Revista Ars: quando o Velho Oeste representa os tempos modernos

Artigo da nova edição da revista analisa a série televisiva Westworld

 

Os filmes sobre o Velho Oeste carregam a narrativa dos caubóis, das terras sem lei, dos tiroteios, de uma violência que caminhava paralela ao processo de formação de várias cidades dos Estados Unidos e também de seu imaginário de heróis. Alguns podem pensar que esses tempos  ficaram no passado e em nada se relacionam com os dias de hoje. No entanto, há sim muitos pontos de contato com a atualidade. É o que defende Luiz Carlos Oliveira Junior no artigo "Era uma vez em Westworld", que faz parte da 38ª edição da Revista Ars.

Hoje, uma onda distópica parece existir na sociedade global. Séries ficcionais como Black Mirror  apresentam narrativas perturbadoras sobre os modos de vida contemporâneos, em que a robotização, a pressão por likes nas redes sociais e a tecnologia tomam conta das relações humanas. Sob essa mesma ótica, Westworld, produzida  por  Lisa  Joy  e  Jonathan  Nolan  para  a  emissora HBO, é  uma  série  ficcional  que  estreou  em  2016 e  foi inspirada no filme homônimo de Michael Crichton, de 1973. A história é ambientada em um parque temático que imita o Velho Oeste e explora hipóteses extremas sobre tecnociência, engenharia biomimética e criação de vida artificial. As relações entre máquinas e humanos são representadas de maneiras que problematizam ou até dissolvem as distinções entre ambos.

O Velho Oeste é pano de fundo para o seriado distópico Westworld, da HBO. Foto: reprodução/TecMundo. 

O parque temático de Westworld  não  é  como os outros:  seu  vasto  território  é  povoado  por  andróides  idênticos  aos  humanos. Designados  como  “anfitriões”,  os  robôs  vivem  narrativas  roteirizadas embutidas  em  seus  códigos.  Ao  final  de  cada  jornada,  o  sistema operacional é zerado e reiniciado, de modo que, no dia seguinte, tudo se  repita.  Há  margem  para  a  improvisação  e  o  desvio,  mas  sem  fugir às  diretrizes  do  programa  que  preside o comportamento das máquinas. O entrelaçamento dos loops vividos pelos anfitriões e da  interação  destes  com  os  “convidados”,  como  são chamados os visitantes, gera um verdadeiro emaranhado de  linhas  narrativas que progridem ao longo da série.   

Uma  das  regras  do  parque  é  que  os  convidados  – que  pagam  caro  para  desbravá-lo,  vestidos  como  caubóis,  pistoleiros, apostadores, frontier men – podem fazer o que bem entenderem com os anfitriões, incluindo humilhar, estuprar ou matar. Para manter todo esse sistema em funcionamento, há inúmeros funcionários especializados em informática, engenharia cibernética, medicina pós-humana, psicologia comportamental  aplicada  a  androides  etc.  Tudo  é  acompanhado de  perto  por  supervisores  encarregados  de  zelar  pelos  interesses  da megacorporação  que  custeia  o  empreendimento  e,  obviamente,  por uma equipe de segurança sempre pronta para intervir caso algo saia da ordem “natural” do parque.  

Para o autor do artigo, “o pano de fundo da série é evidente e está infiltrado em cada aspecto por uma realidade moldada pelo capitalismo global – com seus fluxos inacessíveis de informação e dinheiro – e pela onipresença das novas tecnologias. Ambos, o capitalismo-fantasma das transferências virtuais e a pervasividade da tecnologia na vida cotidiana, nutrem uma subjetividade paranoica, próxima do que Fredric Jameson designou, ainda no começo dos anos 1990, como 'paranoia high-tech' ".

Junior ainda ressalta como as transformações políticas da última década aprofundaram esse sentimento de paranoia, levando à "emergência de novos fascismos mundo afora – velhos em conteúdo, na verdade, mas inéditos em suas ferramentas de disseminação e persuasão". No campo do entretenimento e da criação artística, um dos resultados desse fenômeno é justamente a profusão de narrativas distópicas, "acompanhadas por debates sobre o fim da democracia e sobre a enésima crise (talvez terminal) do sujeito humanista moderno”.

 

Outros destaques da Revista Ars

A nova revista Ars traz outros artigos dedicados à comunicação e as artes, como "Publicamos para encontrar camaradas", de Amir Brito Cadôr, que trata das revistas de artista publicadas no Brasil no período de 1952 a 1988. Já Patrícia Martins Santos Freitas aborda a trajetória do artista italiano Bramante Buffoni e sua importância para a compreensão das artes aplicadas como signo da modernidade no Brasil, com o artigo Do cartaz ao mural - Bramante Buffoni e o ambiente ítalo-paulista da década de 1950.

Para ler esses e outros textos acesse a edição na íntegra, no portal de  Revistas da USP.