Sob olhar do net-ativismo, Di Felice avalia onda de protestos

No Brasil e nos quatros cantos do mundo, os cidadãos, através das tecnologias interativas, do acesso aos bancos de dados e da possibilidade de divulgação do próprio conteúdo, começaram a construir redes que, na maioria dos casos, superam a forma opinativa para desenvolver originais formas colaborativas de ativismo em busca de soluções por meio de uma participação coletiva.

Em junho, o país foi palco de uma série de manifestações, que empenhavam as mais diversas reivindicações, seguindo o desenrolar do que já havia acontecido em outros lugares do mundo, colocando em evidência as práticas de net-ativismo.

Coordenador do Centro de Pesquisa ATOPOS, o professor Massimo Di Felice, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), analisa essas questões há muito tempo. Para ele, apesar das relações com movimentos sociais tradicionais, o net-ativismo possui algumas características muito particulares do seu tempo.

Além disso, Di Felice acredita que as manifestações ocorridas no Brasil durante o mês de junho foi um verdadeiro modelo, um exemplo que será analisado por muitos anos e estará presente em diversos manuais de comunicação como um novo paradigma.

O net-ativismo será tema de um congresso internacional que acontece na ECA entre os dias 6 e 8 de novembro, e que irá receber diversos pesquisadores renomados internacionalmente, como Pierre Lévy, Michel Maffesoli, José Bragança de Miranda, Alberto Abruzzese, além de Massimo Di Felice.

Durante o encontro será lançado o resultado de uma pesquisa inédita sobre Net-Ativismo coordenada pelo ATOPOS, que aborda as experiências nesta área no Brasil, Portugal, Espanha e França, e também será inaugurado o Observatório Internacional sobre o Net-Ativismo.

Para mais informações sobre o I Congresso Internacional de Net-Ativismo, clique aqui.

Confira, na sequência, a entrevista completa com o professor Massimo Di Felice:

Os movimentos ativistas em rede possuem uma história ampla e bastante significativa, com impacto real em diversos episódios da história. Como o senhor avalia a evolução desses movimentos, e quais as principais características que estão presentes nessas iniciativas até hoje, apesar das diferenças da sociedade atual?

Di Felice: Há mais de dez anos me dedico ao estudo dos movimentos net-ativistas, sobretudo na Europa e na América Latina, chegando à conclusão de que o advento das redes digitais e das formas de net-ativismo, embora em alguns casos mantenham um diálogo com algumas reivindicações próprias de movimentos sociais tradicionais, acontecem em espacialidades, formas, práticas e objetivos diferentes. A conflitualidade social, assim como a politica em geral, as nossas formas de relacionarmos, a estrutura do social e tudo o que nos cerca foi qualitativamente transformado pelo processo de digitalização e pela conectividade. Ingressamos num novo âmbito social e num novo tipo de conflito, que não tem nada a ver com a disputa pelo poder e que se coloca externamente em oposição aos espaços da politica moderna (partidos, sindicatos, movimentos estudantis) e que tem na conexão, no acesso e no compartilhamento dos dados e, portanto, não na ideologia, seus elementos constituidores.
 

No Brasil, os movimentos ativistas em rede tiveram grande visibilidade durante as manifestações de junho. Para muitos, inclusive, esses movimentos eram, até então, desconhecidos. O Brasil demorou a dar voz e a perceber a importância desses movimentos? E por que só agora eles conseguiram atrair a atenção da população que não está diretamente envolvida com eles, e ganhar uma maior relevância?

Di Felice: Não acho que o Brasil demorou. Como nos outros países, o Brasil também experimentou o processo de digitalização das formas de conflitualidade. Basta pensar no fenômeno dos hackers, ou nos vários grupos ativos no âmbito do software livre. Certo é que a grande experiência na América Latina foi o zapatismo, nos anos 90, que inaugurou uma nova forma de conflitualidade e foi uma das primeiras formas pós-ideológicas de atuação.


No anos 90, o zapatismo inaugurou, na América Latina, uma nova forma de atuação, que está diretamente relacionada às praticas de net-ativismo vistas atualmente. A imagem, tirada em 1994, ilustra uma marcha de manifestantes zapatistas no México (foto: Le Monde Diplomatique)

O senhor acredita que aquilo que foi visto nas ruas do Brasil em junho realmente já existia na comunicação digital, em redes sociais, por exemplo? De fato, o espírito contestador que invadiu as ruas já estava presente e organizado na rede anteriormente, e que, em junho, ele ‘saiu do Facebook’ – como dizia um dos slogans das manifestações?

Di Felice: As formas de conflitualidade vistas em junho são expressões de um novo tipo de conflito, que nada tem a ver com os movimentos sociais históricos. O que os diferenciam destes são, em primeiro lugar, o local da ação. A primeira diferença é que estes nascem nas redes, surgem das conexões, isto é, das trocas informativas nos social network, saem às ruas, mas, mesmo assim, continuam online, uma vez que os acontecimentos das ruas são por eles mesmos, e por vários outros, filmados, fotografados, comentados online, criando uma singular ecologia que expande a ação a uma dimensão conectiva e tecno-informativa. Em segundo lugar,  se diferenciam nos objetivos. Tais movimentos desenvolvem suas reivindicações nas redes e, portanto, através de uma estratégia construída anteriormente, mas estabelecem metas e finalidades na medida em que se desenvolvem e se transformam pela conexão de mais membros, isto é produzem um tipo de ação comunicativa emergente. Em terceiro lugar ,  se diferenciam também na  forma. Não possuem líderes nem ideologia e, portanto, não podem ser enquadrado nos moldes da política moderna. Enfim em quarto lugar são diferentes também na esfera da identidade. As diferenças dos movimentos sociais que possuem uma clara conotação identitária, que marca sua origem e o define, estes não nascem enquanto expressão de uma ideologia, nem busca se definir no tempo. A lógica que prevalece é a do anonimato, a de expressão de uma crítica a qualquer tipo de identidade e de previsibilidade, este elemento que se manifesta como uma constante em diversos contextos e países.

