Mulheres na ECA: a representação feminina na mídia

No mês que marca a luta das mulheres pela igualdade, a Escola de Comunicações e Artes promove o evento Março: Mulheres na ECA, que reuniu nesta semana professoras e estudantes da Escola em palestras e rodas de conversa para discutir questões de gênero e empoderamento feminino dentro e fora da Universidade.

Discursos e Imagens da Mulher nos Meios de Comunicação

Na segunda-feira, 27 de março, a primeira mesa do evento tratou do tema Discursos e Imagens da Mulher nos Meios de Comunicação e contou com a presença de Mayra Gomes Rodrigues e Rosana Lima Soares, professoras do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) e membros do Grupo de Estudos MidiAto; Daniele Gross, que participa do mesmo grupo; Maria Cristina Palma Mungioli, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) e líder do Grupo de Estudos GELiDis (Grupo de Estudos Linguagens e Discursos nos Meios de Comunicação) e Rosana Mauro e Silvia Dantas, também do grupo GELiDis.

As mulheres da mesa se revezaram para apresentar suas pesquisas, sendo a primeira a falar a professora Mayra Gomes, que discutiu o estudo em desenvolvimento Sobre a Violência Contra as Mulheres: Panorama nos Discursos Jornalísticos.

“Nós partimos do pressuposto de que as coisas irão por seus caminhos de justeza naturalmente e eu percebi que isso não é verdade, que há uma série de processos que são agressivos com relação às mulheres”, apontou Mayra Rodrigues (CJE). “E isso me deu o estímulo para desenvolver essa pesquisa”.

Mayra revelou dados sobre a violência contra a mulher no Brasil que mostram a cultura de criminalização da vítima que se instaura no país, para, na sequência, levantar a hipótese principal de sua pesquisa: as mídias seriam educadoras dessa mentalidade, sendo necessário, portanto, uma discussão sobre o papel da mídia e os discursos que nelas circulam, permitindo esta estrutura.  

A professora também apresentou a investigação que têm desenvolvido acerca das matérias publicadas na Folha de S. Paulo a respeito do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro em 2016. Para Mayra, a narrativa do jornal para este caso apresenta “uma série de inconsistências” que podem ser observadas a partir do conteúdo e da ordem em que os textos foram impressos. 

Em seguida, Rosana Soares levantou a discussão sobre “a questão da representação e identidade” na análise das mídias, a partir de “uma perspectiva crítica”, já que, explicou, “a dimensão crítica nos permite colocar em crise essas imagens que estão na mídia, para que possamos problematizá-las”.

Foi o que fez a pesquisadora Daniele Gross em sua tese de doutorado que analisa o reconhecimento da mulher na mídia, articulando estigmas, estereótipos e preconceitos. Entregêneros: representações do feminino na teledramaturgia brasileira traz a análise de 15 programas, entre seriados, minisséries e unitários, e 51 temas, organizados em seis eixos temáticos. Na análise da pesquisadora, a discussão de gênero levantada nas produções televisivas refletem a maior presença de homens roteiristas e diretores e de protagonistas majoritariamente brancas.

Para Maria Cristina Mungioli (esq.), “a telenovela é um produto muito bom para estudar a relação da mulher com a sociedade”. Segundo a líder do GELiDis,  a relação entre a mulher, a ficção televisiva e o lar ainda muito marcada por estereótipos.

Silvia Dantas apresentou pesquisa de doutorado em que pretende investigar a construção do feminino nos discursos das gerações da série 3 Terezas, apresentada no GNT e marcada pela discussão da intimidade e da vida privada no contexto geracional e de gênero. Para a pesquisadora, o interessante na série é a aproximação do cotidiano e o tema da tomada de poder feminino.

Finalizando o evento, Rosana Mauro falou sobre a tese que está desenvolvendo em que analisa a construção teleficcional da mulher popular nas novelas Avenida Brasil e A Regra do Jogo, de João Emanuel Carneiro. Rosana explicou que trabalha com um recorte de 27 personagens para pensar os esteriótipos presentes na construção dessa mulher. A pesquisadora então enquadrou essas personagens em seis categorias mais recorrentes: emergentes, ou seja, aquelas que enriqueceram, mas mantém seu “capital cultural”; piriguetes, namoradeiras e que mantém um cuidado com o corpo; heroínas, que são vitimizadas pela vida; vilãs; mentoras, que exercem o papel materno e representam o local de origem dos protagonistas e empregadas domésticas. 

