O traço apaixonado de um docente-cartunista

Muitos o conhecem pelo apelido carinhoso e é difícil achar algum aluno que não goste de suas aulas de Publicidade ou alguém que não admire seu trabalho. A editoria “O que a ECA tem” dessa semana trata do professor  Dorinho Bastos, o simpático professor do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo, voltado para a área de Publicidade e Propaganda.

Com seu traço característico e sua perspicácia para colocar no pa​pel das Revistas ESPM e no Jornal PropMark o humor de situações cotidianas, é quase impossível não reconhecer um cartum de Heliodoro Teixeira Bastos Filho, ou Dorinho, como é conhecido. Dorinho leciona na Escola de Comunicações e Artes desde 1976. Para ele “no curso de comunicação deve haver um mix de professores teóricos e de professores práticos. Eu sempre fico mais próximo do lado prático”, nesta troca que o aluno acaba aprendendo mais e o lado teórico acaba evoluindo junto com o prático, sendo para o aluno melhor os dois juntos do que separados".

                            

                                                                       Dorinho Bastos

Mesmo não sendo professor em tempo integral na USP,  suas  aulas  são muito requisitadas e bem comentadas entre os alunos. Outro destaque do professor Dorinho na Universidade de São Paulo foi o desenvolvimento do Manual de Identidade Visual da Escola de Comunicações e Artes. Muitos consideram que foi o próprio Dorinho que desenvolveu o logo da ECA, mas ele humildemente revela: “a identidade visual da ECA, formada basicamente pelo logotipo ECA, foi criada pelo professor Julio Plaza, do CAP, na década de 90. Mas na época, não foi feito ou concluído um manual de uso dessa identidade. Com isso a utilização dos elementos ficou sem critério e normas de aplicação. Isso é sempre um convite para gerar uma “confusão visual, característica de nossas instituições”. Sabendo de sua habilidade o então, diretor da ECA, professor Mauro Wilton, convidou-o para desenvolver o manual.

O resultado desse manual foi o distanciamento dos dois logotipos (da USP e da ECA) como o próprio Dorinho conta sobre o processo: “Após o redesenho definitivo do logotipo ECA proposto por Júlio Plaza, simulamos todas as manifestações da marca, em conjunto com o logotipo USP. Como esses dois elementos possuem características gráficas marcantes e com linguagens gráficas distintas, chegamos a conclusão que o afastamento desses elementos seria fundamental para não haver uma “concorrência de leitura”.

O professor também é responsável pelas campanhas de  Recepção aos Calouros da USP, e este trabalho de 16 anos foi premiado pela Reitoria da Universidade de São Paulo, no último dia 16/10 em cerimônia do Conselho Universitário.

 

O caminho

 Dorinho desenha desde pequeno, ele mesmo diz que: “O desenho faz parte da nossa infância. A criança tem uma imensa necessidade de expressão e o desenho tem a característica lúdica, que nos atrai ainda nos primeiros anos de nossas vidas. E o permanente amor pelo traço, vem de um estímulo daqueles que nos cercam. Como sempre digo, D. Maria, minha querida mãe, foi fundamental no meu caminho profissional”. Incentivado pela mãe e com grandes intenções, o pequeno Heliodoro começou a se motivar pelo desenho.

Mais tarde, influenciado pelo Jornal Pasquim, que conseguia burlar a censura do Regime Militar por meio dos cartuns, e grandes artistas, como: Ziraldo, Henfil, Jaguar e Millôr, Dorinho passou a desenvolver seus próprios cartuns sobre diversos assuntos – vale ressaltar os cartuns sobre o São Paulo Futebol Clube, seu time do coração – e associações de profissionais liberais, aviação comercial, pesca, entre outros.

Entretanto, seus grandes destaques estão nas revistas especializadas em Propaganda e Marketing (Jornal PropMark, Revista Propaganda e a Revista ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing), de onde saem uma grande conexão com suas aulas, tanto é que muitos cartuns são feitos com parceria com os alunos. Sua “especialização” tem sido nessas áreas, um grande destaque dessa área é a “Dona Zezé, a moça do café”, publicada na Revista Propaganda, pois mostra uma questão social em que ninguém aceitaria opiniões de uma moça do café, porque em nossa sociedade muitos a tratam como inferior, porém no cartum é a que mais entende de marketing e, dentro da agência de publicidade é quem comanda os trabalhos.

                                      

Uma grande subida no caminho

Pessoas que gostam de assistir televisão devem se lembrar dos “Plim-Plins”, da Rede Globo de Televisão, feitos com animações. O “Plim-Plim” é usado até hoje para marcar o início e final dos intervalos comerciais durante as exibições de filmes, porém durante alguns anos anteriores, o “Plim-Plim” apresentou-se com animações, desenvolvidas por cartunistas.

Um desses cartunistas era o  Dorinho que recebeu o convite com muita alegria, como conta “O convite para participar do Plim-Plim foi bem legal, em função da visibilidade do trabalho. É impressionante o retorno que acontece com a exposição de um trabalho na Globo. Não é por acaso que se torna a mídia mais cara no mercado de comunicação”. Entretanto, o professor de publicidade teve alguns problemas para iniciar o projeto e a solução foi encontrada no mix do curso de comunicação. Eu demorei um tempo para criar o meu Plim-Plim. Queria algo diferente. O briefing era muito aberto. Só recebemos a informação que no final dos 12 segundos de animação, tinha que aparecer o símbolo da Globo, com a vinheta sonora que permanece até hoje. Meu caminho criativo contou com minha característica docente: já que tem que aparecer o símbolo da Globo no final, por que não explicar o seu significado?... Gostaram do caminho. Tanto que ele esteve, isoladamente, durante uma semana, marcando o break de todos os filmes dessa semana. Que eu saiba, foi a única vinheta com essas características de veiculação”.

Para ver ou para relembrar a vinheta de Dorinho, acesse aqui
 

O reconhecimento pelo caminho

Desenvolvida pelos alunos de Arte Publicitária e o Dorinho Bastos, a Campanha de Recepção dos Calouros já está na sua 16ª edição e rendeu ao professor uma homenagem da Reitoria pelos serviços prestados, pois “apesar de ser um momento único para o novo aluno, do ponto de vista da administração da universidade, é sempre um momento também tenso em função dos possíveis exageros nas comemorações”.

O professor divide as homenagens com os alunos e acredita que para eles é uma experiência interessante, pois é a prática do mercado em sua essência. O processo é descrito pelo próprio professor: “os alunos criam as propostas, é uma ótima experiência por ser um trabalho real. Brifado, inclusive, pelo cliente em aula. Todos os trabalhos desenvolvidos nas minhas disciplinas são reais. Os grupos (chamamos de agências) recebem o briefing e entram em “concorrência” com toda a classe”.  Isto torna a matéria interessante e sempre lembrada pelos alunos, até mesmo os que já se formaram.

 

Fotos: Arquivo pessoal e Eduardo Peñuela
Imagem: Susana Sato
Texto: Gustavo Sandin