Os mistérios cenográficos na obscuridade do conto

“Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá” - é com essas palavras que começa o conto Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu, que serviu de inspiração para as obras que estão expostas na mostra Caixa Vermelha, que está em cartaz até o dia 31 de agosto, no saguão do Teatro Laboratório da ECA.

A exposição trata-se de um conjunto de projetos cenográficos desenvolvidos pelos alunos da disciplina História da Cenografia e Indumentária, do Departamento de Artes Cênicas (CAC), ministrada pelo professor Marcelo Denny. Os projetos foram realizados por estudantes a partir de impressões, leituras e visões sobre o texto de Caio Fernando Abreu.

De acordo com Marcelo Denny, o professor responsável pela disciplina e pela exposição, o objetivo não era ensinar os alunos a fazerem maquetes, e sim que eles desenvolvessem um conceito próprio. “Cada um desenvolveu um modo de perceber o conto, e aí elaboraram sua maquete a partir da sua percepção, pensando na cenografia, posição da plateia e vários elementos. O mais importante era pensar sobre o texto e sobre o que se quer atingir. Até chegar na maquete nós fizemos várias indagações e questionamentos sobre os signos e as representações.  Criamos um processo que, muitas vezes, acaba sendo mais relevante que o produto final. Criar uma exposição como essa é quase um luxo, um lucro”, comenta o docente.

Vale ressaltar que História da Cenografia e Indumentária é uma disciplina  aberta, na qual se inscrevem não apenas os alunos do 2º ano de Artes Cênicas (para os quais a disciplina é obrigatória), como também estudantes de diversas unidades da USP, como FAU, FFLCH e EACH. Sobre esse aspecto plural da disciplina, Marcelo Denny afirma que nenhum dos alunos tinha a Cenografia como especialização.

Segundo o professor, “apesar de muitos trabalhos não terem um nível de exposição tão apurado, a maioria propôs relações espaciais bastante diversas. O resultado é muito bacana”. Denny ainda comemora o fato de que a maioria dos alunos que cursaram a primeira disciplina se inscreveu para sua sequência – Cenografia I, que será ministrada neste segundo semestre de 2015. Marcelo Denny reitera que Caixa Vermelha é o resultado das instigantes aulas e do empenho e criatividade dos alunos.

O professor ainda explica que, como muitos alunos trouxeram aspectos de iluminação em seus projetos cenográficos, foi concebida a ideia de se fazer a exposição em um local escuro, com um cenário remetente ao ambiente de Dama da Noite.  A não ser a estrutura de madeira, produzida pelos funcionários do Departamento de Artes Cênicas da ECA, todo o cenário da exposição foi idealizado e desenvolvido pelos alunos, incluindo as pinturas, luzes, os escritos com as frases do conto e objetos decorativos.

Uma das estudantes que participou do projeto, Nina Ricci, aluna de Artes Cênicas, teve como inspiração principal a “roda” destacada no conto de Caio Fernando Abreu. Em seu texto de explicação sobre sua obra cenográfica, ela escreve: “A partir da analogia da roda presente no texto Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu, me propus a reflexão sobre o que significa de fato estar dentro ou fora da roda mencionada pelo autor. Cheguei então ao ponto em que acredito ser impossível estar de fora dessa roda; se pensarmos sob outro ponto de vista, nem mesmo a morte é capaz de nos tirar dela, uma vez que o corpo se decompõe e volta a fazer parte desse ciclo de alguma forma”. 

 

Serviço - Caixa Vermelha

Data: de 4 a 31/8
Horário: das 8h às 17h
Local: Saguão do Teatro Laboratório da ECA/USP
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443 - Prédio 8.

 

Texto: Gustavo Pessutti
Fotos: Eduardo Peñuela