 

Abertura

Na abertura do evento, Eduardo Monteiro e Brasilina Passarelli, diretor e vice-diretora da Escola, falaram sobre a motivação de uma semana voltada para a discussão de gênero. “Diversidade e Direitos Humanos são universos indissociáveis”, explicou o professor Eduardo. “Portanto, que as ações do movimento de mulheres, de ontem e de hoje, inspire e traga luz às reflexões e debates destes próximos dias”, pediu.

Ao final da abertura, foi feita uma homenagem a professora Margarida Maria Krohling Kunsch, primeira mulher a dirigir a ECA

 

10 Anos Obitel: As Mulheres na Telenovela Brasileira

Na terça-feira, 28 de março, ocorreu a mesa 10 Anos Obitel: As Mulheres na Televisão Brasileira, que contou com a participação da professora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) e da equipe do Centro de Estudos de Telenovela (CETVN).

A pesquisadora Fernanda Castilho tratou da relação da mulher com os relacionamentos e a sexualidade nos últimos 10 anos. Ao falar sobre o casamento, explicou que este ainda é a base central do melodrama, uma espécie de “prêmio e castigo para muitas personagens”, já que a mocinha “é recompensada” com o matrimônio, enquanto a vilã permanece sozinha. Todavia, essa perspectiva vem mudando nos últimos anos com a introdução de importantes personagens que se divorciam sem carregar estigmas. “É muito fácil hoje para as novelas mostrar a reconfiguração pela qual as famílias vêm passando”, pontuou.

Além disso, comentou sobre como as personagens femininas são atualmente retratadas com independência amorosa e sexual, de modo que é mais difícil encontrar mulheres que permanecem casadas pela estabilidade financeira e mais fácil encontrar aquelas que expressam não querer ter um relacionamento ou que ficam com vários parceiros ao longo da trama. 

Daniele Ortega abordou a profissão das personagens femininas ao longo dos dez últimos anos da telenovela brasileira. “Ao longo dos anos, foram aparecendo cada vez mais mulheres com profissões que vão além do trabalho doméstico”, pontuou. “Hoje em dia, percebemos muito mais as tramas acontecendo nos trabalhos dessas mulheres”. Segundo o mapeamento da Obitel, as mulheres vêm ocupando cargos considerados masculinizados e aparecem inclusive com grande independência financeira, sendo até mesmo, em alguns casos, responsáveis pelo sustento da casa. Por outro lado, as telenovelas continuam mostrando a dicotomia entre casa e trabalho, colocando as personagens femininas para decidirem-se entre os dois. E, na maioria das vezes, o espaço privado é o escolhido, explica Daniele.

Sobre a mulher negra na teledramaturgia, Mariana Lima explicou que apesar dos avanços na questão da representatividade, a participação delas ainda é muito incipiente, já que essa mulher “se encontra na menor escala social por sofrer duplamente, pela discriminação de ser mulher e ser negra”, sendo o protagonismo da mulher negra “praticamente inexistente”.  Segundo Mariana, as personagens negras ainda se enquadram em quatro categorias de estereótipos: subordinação, erotismo, invisibilidade e exclusão velada.

Por fim, Lucas Martins Neia falou sobre homoafetividade feminina na telenovela. Ele fez um breve relato da história da representação homossexual na televisão, do primeiro beijo entre mulheres no teleteatro Calúnia, em 1963, até a novela A Lei do Amor.  “Já nos últimos dez anos,” conta, “iremos perceber a incidência da homoafetividade feminina em nove novelas da Rede Globo, ainda que não haja um desenvolvimento no decorrer da trama”. Para a pesquisadora, houve “uma consolidação do amor romântico para os relacionamentos homoafetivos femininos”, ainda que tenha sido mantido o padrão heteronormativo de família.

O evento Março: Mulheres na ECA terminou na quinta-feira, 30 de março, após uma roda de conversa sobre sexualidade feminina com Gabriela Feola, aluna do Departamento de Jornalismo e Editoração. Ampliando esta temática, o Centro Acadêmico Lupe Cotrim (CALC) em parceria com as juniores da ECA (Com-Arte Jr., Agência de Comunicações ECA Jr. e Jornalismo Júnior), promoveram nos dias 28, 29 e 30 de março Semana Emancipa – Artes e Comunicações  com o objetivo de refletir sobre o papel das comunicações e das artes na ação dos movimentos sociais em defesa dos direitos das mulheres, dos negros e LGBT.

 

Texto: Victória Martins
Fotos: Eduardo Quintana, Gabriel G. Garcia e Victória Martins