Sítios de memória é tema de iniciação científica realizada por aluna do CBD

Mariana Ramos Crivelente, ex-aluna de Biblioteconomia, desenvolveu um projeto de iniciação científica com a docente Nair Yumiko Kobashi, do Departamento de Ciência e Informação (CBD), denominada Sítios de memória e direitos humanos: arquivos, bibliotecas, museus e centros de documentação da América Latina. O trabalho consiste em um site com o objetivo de colaborar para a construção da memória do processo de transição pós regimes autoritários das décadas de 1960 a 1980.

Ela dedicou dois anos para a pesquisa durante o período em que estava na graduação, sendo que o primeiro ano foi dedicado a auxiliar Kobashi no projeto que esta desenvolvia. No segundo ano, Mariana foi aluna de iniciação científica sem bolsa, pois estagiava na USP e não seria possível realizar o pedido de bolsa.

Mariana Ramos Crivelente, autora da pesquisa, à esquerda, acompanhada da sua orientadora Nair Yumiko Kobashi, docente do CBD, à direita, durante a apresentação do trabalho no SIICUSP. Foto: Mariana Ramos Crivelente

Inicialmente, a docente mandou um e-mail para os alunos informando sobre a disponibilidade de uma vaga de iniciação de científica para abordar outra temática. Mariana se interessou, porém ao conversar com a docente, especialista em vocabulários controlados, termos de buscas em bancos de dados, e responsável pelo Vocabulário controlado da Comissão de Anistia, esta última relatou a dificuldade de encontrar bibliografias dos outros países, comentando sobre a importância de centralizar as informações referente aos sítios de memórias nos países.

Após a conversa, juntando o seu desejo de realizar uma pesquisa científica desde seu primeiro ano na ECA, “eu tinha muita curiosidade de saber como que faz a metodologia da pesquisa, as etapas que você tem que passar para poder construir um projeto”, a estudante definiu que sua pesquisa seria referente aos sítios de memória. Durante o desenvolvimento do trabalho, Mariana relata os diversos obstáculos que teve de contornar para concluir o trabalho, iniciando com a falta de conhecimento sobre todas as ditaduras civil-militares que ocorreram nos países da América Latina e quais países haviam passado por essa situação.

Outra dificuldade foi analisar se os processos que ocorreram em cada país eram uma ditadura militar, necessitando que ela recuperasse a história de cada um desses para saber se houve golpe de estados, buscando entender o que era uma ditadura civil-militar para filtrar quais locais se encaixariam em sua pesquisa. Com isso, ela resumiu os contextos históricos, fez fichas de identificação, além de começar a participar de eventos dessa área para buscar pessoas que tivessem informações acerca de sítios de memória, catalogando cada um dos locais que tinha a informação, tentando saber qual a missão dele, a localização, formas de contato, se havia documentação que abordava o assunto, sendo preciso que a estudante entrasse em contato com cada local para saber essas informações.

Também para a pesquisa, Mariana leu diversos textos, entre eles, os escritos pelo sociólogo Florestan Fernandes onde ele periodiza as ditaduras da América Latina por categorias, colaborando para a estudante delimitar ainda mais o seu eixo de pesquisa, optando pela abordagem de ditaduras contra revolucionárias que realizavam a perseguição de civis. Com todos estes passos, ela acabou delimitando geograficamente quais países poderiam se inserir na pesquisa.

Ao desenvolver o trabalho, ela se deparou com outras dificuldades como a presença de muitos sítios de memória das ditaduras nos Estados Unidos e na Europa. Locais como Paraguai e Honduras têm poucos sítios de memória e os existentes são iniciativas do estado e, portanto, há questionamentos acerca da veracidade das documentações presentes nestes locais.

Pesquisa no campo da biblioteconomia

A aluna ressalta que é importante pontuar o seu papel como pesquisadora no campo da biblioteconomia pois ela não tinha o objetivo de analisar cada um dos documentos, o que seria realizado por um historiador, ou ver o que cada um dos documentos abordava, porque isso seria algo realizado por um jornalista. Seu papel era voltado para o seu campo de atuação. “A biblioteconomia tem que disponibilizar isso para os pesquisadores, historiadores, jornalistas, para quem vai trabalhar com esta informação”, explica.

