Sala de Roteiristas: conheça o processo colaborativo de criação das séries

Dissertação aborda o trabalho criativo dos roteiristas brasileiros inspirados no tradicional modelo norte-americano

 

As séries existem há muitas décadas e são uma referência cultural em vários países, da mesma forma que as novelas povoam o imaginário do Brasil.  No entanto, uma das principais diferenças entre os dois gêneros audiovisuais é o roteiro. Como são escritos os seriados? O processo criativo dos roteiristas brasileiros é igual ao dos seus colegas nos Estados Unidos? Essas e outras perguntas norteiam a dissertação de mestrado Sala de Roteiristas: a Writers' Room brasileira e seu processo de escrita colaborativa de séries televisivasde autoria de Bartira Bejarano Campos, realizada no Programa de Pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais.

Segundo a pesquisadora, há uma diferença na maneira como são escritos os seriados brasileiros, com consequências para o trabalho dos roteiristas e a forma com que o produto final chega ao público. “Os processos de criação das telenovelas, das minisséries e seriados produzidos pela TV Globo são comparados aos processos de criação das séries no formato norte-americano, já que ambos estão na televisão, são produtos ficcionais e seriados. No entanto, o formato é distinto, e tal diferença reflete diretamente em seu processo criativo e de difusão”. 

Nos Estados Unidos, o processo de escrita de séries se dá na Sala de Roteiristas, um formato de trabalho colaborativo surgido entre 1880 e 1930, com as esquetes da comédie de vaudeville, espetáculos humorísticos muito populares nos teatros da época. Após o advento da televisão, esse método de escrita é utilizado nos primeiros sitcoms, programas de ficção seriada que bebem na fonte da comédia de situações (é daí, aliás, que vem o nome sitcom). 

Um fato interessante é que as salas de séries cômicas são as mais extensas, contando com um número maior de roteiristas. O trabalho criativo é estruturado e dividido a partir das funções e aptidões de cada um. Existem também as mini-salas, chamadas assim não por causa do espaço físico, mas por agruparem menos roteiristas, com um prazo de escrita que pode ser menor. Com frequência, uma mini-sala está ligada a projetos que são elaborados sem a garantia de que chegarão a ser produzidos. 

Roteiristas da série Breaking Bad trabalham reunidos em uma mesa

A Sala de Roteiristas do seriado Breaking Bad, produzido para a televisão norte-americana. Foto: reprodução Fandom.

 

As Salas de Roteiristas no Brasil

As salas de escrita norte-americanas baseiam-se em temporadas, que costumam ser anuais. A mesma série pode se desdobrar em inúmeras temporadas, por anos a fio, enquanto houver engajamento do público e interesse comercial do canal de exibição. Essa lógica permite que os roteiristas desenvolvam o arco narrativo dos personagens e de suas tramas de maneira aprofundada, com camadas de sentido e reviravoltas que se acumulam ao longo das temporadas. Essa é outra diferença importante em relação às novelas, pensadas para contar histórias em extensão, não em profundidade. 

As novelas e séries produzidas pela Rede Globo até 2016 não se espelham no modelo de criação vindo dos Estados Unidos, apesar de haver uma certa semelhança. O que isso significa? Significa que processos colaborativos para a criação e a escrita já eram uma tendência na televisão bem antes das Salas de Roteiristas chegarem ao Brasil. Um exemplo disso é o trabalho do dramaturgo Aguinaldo Silva, que estreou na Globo com o seriado Plantão de Polícia, em 1979. Segundo ele, os autores de telenovela passam a olhar os processos de séries americanas em busca de referências não só para a construção da narrativa, mas também para seu próprio método de trabalho. Quando escreveu a novela Senhora do Destino, de 2004, o roteirista fez um curso intensivo de Família Soprano seriado norte-americano considerado uma obra prima do gênero além de Grey's Anatomy. 

Diferentes arranjos de trabalho são possíveis dentro das Salas de Roteiristas, havendo espaço inclusive para a escrita solitária. Tudo depende do perfil dos profissionais e do projeto, além do cronograma a ser cumprido. Lucas Paraizo, roteirista da série televisiva Sob Pressão, conta que trabalhou quatro horas por dia, cinco dias por semana. Já Pedro Aguilera, roteirista de 3%, primeira série brasileira da Netflix, trabalhava diariamente, escrevendo sozinho no período da manhã e trabalhando com os demais roteiristas durante a tarde. 

Doc Comparato, um dos roteiristas mais conhecidos do país e pioneiro em séries ele é autor de Malu Mulher, sucesso na década de 70 – , opta por trabalhar sozinho, sem "contaminação criativa".  Para ele, uma das desvantagens das Salas de Roteiristas é seu funcionamento em horário comercial, já que a criatividade não deve ficar presa a um horário ou local, pois ideias surgem a todo momento e em qualquer lugar.

Há inúmeras possibilidades de criação do roteiro, que permitem a exploração de diferentes caminhos e resultados finais. Todos estes processos criativos mantém, no entanto, um aspecto comum e essencial: o ato mágico de tornar vivo todo um sistema dramatúrgico, que vai do texto no papel até a atuação dos atores e o trabalho de toda a equipe técnica. Todos são peças fundamentais para que, uma vez na tela, os enredos capturem os espectadores por meio da catarse e da fuga momentânea da realidade – que estão no cerne da arte e do entretenimento. 

 

Imagem do destaque: série 3%. Foto: reprodução Netflix