O que é ativismo institucional e como ele ajudou a arte brasileira durante a ditadura

Pesquisa de doutorado premiada pela Capes mostra a atuação de artistas e intelectuais no período da redemocratização brasileira

 

Quando pensamos na redemocratização brasileira, pensamos em manifestações, engajamento, protestos por mudança. Imaginamos jornalistas denunciando violações, músicos colocando mensagens implícitas em suas letras, artistas fazendo obras de questionamento. Pensar que alguns desses atores participaram da estrutura do governo, no entanto, não é intuitivo. 

Mas foi esse o tema da pesquisa de Fabrícia Cabral de Lira Jordão, que recebeu o Prêmio Capes de Tese. Em seu doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV), ela buscou entender As atuações e contribuições institucionais de artistas e intelectuais no campo das artes visuais durante o período da redemocratização brasileira (1974-1989) A pesquisa foi orientada pela professora Dária Gorete Jaremtchuk. 

Fabrícia identificou, no cenário brasileiro das décadas de 1970 e 1980, um novo tipo de ativismo por parte da classe artística e intelectual: o ativismo institucional. Isso significa que artistas e pensadores atuavam dentro das estruturas do governo militar, ocupando órgãos culturais e articulando espaços para promoção da arte. 

Isso pode parecer contraditório. Como trabalhavam dentro do governo, sendo que não concordavam com sua atuação? 

Parque Lage, na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Ricardo Borges/Folhapress

Em tempos de milagre econômico, o mercado da arte crescia no Brasil. Assim, esses ativistas se organizavam no sentido de dar visibilidade para a produção nacional.  Eles eram também motivados por uma preocupação: a de que conservadores ocupassem os lugares de direção dos órgãos culturais, dificultando ainda mais a promoção da arte brasileira. 

A Fundação Nacional de Artes (Funarte) e o Parque Lage, por exemplo, são instituições que contaram com gestão de artistas anti-ditadura no período da redemocratização. Em 1975, sob a gestão de Rubens Gerchmann, houve a fundação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, que se encontra em atividade até hoje.  

No âmbito educativo, os artistas Antônio Dias e Paulo Sérgio Duarte criaram o Núcleo de Arte Contemporânea da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). 

Esses são alguns exemplos de ativismo institucional, que segundo Fabrícia, “se diferencia dos outros por ser um tipo de estratégia consciente dos artistas durante a redemocratização, de ocupar cargos em instituições públicas.”

Para pesquisar sobre a atuação desses artistas, Fabrícia precisou lidar com uma bibliografia extensa e multidisciplinar. A pesquisadora estudou as instituições militares, datadas desde o período de Getúlio Vargas; as teses de Fernando Henrique Cardoso, para entender melhor as configurações do Estado brasileiro; além de outras referências históricas e teóricas, que ultrapassavam a sua área específica de pesquisa. 

Na realização da tese, a pesquisadora também usou muita documentação histórica. Para isso, viajou para o Rio de Janeiro, onde consultou arquivos do Museu de Arte Moderna e da Funarte; para Natal, Paraíba e Pernambuco, estados nos quais os acervos das universidades foram de imensa contribuição para a pesquisa. Nesse ponto, Fabrícia diz que a bolsa concedida pela Fapesp foi de fundamental importância. 

Essa tese do PPGAV contribui para um debate saudável e qualificado, num contexto de muita polarização e adesão a ideias superficiais e pré-concebidas. Ao enfatizar a inteligência estratégica dos artistas, que investiram no ativismo institucional, Fabrícia mostra a resiliência de pessoas que agiram em prol da arte.

Os recentes retrocessos no campo da cultura podem impulsionar um pessimismo generalizado em artistas, pesquisadores e estudantes. Mas, ao mostrar que foi possível resistir mesmo em contextos adversos, a tese certamente oferece esperança. 

“Hoje, temos a negação de tudo no Estado, mas ele não é de um governo ou de um partido. O Estado é nosso”, diz a recém-doutora. 

Texto: Maria Eduarda Nogueira
Foto do destaque: Divulgação/Funarte
Arte: Maria Eduarda Nogueira