Pesquisa mapeia a arte como "gatilho sensível" no espaço urbano

Agraciado com Menção Honrosa no Prêmio Tese Destaque USP, trabalho investigou manifestações artísticas de diferentes regiões do Brasil para refletir sobre a ocupação do espaço público
 

As ruas da cidade conversam conosco o tempo inteiro, seja por meio dos grafites dos edifícios, de uma performance que esbarramos em nosso caminho ou simplesmente pela ocupação inovadora de algum espaço. A arte sempre está lá.
 
Pensando nisso, Brígida Campbell desenvolveu a tese Arte para uma cidade sensível: arte como gatilho sensível para produção de novos imaginários, que acaba de receber Menção Honrosa na categoria Linguística, Letras e Artes do Prêmio Tese Destaque USP. Sob a orientação do professor Mario Celso Ramiro de Andrade, a pesquisa foi realizada no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais e investigou o trabalho de diversos artistas de todo o país que, de alguma  forma, buscam o diálogo com o espectador por meio do uso do espaço público.
 
 
Umas das obras analisadas na tese é esta projeção realizada em prédios de São Paulo. Foto: VJ Suave.

 

O processo de busca pelos gatilhos sensíveis 

A tese está dividida em três grandes eixos: em Arte para uma cidade sensível, a pesquisadora busca traçar um breve panorama da arte políticamente engajada no Brasil; Ocupar, afetar e co-criar um espaço sensível traça um perfil das cidades brasileiras contemporânes e a inserção do artista no contexto urbano e, por último, Respiros de urgência busca descrever as dinâmicas coletivas da produção artística no espaço público.

Brígida, que também atua como artista, explica que sempre teve uma relação muito forte com a arte ligada à cidade enquanto agente de transformação, e que essa foi sua principal motivação para o desenvolvimento da tese. A ideia de fazer o mapeamento, contudo, só surgiu quando deu início às suas pesquisas. “Estudando o tema, eu percebi que não existia uma obra que reunisse todos esses trabalhos. Existem livros sobre os coletivos de São Paulo, encontrei um catálogo de uma exposição do Rio de Janeiro, mas não existia uma pesquisa que reunisse toda essa galera. Foi aí que surgiu o meu trabalho, com o intuito de suprir essa lacuna”.
 
Uma das principais preocupações da pesquisadora foi justamente reunir uma variedade maior de lugares – indo além do eixo Rio-São Paulo  para mostrar como a arte urbana se caracteriza nas várias regiões do Brasil.  Ainda assim, ela reconhece que não é possível dar conta de tudo: “Tem gente da Bahia, de Goiânia, do Sul… isso pra ter uma visão mais do Brasil. Ainda é um recorte, tem muito mais gente, muito mais coletivos. Em São Paulo, por exemplo, ficou muita gente de fora porque não dá pra colocar todo mundo”.
 
A ideia de criação coletiva fez parte da estratégia metodológica da autora no processo de pesquisa e desenvolvimento da tese: foi a partir de entrevistas com 35 artistas que Brígida seguiu para a etapa de mapeamento de suas ações. Além disso, ela realizou duas exposições sobre o tema: uma em Belo Horizonte e outra em Brasília, onde, além de mostrar o trabalho dos artistas, promoveu rodas de conversa abertas ao público. “Eu tinha um professor que dizia que ‘a arte só é arte quando gera conversa’ e eu acredito muito nisso, e foi nisso que baseei minha tese”.
 

Conheça algumas das manifestações artísticas mapeadas  

Um dos trabalhos citados na tese é o projeto Lotes Vagos, de Pedro Silva e Louise Ganz, desenvolvido nas cidades de Belo Horizonte, entre 2005 e 2006, e Fortaleza, em 2008. A proposta consistia em identificar lotes privados que estivessem vazios  e negociar a utilização pública daqueles espaços durante um período de tempo. Os usos dos lotes vazios foram os mais variados: festas de casamentos, bibliotecas, hortas públicas e churrascos são alguns deles. A intenção da dupla era questionar a utilização daqueles espaços e criar situações opostas à lógica da especulação imobiliária. O projeto ganhou tanta notoriedade que, à época, o prefeito de Belo Horizonte pensou em torná-lo uma política pública.
 
 
Imagens do projeto Lotes Vagos, de Pedro Silva e Louise Ganz. Foto: Louise Ganz.
 
Outro projeto que vem de Belo Horizonte é o Cozinhas temporárias nos quintais do Jardim Canadá, de Thislandyourland, formada pelas artistas Louise Ganz e Inês Linke. Elas montavam restaurantes temporários onde tudo o que era servido havia sido preparado com alimentos locais, produzidos pelos próprios moradores do bairro. A ação tinha como objetivo questionar o acesso à terra e a utilização do espaço urbano, além de trazer à tona questões como a insegurança alimentar.

Em Recife, um projeto chamado O Levante, idealizado por Jonathas de Andrade, organizou a 1ª Corrida de Carroças no Centro da Cidade de Recife. Por conta da proibição de animais rurais na cidade, Jonathas tratou a corrida como uma cena de filme e assim conseguiu autorização da prefeitura para fechar ruas no centro da cidade.  O artista realizou a divulgação do evento por meio de panfletos e rapidamente a notícia se espalhou. Ao chegar o dia da corrida, o número de carroças era bem maior que o esperado e apenas dez conseguiram participar. Um cortejo antes da corrida foi organizado para garantir a participação de todos que estavam presentes. O evento serviu para trazer visibilidade aos carroceiros que por muitas vezes são esquecidos no espaço urbano.

 

Prêmio Tese Destaque USP

Criado em 2012, o Prêmio Tese Destaque USP contempla todos os anos as melhores teses nas seguintes categorias: Ciências Agrárias; Ciências Biológicas; Ciências da Saúde; Ciências Exatas e da Terra; Ciências Humanas; Ciências Sociais Aplicadas; Engenharias; Letras, Linguística e Artes; e Multidisciplinar. A premiação distribui 10 mil reais para cada vencedor e 5 mil aos respectivos orientadores.

Neste ano, além da tese de Brígida Campbel como Menção Honrosa na categoria Linguística, Letras e Artes, outro pesquisador da ECA obteve destaque no prêmio. Daniel Gambaro venceu a categoria Ciências Sociais Aplicadas com a tese A Instituição Social do Rádio: (Re)agregando as práticas discursivas na indústria no ecossistema midiático. A pesquisa foi orientada pelo professor Eduardo Vicente e desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA).  Confira uma reportagem sobre a tese neste link

As duas teses de doutorado estão disponíveis para download na íntegra na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. Para baixar a tese de Brígida, clique aqui. Já a tese de Daniel você encontra aqui.
 
 
Texto: Vanessa Evelyn da Silva
Foto de capa: 1ª Corrida de Carroças no Centro da Cidade de Recife, do projeto O Levante. Foto: Reprodução/ Imagem da tese