Nova edição da Revista Sala Preta aborda reflexões sobre modos de fazer arte em meio a cortes

Revista traz artigos de professores a respeito do diálogo da arte com diferentes momentos históricos

 

A última edição da revista Sala Preta é composta de reflexões e pesquisas enviadas espontaneamente para a publicação, não sendo, portanto, o resultado de uma convocatória temática. 

Na carta editorial da revista, os professores Sérgio de Carvalho e Elisabeth Ribeiro Azevedodo Departamento de Artes Cênicas (CAC) chamam atenção para a persistência da pesquisa em ciência e cultura apesar do atual contexto adverso: "num ano em que a produção científica e cultural no país foi prejudicada por cortes de verbas e policiamentos regressivos de toda ordem, em que o imaginário nazista frequentou as declarações do primeiro escalão do governo federal – como uma espécie de teste dos limites do horror na esfera pública –, a produção de conhecimento seguiu dentro de suas possibilidades num país em que a violência dos tratos se tornou a regra, mesmo em setores que outrora disfarçavam as práticas mercantis de anulação do outro por meio de um idealismo letrado." Para eles, os trabalhos presentes na publicação representam um contraponto ao estado da cultura oficial no país pelo simples fato de manifestarem o interesse pelo debate de ideias e a tradução de diversas inquietações. 

O número conta com  a colaboração de professores  estrangeiros, como Cláudia Madeira  e Fernando Matos Oliveira, da Universidade de Coimbra, Portugal, e Gabriele Klein, da Universidade de Hamburgo, Alemanha. A carta inédita do dramaturgo francês Jean-Pierre Sarrazac, que abre o número, dialoga diretamente com as dificuldades da dramaturgia crítica atual, ainda que tenha sido escrita em 2014. "Sua sugestão poético-política se liga à necessidade de que novos vínculos de humanidade sejam produzidos, com base nas divisões atuais", comentam os editores. 

Um dos artigos da revista, “Die Höchste Eisenbahn: Um aviso do cabaré alemão diante da ameaça nazista”, de Lívia Sudare, parte de uma abordagem sobre o contexto político e social do surgimento do cabaré, que é um gênero teatral originado na França com o objetivo de comentar e satirizar seu período histórico, para refletir a respeito de sua reprodução em Berlim, durante a República de Weimar. Durante este período, que abriu caminho para a ascensão de Adolph Hitler, espetáculos de cabaré faziam comentários críticos à conjuntura social e política. O artigo apresenta de que forma o texto Die Höchste Eisenbahn (1932), do compositor Friedrich Hollaender, foi criado como um aviso frente a ameaça nazista.

O gênero do cabaré como sátira do seu tempo. Foto: Reprodução / site BookBurlesque.

Outro artigo que apresenta uma reflexão sobre a arte dialogando com seu tempo é “O teatro brasileiro nas crônicas de Lima Barreto (1911-1921)”, de Paulo Maciel e Lilia Moritz Schwarcz. O trabalho analisa crônicas teatrais de Lima Barreto publicadas entre 1911 e 1920 em jornais e revistas cariocas. Segundo os autores, o escritor inseriu "sua crítica no contexto do pensamento teatral brasileiro da Primeira República e, sobretudo, no debate sobre a criação do teatro nacional. Esse debate oscilou geralmente entre o estímulo do poder público e a iniciativa privada, o gosto médio do público e dos especialistas, a consciência do atraso do teatro brasileiro e o desejo de sua atualização, a hierarquia dos gêneros teatrais e a hierarquia social."

Para ler esses e outros artigos, acesse a Revista Sala Preta no portal de Revistas USP