Revista MATRIZes: Fake news, WhatsApp e a vacinação contra febre amarela no Brasil

Um dos artigos da nova edição analisa como usuários do SUS consomem informações sobre saúde

 

Nos últimos anos tem crescido consideravelmente a produção de fake news, tanto no âmbito político, como também em relação a questões de saúde. Diversos boatos circulam até hoje nas redes sociais sobre a ineficácia das vacinas. O volume de mentiras foi tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, pressionou o Facebook para que controlasse mais a difusão de notícias falsas sobre a vacina contra a febre amarela. 

O artigo “Fake news, WhatsApp e a vacinação contra febre amarela no Brasil” analisa sob uma perspectiva etnográfica como determinados usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) consomem e  fazem circular informações sobre vacinação, e se confiam ou não nelas. O trabalho foi escrito por Igor Sacramento e Raquel Paiva, ambos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

A dupla realizou diversas entrevistas no final de 2017 com pessoas prestes a se vacinar contra a febre amarela. Por meio dessas entrevistas foi possível observar "algumas mudanças sensíveis no regime de verdade contemporâneo". Uma das conclusões do artigo é que "as redes de comunicação on-line se hibridizam com outros processos de socialização existentes, especialmente com as crenças religiosas", o que levou os pesquisadores a entender que "a confiança nas informações circulantes está mais relacionada à ordem da convicção do que da persuasão."

 

Whatsapp e a descrença científica

Tem sido comum relacionar a baixa procura por imunização à circulação de fake news. Nos últimos anos, essa é uma das justificativas mais apresentadas em relação ao surto de febre amarela. Um dos fatores que aumentam o impacto das fake news é o fato de nos relacionarmos de uma nova forma, cada vez mais virtual, ou seja, com menos conversas cara a cara. 

Segundo os pesquisadores, estamos passando de um regime de verdade baseado na confiança nas instituições para um outro regime, regulado pelos dogmas, pela intimidade, pela experiência pessoal. É como se fosse uma radicalização do “ver para crer” – frase atribuída ao personagem bíblico Tomé que se tornou um ditado popular –, que exige agora o “viver para crer” e ainda um ter “vivido para ser crível”.

Nesse contexto, a experiência tem legitimado o conhecimento sobre a verdade. É intensamente valorizado um outro tipo de autoridade: a autoridade experiencial. Ela enfatiza o caráter testemunhal – eu vivi, portanto eu sei – e produz na primeira pessoa (naquele que viu, viveu, sentiu) da experiência e da narrativa de um determinando acontecimento a origem da verdade. 

A prevalência da experiência sobre o conhecimento torna difícil o intercâmbio de ideias e informações baseadas em argumentos, que permitiriam a construção da confiança por meio do debate e da persuasão. Com isso, a confiança baseada puramente na convicção, não raro no testemunho de uma experiência relatada por um terceiro, se fortalece e fortalece as redes onde informações imprecisas ou falsas são produzidas e distribuídas. 

 

Outros destaque da Revista MATRIZes

A última edição da Revista MATRIZes traz também dois textos internacionais em seu dossiê: Da classe virtual aos trabalhadores do clique: a forma de trabalho na era das plataformas digitais, de Antonio A. Casilli, e Narrativas transmídia e experiências de maratona: Los casos del comisario Croce, de Ricardo Piglia, como projeto teórico, de Eliseo R. Colón Zayas.

MATRIZes é a revista científica do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da USP. Lançada no segundo semestre de 2007, é destinada à publicação de estudos que tenham por objeto a comunicação em seus múltiplos aspectos e dimensões. Acolhe pesquisas teóricas e empíricas sobre fenômenos comunicacionais, meios de comunicação e mediações comunicativas nas interações sociais. Trata-se de uma publicação aberta às reflexões sobre tecnologias, culturas e linguagens midiáticas em suas implicações sociopolíticas e cognitivas.