Leda Martins aborda os ritos e ancestralidade afro-brasileira em palestra da conferência 2017 da IFTR

A conferência anual da International Federation for Theatre Research (IFTR), pela segunda vez realizada na América Latina, chegou, nessa semana, à ECA. O evento reúne professores e pesquisadores das artes cênicas, bem como alunos da área, vindos de diversos países do mundo, em palestras, mesas de discussão e performances que, até o dia 15 de julho, movimentam a Escola e trazem à tona assuntos variados dentro da temática Geografias Instáveis, Múltiplas Teatralidades.

Segunda-feira, 10 de julho, abriu o evento com a recepção dos participantes e alguns painéis de discussões. No fim da tarde, tiveram início os Key Notes, que compõem o ciclo de palestras principal da semana: Leda Martins, professora da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisadora das relações entre literatura e artes cênicas, abriu a categoria com a apresentação Rito, Performance e Saber: Os Tempos da Memória, onde explorou manifestações da cultura negra no Brasil e suas possíveis interlocuções com teatralidade e memória.

O professor Ferdinando Martins, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), antecedeu a palestrante, explicando os critérios para a seleção dos speakers das Key Notes: foram privilegiadas pesquisadoras mulheres e latino-americanas, sendo que elas compõem três dos quatro nomes da categoria.

Ao tomar a palavra, Leda Martins revelou que tomaria como referência para a conversa "as diferentes tradições performáticas de matrizes afro-brasileiras", em especial a corporificação da memória, enquanto vivência e experiência amparadas na ancestralidade, pensando, ainda, na performance enquanto meio de transmissão dos conhecimentos e manutenção dos saberes. Contudo, antes de entrar no tema, pediu para que os presentes a acompanhassem em uma canção de matriz africana.

Leda é rainha do congado e, sobre essa manifestação cultural afro-brasileira, revelou que "a rainha não dança; dançam para a rainha, mas ela canta". Foto: Arquivo pessoal/Victória Martins

Leda comentou, em seguida, sobre os estudos da performance, "campo relativamente novo", que analisa aspectos da dança, do teatro e de outras manifestações culturais e "requer a presença viva do sujeito para sua realização". Trazendo a visão de múltiplos autores, a palestrante explicou ao público essa área e situou-a perante à ideia de uma recriação de atos e rituais rotineiros, além de agregar à este conceito reflexões acerca de memória e rememoração das sociedades.

Segundo ela, todas as culturas "têm seus modos e meios de lembrar seus acontecimentos" e as artes ocupam, nesses processos, lugar privilegiado, em particular "todas aquelas que utilizam o corpo como agente de memória", e, sendo assim, os estudos da performance consideram esse tópico essencial. Não obstante, nessa manutenção dos saberes, sonoridade e visualidade tornam-se interdependentes, sendo que os rituais são marcados tanto por imagens quanto por ritmos. "Assim, os ritos nos convidam a abrir não apenas os nossos olhares, mas também a nossa capacidade de ouvir e toda a nossa percepção sensorial," revelou.

Entrando na temática das manifestações culturais negras, a palestrante comentou que a África imprimiu seus estímulos nas culturas americanas, bastante encontrados nas artes, que, batizadas pelos saberes africanos, "ostensivamente nos revelam engenhosos e árduos meios de sobrevivência dessa herança", ainda que tenha havido, no Ocidente, uma sistemática repressão desta memória.

Leda Martins: "Nessa perspectiva, o conhecimento não se resguarda apenas nos lugares da memória, como bibliotecas, museus e arquivos, mas constantemente se recria e se transmite nos ambientes de memória, ou seja, nos territórios orais e culturais, gestos e hábitos". Foto: Victória Martins

Mostrando algumas imagens de expressões da cultura afro-brasileira, Leda pontuou que a presença do sagrado é marcante. Além desta característica, a pesquisadora comentou que as sonoridades e oralidades constituem importância extrema no ambiente do rito, de modo que as manifestações vocais e ritmos ressoam a linguagem do corpo, "inscrevendo sujeito emissor num determinado ciclo de expressão, potência e poder”. Assim, de acordo com Leda, "música, movimento, voz e dança" ecoam no corpo "sem hierarquia", produzem saberes e apresentam-se como lastro de memória.

Ao apresentar vídeos de expressões performativas da cultura negra, como a capoeira e a ala do mestre-sala e da porta-bandeira nos desfiles de carnaval, Leda adentrou na posição do corpo nas danças e performances. De acordo com ela, este corpo é um lugar de relação com o espaço, "que guarda e recebe a memória" e, neste processo, "ao percorrer caminhos antes passados pelos ancestrais", o mesmo mimetiza, através das coreografias, uma "circularidade espiralada", fazendo com que a ancestralidade incorpore os acontecimentos presentes. "Em outras palavras," explicou, "o tempo, em sua dinâmica espiralada, só pode ser concebido pelo espaço, através do corpo que o ocupa".

Concluindo, Leda revelou que, na performance ritual negra, os cantos e danças "performam e habitam a memória do futuro, pois canta-se e dança-se não apenas para lembrar os ancestrais, mas para serem, pelos ancestrais, lembrados", sendo a permanência do grupo marcada pelo fato de os ancestrais ainda se recordarem. Deste modo, segundo a pesquisadora, o corpo se estabelece como o lugar do encontro e, da mesma maneira, como o lugar da memória. Antes de sair do palco, contudo, convidou todos os presentes a, novamente, cantar.

A conferência da International Federation for Theatre Research vai até sexta-feira. Todas as palestras e mesas podem ser acompanhadas mediante pagamento.

Texto: Victória Martins