Pesquisa aponta como os sons influenciam a construção de identidades culturais

Princípio é válido tanto para fã-clubes na internet quanto para a tradição de algumas tribos indígenas essencialmente sonoras

 

A Internet revolucionou as formas de consumo fonográfico e permitiu que novos comportamentos se estabelecessem na sociedade, inclusive a rivalidade entre fãs de diferentes artistas. Em sua tese de doutorado, Ser Sonoro: histórias sobre músicas e seus lugares, Fernando Cespedes discute situações como essa a partir da formação de identidades por meio de sons e desmistifica o aspecto visual como sendo predominante para gerar noções de pertencimento. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) e contou com a orientação de Sérgio Bairon, docente do Departamento de Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Turismo (CRP). 

Cespedes conta que o interesse pela música e a ideia de abordá-la como formadora de identidades socioculturais a nível individual e coletivo foram o ponto de partida para sua tese. Além disso,  ele desejava trazer uma contribuição para o debate em relação aos impactos da Internet nas preferências de um grupo social. “Minha tese parte do princípio de que estamos sempre inseridos em um coletivo e de que, a partir disso, usamos nossas características individuais – como o gosto musical – para nos inserirmos em determinada comunidade”, explica.

Para fundamentar a discussão, Cespedes se valeu da teoria do filósofo alemão Peter Sloterdijk, exposta na trilogia Bolhas, Globos e Espumas. “Cada ‘bolha’ representa um tipo de comunidade fechada, a qual propicia a criação de uma identidade pelos participantes desse grupo. A partir do momento em que esses indivíduos passam a ter contato com outras realidades, essas bolhas evoluem até se tornarem o que o autor chama de ‘espuma’, na qual as fronteiras não são tão definidas, e choques acontecem, podendo levar à incorporação de diferentes comportamentos ou à resistência ao diferente”, conta. Isso se aplica não só aos espaços comunicativos, mas também a diversas questões políticas e sociais, incluindo religião e sexualidade.

O som tem papel importante para os índios Pataxó. Foto: Cimi

 

A música é capaz de consolidar tribos – literalmente

Em relação ao cenário musical, a Internet influenciou diretamente a maneira de produzir e consumir esse tipo de conteúdo. Nesse sentido, os fãs passaram a comprar mais músicas online e reconhecer uns aos outros como apreciadores da mesma banda ou performer, principalmente nas redes sociais. Com isso, membros de diferentes fandoms (comunidades de fãs) passaram a ter contato com usuários que possuíam diferentes gostos musicais, potencializando a expansão de repertório musical ou as rivalidades entre diferentes grupos.

A tese justifica esse cenário com o argumento de que, apesar da forte influência do coletivo na formação identitária, a individualidade ainda é um fator decisivo para a criação da chamada “espuma” de Sloterdijk, ou seja, o contato com novas realidades. Além da dificuldade de lidar com opiniões divergentes, “dentro de um grupo, uma pessoa adquire uma noção de pertencimento, mas também surge a vontade de se destacar entre seus semelhantes. Isso é um dos vários motivos para que ocorram dissidências até mesmo dentro das ‘bolhas’.

Como a música é uma forma de comunicação, ela também pode suscitar conflitos. Fernando cita um exemplo acontecido na edição brasileira do Rock in Rio de 2013, na qual um homem foi agredido por vários fãs de heavy metal ao exibir uma faixa com os dizeres “Molejo é melhor que Iron Maiden” durante o festival.

No entanto, a dinamicidade do “Ser Sonoro” não impacta a cultura apenas de forma a criar tensões, e também não é restrito à cena musical. Pensando nas raízes culturais da apropriação de sons como fator identitário, o pesquisador traçou uma comparação entre a sociedade moderna ocidental – cuja forma de compreensão de mundo predominante é aquela feita por meio de aspectos visuais – e algumas tribos indígenas essencialmente sonoras, como a Pataxó.

Foto: Tibor Janosi Mozes via Pixabay

A intenção do autor com essa comparação foi a de chamar a atenção sobre como o nosso mundo é tão visual que acabamos não percebendo a influência dos sons na nossa formação como indivíduos e como sociedade. “Tudo ao nosso redor acaba por privilegiar a visão – até mesmo o ambiente acadêmico, já que, mesmo falando de música, eu preciso encontrar palavras que possam ser lidas por outros para descrever minha tese. E além de cultural, isso é uma questão fisiológica também, já que nosso cérebro é adaptado para compreender o mundo a sua volta se baseando primeiro na visão”, defende.

 

Áudio x Visual

Mesmo com tantas dissidências, Cespedes garante que não há um sistema cultural melhor que outro – eles são apenas diferentes entre si e impactam as formas de construir uma identidade grupal de acordo com suas características. Na modernidade, a preponderância visual é notável em todos os meios de comunicação, e já vem mudando hábitos sociais. Dados divulgados pelo YouTube no fim do ano passado indicam um crescimento de 135% do consumo de vídeos online pelos brasileiros em relação a 2014. Estima-se que o internauta gaste 19 horas por semana com essa atividade, seja pelo computador, smart TV ou smartphone.

A relação disso com a música é que o apelo visual sempre esteve presente na indústria fonográfica. Hoje em dia, cada vez mais associamos uma canção a seu clipe, por exemplo. “Isso já acontece há um bom tempo e vai continuar sendo uma tendência por conta das questões estruturais (e, consequentemente, identitárias) criadas pelas músicas e pela nossa sociedade. Esse fenômeno só tende a enriquecer nossa experiência e facilitar o reconhecimento e o acesso a novos estilos, fazendo com que nossas ‘bolhas’ se tornem ‘espuma’. Mas é claro que isso pode acabar gerando uma maior noção de alteridade, na melhor das hipóteses, ou continuar sendo motivo para rivalidades que sempre existiram”, conclui o pesquisador.

 

Texto: Laura Alegre, pela Agência Universitária de Notícias (AUN)

Foto do destaque: Pexels