Redes sociais, jornalismo e democracia: o ambiente informativo em risco na era da informação

Pesquisa realizada no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) mostra o risco gerado pelo crescimento da comunicação direta de políticos nas redes sociais

 

Desde a chegada da internet, o jornalismo vem passando por uma série de transformações. A mudança mais recente, fruto da pandemia, exigiu que os profissionais de comunicação realizassem suas atividades em home office. Tarefas como apuração, entrevistas e reuniões passaram a ocorrer intergralmente por meio das mídias digitais. Essas transformações  somadas à queda do faturamento publicitário que causou uma crise no modelo de negócio fizeram com que diversas redações de jornais fossem fechadas Brasil afora.

 

Outra grande mudança que impactou o fazer jornalístico foi o uso crescente das redes sociais. Hoje elas são uma plataforma capaz de influenciar o resultado de eleições, a depender da maneira que forem utilizadas. Desinformação e fake news se tornaram conceitos amplamente difundidos e encontraram nas redes um ambiente fértil para sua proliferação: segundo uma análise de conteúdo realizada do Laboratório de Mídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), notícias falsas se espalham seis vezes mais rápido do que notícias verdadeiras no Twitter.

 

Ricardo Gandour é jornalista e “vinha de anos como dirigente de redações, acompanhando os sucessivos enxugamentos, cortes e reduções”. Foi diante dessas transformações que ele se perguntou quais seriam os riscos sociais trazidos pela menor preponderância do jornalismo profissional e a maior exposição de informações governamentais nas redes sociais. Dito de outro modo, “o que poderia acontecer com o ecossistema informativo com a expansão do uso das redes sociais, e, ao mesmo tempo, com o flagrante recuo, em tamanho e estrutura, das chamadas redações tradicionais?”

 

Para responder a esta questão, Ricardo fez um mapeamento quantitativo de redações de jornais brasileiros e comparou a atividade digital de jornais com a atividade de governantes no Facebook durante um mesmo período. O resultado pode ser conferido em sua dissertação de mestrado Jornalismo em retração, poder em expansão: como o encolhimento das redações e o uso crescente de redes sociais por governantes podem degradar o ambiente informativo e prejudicar a democracia. Sob orientação do professor Eugênio Bucci, do Departamento de Informação e Cultura (CBD), a pesquisa foi realizada no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGOM).

 

A pesquisa “lança um alerta”, e a escolha destes termos não é por acaso. Nas palavras de Ricardo, “a disseminação do uso das redes sociais por parte de governantes combinada com o recuo da presença dos jornais pode indicar um risco para a qualidade informativa do debate público na democracia contemporânea”. O risco de que a sociedade perca as referências habituais geradas pela atividade jornalística profissional.

 

 

A pesquisa mapeou a atividade digital de governadores no Facebook, a rede social mais utilizada no período em que a análise foi realizada. Imagem: Thomas Ulrich / Pixabay.

 

 

Governantes como Donald Trump e Jair Bolsonaro popularizaram o uso do Twitter para divulgar informações sobre o governo, enquanto uma série de outros políticos se apropriaram dos meios digitais para construír sua imagem e alcançar seus públicos. Mas como esse fenômeno aparentemente comum numa sociedade conectada como a nossa pode afetar o sistema político do país?

 

A comunicação direta do governante com os cidadãos, com os eleitores, sempre existiu: os comícios, as carreatas, as caminhadas nas ruas. O ponto é que as redes levaram isso a um volume enorme e a uma possibilidade de manipulação”, diz Ricardo. O uso crescente das redes por governantes vem acompanhado de ataques à imprensa que colocam em xeque sua credibilidade, promovendo desconfiança em relação à veracidade do que é publicado. Isso enfraquece o papel mediador da imprensa e altera o equilíbrio de forças na definição da agenda pública.

 

O jornalismo tem por uma de suas funções o papel de ser um mediador, deixando claras as fronteiras entre o que é informação, análise e opinião. Sem ter quem faça essa distinção em relação as declarações “oficiais”, perdem-se essas fronteiras e tudo é tido como informação. A consequência é o enfraquecimento e até a perda do diálogo entre diferentes crenças e visões políticas, aspecto essencial de uma sociedade democrática. “O jornalismo nunca foi tão importante e necessário. Especialmente na pandemia isto ficou claro. Informação de credibilidade é vital”, afirma Ricardo.

 

A dissertação de mestrado Jornalismo em retração, poder em expansão: como o encolhimento das redações e o uso crescente de redes sociais por governantes podem degradar o ambiente informativo e prejudicar a democracia pode ser acessada gratuitamente na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

 

 

Texto: Natália Milena

Imagem de destaque: Lommiz / Pixabay