Onde está a produção teatral de São Paulo? Estudante de artes cênicas faz mapa interativo

Fly Hirano Martins usou plataforma digital para analisar os editais de fomento ao teatro na cidade de São Paulo

O Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo foi criado em 2002. Desde então, beneficiou muitos artistas e grupos de teatro profissionais que – por meio de dois editais anuais – receberam recursos da Prefeitura para realizarem suas atividades. As contrapartidas incluem a realização de espetáculos em várias regiões da cidade. Entender como funciona esse fluxo de peças e onde se concentram os grupos de teatro beneficiados foi um dos objetivos do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Fly Hirano Martins, estudante do Departamento de Artes Cênicas (CAC), sob a orientação de Paulo Vinícius Bio Toledo.

Para o TCC, intitulado Fomento em fluxos de cultura: de incentivo cultural à democratização do acesso, Fly, em conjunto com dois amigos, mapeou os dados relacionados aos editais de 2002 a 2007, período logo após a criação do Programa de Fomento, quando havia um esforço maior para sua consolidação. Os recursos da plataforma Kumu permitiram a observação das relações complexas presentes nos documentos e a interação entre eles, revelando novas informações. Foi por meio do mapa gerado pela Kumu que Fly conseguir observar certas contradições nos editais.

Uma primeira contradição se dá na questão centro-periferia. Segundo o estudante, os critérios adotados pelo programa de fomento dificultam a participação dos grupos teatrais da periferia, privilegiando grupos mais consolidados e que ocupam a região central da cidade. Nas edições analisadas por Fly, são três os critérios principais que agravam este problema: a capacidade de sustentação financeira, o processo continuado e exigências quanto à gestão dos grupos e seus membros. “O edital, apesar de não ir em favor da centralização, ao se abster, acaba engendrando que isso continue acontecendo”, comenta o estudante.  

Assim, os grupos de teatro surgidos na periferia têm mais dificuldade de manter suas atividades, o que leva a uma outra contradição percebida na pesquisa: os grupos periféricos acabam migrando para as regiões centrais. Isso pode ser observado no mapa, que dividiu São Paulo em nove regiões, de acordo com o índice de vulnerabilidade social. “Existe esse fluxo centralizador de quem é periférico. Para a periferia, acaba ficando a ocasionalidade de um grupo central que tem interesse em fazer uma apresentação [lá]”.

Outro objetivo do estudante ao fazer o mapeamento interativo era democratizar o acesso ao edital, que por vezes é conhecido apenas pela categoria artística. Para Fly, é importante também que a população como um todo – e não apenas os profissionais do teatro , tome conhecimento sobre as informações ali contidas, uma vez que se trata do uso de dinheiro público.

Para isso, era fundamental que o trabalho fosse além de simplesmente dispor as informações. Ao fazer uso da plataforma Kumu, a intenção era também facilitar a compreensão desses dados e mostrar, através deles, essas relações existentes nos editais e em seu papel de democratizar, ou não, a produção teatral paulistana. 

Para acessar o mapa criado por Fly, clique aqui