Lucena cursa Relações Públicas na ECA, Vanderson de Souza está se graduando em Ciências Sociais e faz mestrado em Biologia na USP, e Maira Mesquita, aluna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), faz uma participação especial como  performer e  na contra-regra.

 Foto: Silvio Augusto Jr.

De acordo com Lucas, o projeto tem como ponto de partida a obra Iracema, pois “partiu da provocação, se não uma constatação, que é a sensação de ser dono e estrangeiro da sua própria terra, do seu lar, como é você se sentir em casa e ao mesmo tempo alheio àquele lugar. A minha história é parecida com essa provocação, de você sair do seu lugar em busca de um sonho, e de repente você está num “entre”, numa situação nem de pertencimento nem de não pertencimento. Eu vim de Fortaleza para cursar Artes Cênicas na Universidade de São Paulo. O livro abre com a Iracema morta e Moacir, seu filho, sendo extraditado da terra dele. Moacir, o filho da dor de Iracema, dá nome ao espetáculo, pois ele é o primeiro brasileiro fruto da miscigenação entre português e índio. Essas questões fizeram a gente pensar um pouco mais sobre nós mesmos, quem seriam esses índios urbanos, quem seriam esses nômades que estão perdidos em um lugar que eles não sabem definir muito bem e quais são essas dores que eles carregam, tudo isso transformado em um espetáculo visual de dança-teatro.”.

O projeto surgiu de uma pesquisa que Lucas Paz desenvolve na ECA: Performance em espaços públicos a partir do mínimo gesto da ação simples, também tema de sua iniciação cientifica com orientação do professor Antonio Araujo. O grupo tinha o desejo de trabalhar um projeto de dança-teatro a partir da obra de Iracema, mas a dramaturgia de Moacir: Filhos da dor surgiu com o processo, em um trabalho que Lucas chama de inscrição e escritura corporal. “Trabalhar em um lugar que tem um caráter público, que tem uma circulação grande de pessoas e absorver desse lugar os fluxos e as dinâmicas dele, para assim começar a intervir. Não chegar com uma proposta fechada. A partir dessa pesquisa, fizemos algumas intervenções no centro de São Paulo, algumas performances em algumas cidades do Brasil e também da Europa, e agora estamos com três experimentos diferentes, um no Vale do Anhangabaú, um no Teatro Municipal e esse espetáculo no CEPEUSP, compreendendo diferentes caracteres públicos, via monumento ou patrimônio histórico e uma instituição pública.”.

 Foto: Silvio Augusto Jr.

Lucas comenta que “a proposta de intervenção acontece em dois graus, porque os ensaios vêm como intervenção direta no meio de um cotidiano, e o espetáculo acontece à noite, com o CEPEUSP fechado para ele. De março até agora a gente teve uma experiência bastante interessante de absorver os fluxos do lugar, perceber a frequência de pessoas, que atividades eles desempenham. O trabalho ganha formas diferentes do público compartilhar essa experiência.  Os perfomers transitam fora e dentro da água, ocupando o espaço das duas piscinas e do entorno delas. Vamos ter algumas cadeiras ao longo da piscina, mas a indicação é que eles possam assistir ao espetáculo da grama, do trampolim, dos blocos da piscina, eles têm essa liberdade de trânsito, de se aproximar e se distanciar da ação o tempo inteiro. O público pode transitar por esse espaço, entendendo de que se tratam realmente de composições visuais e muito menos de um discurso tão claro. O espetáculo é dividido em nove partes e é muito silencioso, a interação não acontece de maneira tão direta no sentido de uma interlocução, é muito mais uma interação que está na sensação dessas imagens, desses corpos em deslocamento.”.

Lucas pretende levar esse trabalho, que começou na ECA, a outros lugares, atingindo cada vez mais pessoas.

O espetáculo já tem uma temporada em Fortaleza, no mês de janeiro. “Como esse espetáculo parte daquela provocação pessoal, de alguém que parte da própria terra em busca de um sonho, que pessoalmente ou profissionalmente a gente vai atrás, essa cisão me pareceu bem importante, quis levar esse trabalho como devoluta para minha cidade.”.

Moacir: Filhos da dor, nas piscinas do CEPEUSP, acontece todas as sextas, sábados e domingos do mês de outubro.

 

por Flávia Luz