Pesquisa investiga a representação de idosos nas mídias

Com o aumento da expectativa de vida e a redução das taxas de natalidade, a temática da velhice tem ganhado cada vez mais relevância. Segundo dados do IBGE, a proporção de brasileiros com mais de 65 anos em 2018 foi de 9,2% da população (equivalente a 19,2 milhões de idosos), com estimativa de crescimento para 25,5% da população em 2060 (58,2 milhões de idosos). Além disso, existe uma diversidade cada vez maior nas formas de vivenciar e expressar a velhice. 

A observação desse cenário levou a pesquisadora Cíntia Liesenberg a realizar sua tese de doutorado, intitulada Sob o signo do tempo: velhice e envelhecimento em perfis de idosos nas mídias. Tendo como objetivo a identificação e a problematização de representações e discursos relacionados à velhice, a pesquisa foi realizada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), sob orientação da professora Mayra Rodrigues Gomes, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE). Para acessar a tese na íntegra, clique aqui

A partir do levantamento de postagens no Facebook sobre o assunto – que replicavam materiais de vários formatos e fontes –, Cíntia definiu o recorte final do estudo, que se debruçou sobre publicações reproduzidas pelo Portal do Envelhecimento, organização tida como referência no tema. De novembro de 2017 a outubro de 2018, a pesquisadora analisou matérias jornalísticas do gênero perfil, identificando e analisando quatro categorias: velhices anônimas, velhices célebres, velhices lgbti e velhices centenárias.



Matéria sobre Jean-Claude Bernadet, para o Jornal da USP, publicada em 12 de setembro de 2018, compõe o corpus da pesquisa. Foto: Cecília Bastos/ USP Imagens

Uma das conclusões da pesquisa é que esse universo rico de experiências apresentadas nas mídias confirma o resultado de estudos conduzidos por outros autores, que apontam para novas representações do envelhecimento na atualidade. Segundo Cíntia, a tese também “contribui para pensar a importância dos espaços sociais que vem sendo ocupados pelos idosos de forma mais intensa e da importância que a visibilidade desses novos posicionamentos adquire na sociedade contemporânea e do lugar do sujeito que envelhece como um sujeito pleno de desejo, de intensidade, de histórias e potências de vida.”

Em meio a essa diversidade de retratos do envelhecimento, Cíntia identificou a ausência de perfis que abordem a vulnerabilidade e a necessidade de cuidados que muitas vezes a velhice traz e que tendem a ser vistas frequentemente como algo negativo. “Essa é uma questão importante, uma vez que a dependência e a vulnerabilidade precisam ser abordadas, explicitadas, para que possam ser enfrentadas a fim de possibilitar uma velhice mais digna para a população de forma mais ampla”. Para a professora Mayra Rodrigues Gomes, essa questão também pode reverberar em outros campos. O conhecimento sobre representações sociais trazido pela tese oferece, segundo ela, “a tessitura de novas formas de diálogo que contemplem os interesses dessa categoria [idoso]. A partir dela podemos, até mesmo, pensar a instituição de políticas públicas em proteção ao contingente de idade avançada que tem crescido, substancialmente, nos últimos anos”. 

foto banca Cíntia Liesenberg e Mayra Rodrigues Gomes

Banca de doutorado, realizada em 2 de abril de 2019. Da esquerda para a direita: Roseli Aparecida Figaro Paulino, Maria Cristina Palma Mungioli, Beltrina da Purificação da Côrte Pereira, Cíntia Liesenberg, Mayra Rodrigues Gomes, Bárbara Heller e Rosana de Lima Soares. Foto: acervo pessoal

Cíntia acredita que a reflexão sobre as formas de representar o envelhecimento em nossa sociedade deve ser feita de maneira crítica e empática. “A velhice e as certezas que temos sobre ela, para além das questões orgânicas, resultam de uma construção simbólica. Uma construção social, passível de ser questionada, repensada e revista, de maneira a permitir que novas representações ganhem ascensão e que representações preconceituosas, que restrinjam o potencial de vida dos sujeitos nessa fase sejam colocadas em cheque em busca de representações que permitam às pessoas um olhar de maior valorização dessa fase tão rica e importante da vida, em toda a sua abrangência e formas de expressão e vivências que ela permite e apresenta”.

Texto: Amanda Ferreira