Revista Extraprensa: Facebook pretende construir comunidade global, mas desconsidera diversidade

Última edição da revista traz artigo com análise sobre a nota em que Mark Zuckerberg expressa intenção de formar uma comunidade global através da rede

O Brasil é o terceiro país com o maior número de usuários no Facebook. Os relatórios mostram que 130 milhões de brasileiros possuem perfil na plataforma. Com essa grande quantidade de pessoas na rede, é de se imaginar que o “Face” tenha virado um retrato da sociedade. Ou não. Na verdade, as discussões sobre a diversidade cultural na rede social são bem mais profundas.

Em artigo para a Revista Extraprensa, o pesquisador Gabriel Alarcon Madureira aponta como “o Facebook, ao operar por algoritmos de predileção, não consegue nem ao menos lidar com a diferença de pontos de vista ao radicalizar as opiniões e leituras de mundo a partir das ‘bolhas’ de interesse, quanto mais tocar no cerne de uma diversidade de fato.”

Os chamados algoritmos de predileção acabam por manipular a atmosfera em que o usuário se insere, uma vez que ele passa a consumir apenas conteúdo de acordo com suas inclinações ideológicas e políticas. Esse problema já foi apontado por muitos estudiosos, gerando uma onda de críticas à rede de Zuckerberg. 

Para Madureira, o Facebook vem se afirmando como um “sistema global de circulação de formas simbólicas”, ou seja, como uma plataforma em que são expostas ideias, opiniões e conteúdos que constituem uma determinada visão da sociedade. Embora a rede pregue a diversidade em sua “comunidade global”, essa é apenas uma “verdade seduzida”, já que as formas simbólicas disseminadas pela plataforma excluem concepções de mundo não-hegemônicas. 

Indígenas Suruwahas. Foto: Sebastião Salgado

Um exemplo é uma foto feita por Sebastião Salgado na Amazônia. O fotógrafo capturou um momento do cotidiano dos indígenas Suruwahas, usando suas vestimentas típicas, que expõem parte do corpo. O Facebook censurou a publicação, por conter nudez. Mas, segundo o pesquisador, a contém "a representação artística da própria diversidade cultural,  materializada  em  um modo de vida complexo e repleto de camadas de significado humano simbólico referente ao modo de produção, ao corpo, ao trabalho, à vida e ao gênero. Em síntese, a outra epistemologia não ocidental.”

O Facebook, ao se propor como construtor de uma comunidade global, cai em contradição, uma vez que “toda ação cultural e comunicacional carrega em si intencionalidades políticas e epistemológicas norteadoras de concepções de mundo”. As redes sociais representam uma mudança na forma de se comunicar em sociedade, mas não promoveram uma revolução informacional, uma vez que seguem privilegiando visões de mundo hegemônicas e estruturas de poder já presentes em outras mídias. 

 

A Revista Extraprensa é um periódico destinado à publicação da produção científica nas áreas da cultura e da comunicação no Brasil e América Latina, abrangendo temas como diversidade cultural, cidadania, expressões das culturas populares, artes, mídias alternativas, epistemologia e metodologia em cultura e comunicação. Ela é coordenada pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura  e Comunicação (Celacc).

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