Revista Organicom: a precarização do trabalho e uma análise sobre a página "Vagas Arrombadas"

Artigo da revista Organicom reflete sobre a romantização de ofertas de emprego que exploram o trabalhador  

Nos últimos tempos, o termo “empreendedorismo” passou a ser usado frequentemente para referir-se à novas modalidades de trabalho e a uma alternativa possível para o desemprego no país. Contudo, tais expressões vêm carregadas de outros significados que nem sempre correspondem a ser dono do próprio negócio e, por vezes, encobrem situações precárias que afetam o trabalhador. Este e outros temas são objeto de análise no artigo O discurso do empreendedorismo e inovação nas relações de trabalho: um estudo de Vagas Arrombadas, de Daniel Reis Silva e Fábia Pereira Lima, publicado na última edição da revista Organicom, periódico do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP).

Com a crise econômica que já dura mais de quatro anos e o desemprego atingindo mais de 12 milhões de brasileiros, muitos acabam por optar pelo trabalho autônomo. Esse tipo de ocupação é diferente de possuir o próprio negócio, mas hoje está em voga um discurso que afirma que tais modalidades de trabalho se equivalem. Surgem então vagas que intensificam a exploração do trabalhador. São os anúncios desse tipo de trabalho, com atribuições que muitas vezes chegam ao absurdo, que a página Vagas Arrombadas destaca de forma irônica e descontraída, mas também com ar de denúncia.  

Ao estudar estes anúnciosos autores buscaram compreender como "as empresas articulam e naturalizam (e, em certa medida, romantizam) aspectos valorativos acerca da evolução do conceito de trabalho na sociedade contemporânea [...] de forma a revelar  elementos da precarização das relações trabalhistas". 


A página de Facebook Vagas Arrombadas se vale da ironia e do bom-humor para criticar a precarização do trabalho. A cartela de “bingo” é um compilado das exigências mais comuns ou disparatadas feitas pelos anunciantes.  Foto: Reprodução / Facebook/Vagas Arrombadas

Além da constante associação entre empreendedorismo e sucesso certo, os autores destacam uma espécie de mitologia que se constroi em torno da figura do empreendedor, marcada pelo pioneirismo e pelo espírito de sacrifício: “percebe-se que os valores ligados à noção de empreendedorismo (como meritocracia, inovação, risco) – e a figura do empreendedor como uma espécie de herói popular, que encara o futuro incerto e 'vence na vida' – é central nessa nova dinâmica social. O sucesso aparece como o resultado do esforço de quem arrisca inovar, de modo que os sujeitos são incitados a empreender por conta própria em start-ups ou mesmo a investir nas ideias de quem está nelas se arriscando (para isso, devem ter 'mentalidade de dono', não trabalhando apenas pela recompensa financeira) – já que, com sorte, estarão fazendo parte de um grande, criativo e inovador negócio”, afirmam Silva e Lima.

Além deste artigo, a revista traz outros textos sobre o tema, e, um dossiê da maior relevância na atualidade: Inovação e empreendedorismo em comunicação. Usando a metáfora da onda, podemos dizer que este número de Organicom vem para trazer novas visões sobre a vastidão do oceano da inovação e do empreendedorismo. O assunto não é novo, mas demanda visões diferenciadas sobre os processos que estão ocorrendo. 

 Acesse aqui a revista na íntegra.

 

 Sobre a Revista Organicom

Com esta trigésima primeira edição, Organicom – Revista Brasileira de Comunicação Organizacional e Relações Públicas celebra seus quinze anos de existência. Lançada no segundo semestre de 2004, vem, desde então, em cada uma de suas edições, abordando temas contemporâneos e que traduzem necessidades e demandas sociais, por meio de dossiês temáticos do campo comunicacional nas organizações, com colaborações autorais que envolvem estudiosos e especialistas do Brasil e de outros países. Promover  uma aproximação entre a academia e as práticas profissionais, visando a transformações sociais e organizacionais, é, também, um dos seus propósitos.