O papel da biblioteconomia é o de buscar o local mais adequado para oferecer as informações para o público, por isso, a ideia inicial era disponibilizar a sua pesquisa em uma plataforma que fosse acessível para as pessoas. Assim, ela decidiu fazer um blog para postar seu trabalho, porém, no Simpósio Internacional de Iniciação Científica e Tecnológica da USP (SIICUSP), durante a apresentação do trabalho uma docente do curso de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) sugeriu que ela tentasse vincular o site junto à Universidade como forma de institucionalizar a plataforma. Depois da sugestão da professora, ela conversou com o responsável por algumas das plataformas de dados da USP e conseguiu migrar o blog para uma plataforma vinculada à Universidade.

Home do site criado pela aluna do CBD cujo objetivo é divulgar informação sobre sítios e construção da memória dos processo de transição pós regimes autoritários das décadas de 1960 a 1980. Imagem: Divulgação

Avanços no trabalho científico

Para os trabalhos de iniciação científicas realizados na ECA é necessário que o aluno apresente o seu trabalho para a Comissão de Pesquisa da instituição na Semana de Pesquisa da Escola, além de, obrigatoriamente, participar do SIICUSP. No ano passado, o SIICUSP teve a inscrição de 3.424 trabalhos de todas áreas de conhecimento. Destes foram selecionadas 476 pesquisas, sendo sete da ECA, e apresentadas no Centro de Difusão Internacional, nos dias 24 e 25 de outubro.

Mariana apresentou seu trabalho na fase internacional do SIICUSP, mas não foi selecionada entre as pesquisas premiadas com a viagem ao exterior. No entanto, o aluno Thiago Brisolla, do Departamento de Música (CMU), foi selecionado para apresentar trabalho de iniciação científica no exterior. O trabalho realizado por Thiago foi Método para violino de Gaylord Yost: uma análise da aprendizagem motora por meio da repetição e memorização com orientação da professora Eliane Tokeshi, também do CMU.

Neste ano, Crivelente ingressou no Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Informação (PPGCI) da ECA, também com orientação de Nair Kobashi, para pesquisar sobre indicadores de produção científica. Apesar disso, ela procurou por um discente para dar continuidade ao seu projeto de iniciação científica. Um aluno do curso de história enviou o pré-projeto de pesquisa para a Comissão da ECA com o objetivo de possibilitar aprofundamento histórico para o site junto à professora Kobashi.

Ela irá auxiliar o novo bolsista a rever todo o panorama histórico já presente no site e analisá-lo sob a ótica da história; fazer mais atualizações com notícias ligadas aos sítios de memória e as ditaduras, conectando-o com outras plataforma; e buscar outras fontes de informação para complementar o campo de abordagem da pesquisa.

Iniciação científica como experiência acadêmica

Segundo Mariana, realizar um projeto de pesquisa foi um “divisor de águas” para seu desenvolvimento na graduação. Entre os aprendizados com a realização do trabalho científico, ela aponta a necessidade de autonomia do estudante pois, apesar de haver um orientador(a) para colaborar com o desenvolvimento do projeto, “você precisa procurar estratégias para resolver os problemas”.

Além de auxiliar na organização do pensamento acadêmico, fazer uma iniciação científica “não é só necessariamente para quem deseja seguir a área acadêmica, mas para a organização do raciocínio. Você lidar com um problema e pensar em como resolver esse, quais caminhos deve seguir para respondê-lo”. Ela acredita que a iniciação científica é fundamental para todos os alunos, sendo uma forma que também possibilita aos discentes conhecerem a sua área de atuação, além de criar uma rede de pesquisa que é extremamente útil para o trabalho, pois junta pessoas com conhecimento de múltiplas áreas.

Por fim, Crivelente explica que fazer a iniciação científica foi fundamental em diversas situações na pós-graduação, como saber a estruturação de um artigo, como montar uma apresentação, saber as dúvidas da Comissão de Pesquisa e mesmo como escrever o projeto de pesquisa para o mestrado. Sobre a pesquisa científica na graduação, ela conclui afirmando que “foi fundamental”.