‘Sair do Facebook’ é um passo além para algum tipo de mobilização social? Ou seja, os movimentos ativistas em rede têm mais impacto e maior poder de transformação quando saem da internet e vão para as ruas?

Di Felice: Me parece que a questão merece uma particular atenção. As formas de conflitualidade social net-ativista exprime uma forma de conflitualidade “atópica”, ou seja, resultado das interações entre indivíduos, dispositivos de conectividades, fluxos informativos e territorialidades. Isso significa que devemos pensar em uma nova teoria da ação que não envolva apenas os sujeitos humanos. Como relatado em outros contextos, os manifestantes que participaram de eventos e passeatas, em diversas latitudes e contextos, nos últimos anos, habitam espaços estendidos que alcançam, através do poder da conexão e das interações de seus dispositivos móveis. Não somente os movimentos e as ações têm, na quase totalidade dos casos, origem nas redes, mas ao sair nas ruas continuam conectados, decidem suas estratégias de ação através da interação contínua com as redes informativas e a troca de informações instantâneas nos social network. Tudo é filmado, gravado, fotografado e imediatamente colocado em rede para o mundo. Não somente eles se deslocam conectados, mas a manifestação acontece, de fato, somente se filmada, fotografada e postada na rede, tornando-se novamente digital, isto é, informação compartilhada e distribuída.  A  ecologia da ação conectada supera os limites das ruas e das cidades para ganhar uma indefinível localidade e se reproduzir além dos espaços urbanos e políticos. Os conflitos são principalmente  informativos, as passeatas promovem a interação entre informações, espaços urbanos e ações interativas. São jogos de trocas de informações entre corpos, dispositivos, circuitos e territorialidades.  São expressões do surgimento de um novo tipo de carne informatizada, que experimenta a sua múltipla dimensão, a informação digital e a sangrenta materialidade  golpeada e machucada. Ambas são reais e nenhuma é separada da outra, mas cada uma ganha a sua veracidade social no seu agenciamento e através do diálogo informatizado com a outra. O sangue dos manifestantes golpeados não cai no chão e no asfalto das ruas, mas derrama-se em espacialidades informativas. A polícia e os aparatos repressores, neste contexto, torna-se mídia, cúmplice de um ato informativo, e os manifestantes experimentam o prazer dolorido de tornar seus corpos informação, elevando a conflitualidade nos bits dos circuitos informativos.


Para o professor, os protestos de junho são um novo paradigma, que representa a passagem de um regime comunicativo centralizado para outro, baseado na descentralização e na produção generalizada de pontos de vista (foto: Gustavo Basso)

Como o senhor avalia o impacto desses movimentos no Brasil para a grande mídia, para as grandes empresas que detêm o monopólio da comunicação? Os movimentos ativistas mostraram que, de fato, têm alcance e são uma alternativa real a essas empresas?

Di Felice: O que aconteceu em junho foi um verdadeiro modelo, um estudo de caso privilegiado, que os manuais de comunicação dos próximos anos relatarão como um momento paradigmático de passagem de um regime comunicativo centralizado (o dos grandes grupos de difusão e dos monopólios) para outro, baseado na descentralização e na produção generalizada de pontos de vista. Não que os monopólios deixaram ou deixarão de existir. Eles continuam existindo, mas nas arquiteturas informativas, com o advento das redes digitais, deixaram de existir os pontos de vistas centrais. A forma de comunicação em redes produz a tomada coletiva das palavras, isto é, um contexto informativo no qual o que conta não é mais o poder ou o carisma da fonte de emissão da informação, mas a avaliação que a informação tem na própria rede, através do poder do clique. São os números do clique que estabelecem o poder de difusão de uma informação.

De que forma o senhor acredita que I Congresso Internacional de Net-Ativismo, que acontecerá em novembro na ECA, pode contribuir com estudos futuros e com os entendimentos sobre as relações entre as redes digitais e as novas práticas de democracia?

Di Felice: Trata-se do primeiro Congresso Internacional de Net-Ativismo no Brasil. Teremos a presença de delegações de estudiosos da temática e de movimentos de países da África, da Europa e da América. No congresso, apresentaremos os resultados da nossa pesquisa, e isso é importante. Mas, sobretudo, teremos a possibilidade de confirmar alguns aspectos teoricamente importantes. O net-ativsimo é um fenômeno global. Ele expressa um novo tipo de ação social e um novo tipo de ecologia da ação humana, tecnológica e informativa. Enquanto expressão de forma comunicativa reticular, o net-ativismo está no mundo inteiro expressando a passagem da politica analógica para a cosmopolítica. O net-ativismo é a expressão do advento de uma nova cultura democrática, não mais baseada na representação ou na delegação, mas no acesso de todos a todas as informações e na conectividade. Tal forma é marcada pela experimentação, no mundo inteiro, de arquiteturas informativas que permitem a tomada colaborativa e coletiva de decisões, como já visto na Espanha, na Itália, na Irlanda e, em poucos meses, também na Argentina.